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Dos mil desejos, apenas um.
Se chamar o seu nome a minha pele responde entre as marcas das tantas algemas dispostas nas portas das minhas saídas e do tempo que faz questão de anotar dia a dia as dores que nos causa ao longo da vida. Não é possível desvencilhar das margens e eu me disfarço muito bem das minhas faltas. Sou intérprete de minha solidão e nunca desafino quando em frente ao que mais temo. Não abro todas as portas para não me soltar eu pássaros. Em mim as falas resultam desejos. E os desejos são reservas das invernadas que atravesso sozinha. Desejo da casa, da caça e da pesca. Desejo de gozo e de descanso. Desejo de soltar a língua e o verbo e ser livre colada à boca dele sempre tão convidativa e insegura.
(tantos desejos traçam caminhos difícieis de cumprir-se: em mim todos os dias acordam manadas correndo em desespero, fugindo do tempo, pulando as cercas, correndo além de pastos. bichos de todos os tamanhos e cores combinam entre si dilatando minhas ilhas. eu tenho todas as faltas do mundo e todas elas descrevem apenas um nome).
Imaginei que recuperaria o fôlego longe do toque, mas as senhas e as palavras que abrem espaços eram todas nativas daquele olhar. Menino safado que me tecia silêncios e taras mas nunca promessas. Dificilmente sobreviveria àquele abraço bom de reencontro. Tantas vezes tentando fugir e milhões de vezes desejando aqueles braços. Eu me reconstruo todos os dias. E todas as noites, desfaço-me retornando sempre ao pó para acordar outras manadas no dia seguinte.
Todos os dias reescrevo o meu próprio nome em vários tons para nunca ser a mesma, conservando a essência de fênix. Sou eu mesma e todos. E quase sempre, sou eu mesma de um lado e outro do tabuleiro. Cheque-mate de mim e de meus conflitos.
Quando minha pele soletra o nome dele, nem importa se ele responderá ou não. Se me tocar, sou toda braile e se sorri, o óbvio é a minha falha, o ponto
Sei da promiscuidade dessas margens e dos atalhos que decifro sem querer. Fazer o que se tudo em mim é trilha em matas fechadas? O meu corpo acostumado à companhia da lua, entende bem que esperas se tecem com fantasias. É preciso tecer o sol todas as manhãs para inaugurar algumas melodias e noites de luas cheias.
Sem a minha própria pele, nem o nome dele eu decifraria.
O melhor dele é o meu pensamento nele. Mata virgem. Palavras guias. Mentiras que ele não disse e aquela boca sempre tão perto longe de mim. E sei dos atalhos e quase sempre recuso parábolas. Pressinto as claras e prefiro chamar o seu nome, como quem resiste ao encantamento das sereias. Finjo que estou dormindo para que o ontem não me assombre e eu ainda imagine que estou à sua mercê, tapete por onde ele pisa e massageia com botas de cano alto.
Quando me toca, ativa as defesas, acende os faróis, põe vigia em minhas torres. Eu sou a menina dele, esperando o colo e os perigos do sim. Nunca mais me dispus a enfrentar o os riscos. Os cabelos em concha me prendem a outros armários e eu o espero, silêncio (mas nunca cativa), como ladrão no meio da noite a encantar com a palavra mãe que põe panos quentes em minha nuca e me despe de esperas de multidões. Sim, eu tenho todos os desejos repletos e nenhum à mão da sensatez.
Fazer o que? Madalena é assim. Não me estranhe. Sinto desejos quase insuportáveis de conter. Resisto à mão dele, apenas quando farta de muitas luas. Mas quando deserto, as suas mãos abrem em mim outros atalhos. Ele conhece todas as chaves e se atrapalha na hora de abrir.
(não levanto bandeiras, não grito palavras de ordem. Minha política é desejo e a minha fala, minha questão de pele).
Sou sempre porta, deixo ferrolhos invisíveis para casos de guerra, apesar da língua presa e da alma que responde pelo desejo. Apenas um desejo entre tantos mil que responde pelo seu nome.
Dira Vieira
P.S. Resultado da primeira aula de Seminários Avançados II (Doutorado em Sociologia - UFPB) do Professor e mágico das palavras: Adriano de Léon e Prof. Artur Perrusi. Impossível sair de uma de suas aulas sem ter a cabeça fervilhando de idéias e questionamentos. Adriano nos dá o roteiro mas sempre torce para que sigamos outros.
:: Postado por
Dira
as
9:51 AM
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Tempo de frio
Fiquei lhe devendo uma carta, um choro, uma despedida, sei lá. Ontem pensei, ao ler um bilhete seu que não nos despedimos. A rota de sua boca quase encostou na minha e eu bem que silenciei o mundo ao redor para receber os seus lábios. Não houve volta e nem ida. O silêncio foi mais duro que cortar os pulsos ou jogar-se de uma ponte. Eu bem que me avisei, não entra nessa Madalena, não entra. Mas como sou teimosa, traço os meus motivos, especulo minhas trilhas como quem caminha lentamente e com muita fome para o matadouro. Eu bem que adoro arriscar a pele, quem sabe eu não me dou bem e acho o pote de ouro no fim do arco-íris?
Dizem que a poesia existe. Eu até tentei acreditar nisso naqueles dias. O homem me esperava aflito; a minha pele pedia a sua, o corpo, a alma, as palavras se demoravam no camarim preparando a melhor fala para dizer o que sabes decorado. Tinha o vocabulário da paixão como um rosário meticulosamente guardado dentro de mim. E eu beata de suas horas marcadas e aparições no meio do dia corrido.
Quando o dia amanhecia eu já me imaginava sua, poema partido, trabalhado em uma página colorida por onde me tocavas. E como me tocava bem ... Sua língua tinha uma sinfonia especial, eu esperava acordá-lo em mim para que me tecesses o dia e o quanto me esperou a vida inteira.
Não tivemos tempo de tecer angústias. Ao seu lado, em distância segura, eu tecia outras paisagens rupestres, desenhos que fazíamos na voz e nas promessas de acasalamento. Eu fui sua, mesmo quando não era presente naquela folha de papel desenhada no meu corpo. Todos os dias me recompunha as folhas e me fazia florescer em seus dedos. Cada frase, cada promessa, cada verso era balada de mascar mentiras.
Eu sempre fui nossa. Mesmo quando nem nos despedimos e eu sabia que nunca mais ouviria a sua voz me chamar pelo nome. Decorei suas falas, suas rimas e o seu cheiro e nunca mais viram Madalena bailar a meia noite. Decorei seus pedidos de socorro, suas angústias, sua solidão sempre tão impossível de compor. Decorei o seu sorriso e seus pêlos. Desconstruo em mim, dia após dia, o desejo e a vontade do dia findo a repousar no seu colo o meu cansaço.
Sou sempre idas, peito aberto a outras quedas mas nunca me desfaço do mote de esperá-lo na rua. Novas cenas abrem outros abismos e ainda assim, ofereço os pulsos à palmatória, ainda que o nada aconteça e os espasmos seja mesmo da minguante fala que nunca quis mais que as margens aos sacrifícios de coragem.
Se é que me sabes, hoje é um tempo de frio, de recolher-se às cavernas e de curva-se longe das tempestades. Um tempo hábil de dar adeus e querer. Um tempo de pensar em você e ensaiar desculpas para essa despedida. Quem sabe assim arrisco outras curvas?
Madalena
:: Postado por
Dira
as
1:31 AM
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Solidão de esfinge
tenho a sensação de um silêncio em preto e branco que sensibiliza os meus dedos. doi tudo em mim como se a falta dele de repente viesse à tona em alguns poucos minutos em que vi a sua silhueta passar por mim. era ele mesmo ou o meu desejo tomando contornos de alma e vindo assombrar quando a noite entra na segunda parte da madrugada? nem me dei conta que alguns anos passaram rápido demais. dos filhos que não tivemos um se chama azul e a outra, pequenina e com a cara dele, tem a poesia e a fala mansa dos vermelhos que acendemos. temos dois filhos que nunca existirão e ainda assim me sinto órfã da falta de esperança de sobreviver à solidão. faz frio nesse corredor de ônibus no meio dessa noite e campina grande abre as portas para o inverno de palavras.
era azul celeste mesmo aquele vestido que ele me deu?
sinto que perdi algumas cenas desse velório. não chorei todas as lágrimas, não enterrei todos os mortos, nem ousei missas de sétimos ou outros dias. eis-me ainda aqui, na rua, cabelos em lilás e a frase solta que nunca mais conseguiu outras rimas. o rosto dele e a barba por fazer fazem cosquinhas em minha memória e lá vamos nós sozinhos novamente para o século passado em eras medievais... sinto-me só como a esfinge plantada na sala de minhas angústias.
Madalena
:: Postado por
Dira
as
3:29 PM
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Banho
(Rural)
Zila Mamede
De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando
um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio
com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio
onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba
e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava
por longo capinzal, cantarolando;
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes
velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.
Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d'água era carícia antiga.
Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.
Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liqüefeita.
Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.
:: Postado por
Dira
as
3:21 PM
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:: Postado por
Dira
as
7:51 PM
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Olhando para trás
Não localizei o autor dessa foto, quem souber, por favor, preciso dos créditos.
Madalena é resolvida. Na cabeça, atitudes, no que quer da vida. Resolve as situações como quem arruma o leque sobre os ombros e sorri para a câmara. Debulha as palavras com maestria e ri de si mesma quando se imagina uma atriz. A atriz que esconde em si a menina que nunca deixou de ser.
E estava ali... Diante dele. Resolvida? Nem tanto. As mãos, suando, o olhar desviando, as imagens de um tempo ontem bailando na sua cabeça. Queria aquela boca... E queria de novo a vida que ele injetava naquele encontro casual. Não programara nada e se tivesse feito, talvez não tivesse sido tão bom. Tantas coisas a contar... Tantas. O pensamento dela criava o palco, mesmo que fosse para um monólogo secular. Estava acostumada a desejos de mão única, mas quem poderia decifrar o poema que se erguia entre as suas lembranças? Madalena deslizava suores frios e tremia com o gelo da sala. Não gelava dentro dela... Sentia sim pontadas na carne de um sentimento que não conseguia decifrar. Seria justo sentir tudo aquilo, tantos anos depois? Não poderia responder e mesmo que tentasse, não aceitava o papel da menina boazinha e compreensiva que lhe nomearam a vida toda. Ali era apenas a Madalena afoita de sentimentos fortes e desejos nada comportados.
Uma atriz. Tinha que conter as vontades sufocando a pele e as mãos que desejavam aquele rosto. A imagem era a mesma de tanto tempo... O menino doce de mãos ágeis, e o ventre de Madalena ávida dos filhos que compuseram juntos. Sinfonia tardia. Gozo protelado a um tempo que não foi possível encenar juntos. Parecia um sonho. Teria direito àquela reprise?
Se fechasse os olhos, enquanto o moço se movimentava em outros mundos à sua frente, poderia (e tinha o poder de) tocar a alma dele. O moço ainda usava as calças apertadas que mostravam o peso das pernas e um caminhar que traduzia a saudade grande que ela encenava diante dos olhos. Lembrava o jeans surrado de outros tempos e o sonho de vencer o mundo, a partir do nada que tinha nas mãos. Não queria sair dali. Nunca mais. Teria que se acostumar àquele olhar pequeno do homem que subiu às nuvens, mas continuava o megalomaníaco adoravelmente insuportável. Ele podia tudo. E era dor saber que sim. Madalena sabia bem.
Inquieta, tentava a melhor posição sobre as nuvens. Não poderia ser diferente. Cada passo que ele dava sua cabeça de menina rodopiava. Não poderia levantar naquele momento com a sensação de que cairia a qualquer momento. Mesmo que tudo aquilo não passasse de uma ilusão da adolescente que acalentou por tantos anos.
Quando finalmente levantou para ir embora, todo o seu corpo disse não. Madalena lutava dentro de suas cavernas para continuar fiel a si mesma. Fiel a tudo o que se negara por tanto tempo. Precisava ir. Precisava olhar para frente numa releitura de possibilidades e realidades. Mas como poderia se e ele ainda a olhava com a mesma poesia?
Quando ele sentou no sofá, insinuando mais tempo de conversa, Madalena fingiu pressa para resistir a proximidade e intimidade que se anunciava tardia naquelas mãos tão próximas de si. Capaz de trair-se se sentasse ali, pertinho da boca que lhe dizia saudades e dores. Apertou as mãos, soluçou o tempo gasto e finalmente acordou daquele momento quando a calçada era a fuga perfeita para a realidade.
Corre, Madalena, corre. Faz um verso, pinta um poema, qualquer curva é melhor para todos os segredos. Corre, Madalena, corre e salva a tua própria pele, ao menos uma vez na vida.
:: Postado por
Dira
as
11:18 AM
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Deitada

Fotografia de Graça Loureiro retirada daqui
O dia se levanta sobre sua pele como uma cobra que se revira enquanto digere o último alimento. O corpo não responde e o burburinho da manhã lá fora bate na janela como pedras jogadas contra a vidraça. O coração demora a acordar as páginas deletadas do tempo que urge na calçada do ontem. Mas nada disso importa a Miguel que se debruça na varanda para ver o dia acordar.
A palavra, língua solta e úmida, conta dos segredos da noite anterior. O vinho, a meia luz, a gargalhada solta da moça (o cenário perfeito para o encantamento), entoavam o som ambiente para o encontro perfeito. Sem rimas, o verso só quebrava quando a última barreira, onda quebrando na praia, esbarrava no céu daquela boca ainda úmida de tanto repetir o nome dele. Ah, Madalena, Madalena, que delírios esconde essa mulher na qual a ausência de todas as culpas a levam para o sim, sempre que o dia se levanta em seu querer.
Debruçado sobre a varanda a esperar a noite, deixa transparecer outro mundo além do balcão da recepção. Citou-a como namorada e depois ficou pensando realmente o que ela seria naquele momento em que todos os seus ossos, células, medula, fios de cabelo, eram de Madalena e apenas dela. Corpo moreno que compunha a cena daquele quarto, onde, na noite anterior, estreara o seu melhor disfarce sobre ela. Não conseguia ser o seu dono, nem ele mesmo pertencia a si ao lado dela. Madalena era livre. E ao seu lado era apenas a materialização dos desejos dela. Madalena era a senhora de todo aquele momento, ambiente, sonhos dele. Os sonhos de Miguel vestiam uma camisola vermelha curtíssima de renda e uma boca que sorria enquanto dormia.
Voltou para dentro do quarto. Viu-a dormindo mas não como um anjo. Além disso. Madalena era a extensão das suas mãos que tateavam nela a esperança dele mesmo existir. E se ela fosse um holograma, Miguel, o homem da varanda, seria também uma ilusão da palavra marfim?
Sentou-se ao lado da cama. Pegou o violão pois sabia que ela gostava de vê-lo tocar. Viu-a chorar na madrugada e ficou em silêncio para não entrar de sapatos em sua vida. Por muitas horas, evitando magoá-la, ou invadi-la, desejou sua boca em silêncio, desenhou seus lábios com os olhos e não ousou roubar-lhe beijos. Antes assim fosse. Um ladrão. Bandido impiedoso que invade o corpo alheio sem pedir licença e deixa a vítima violada e apaixonada. Mas ele não era assim. E talvez faltasse um pedaço por não ser comum a todas as eras. Miguel era único como Madalena alí, deitada naquela cama, como se a manhã não tivesse poder para acordá-la, nem senha para abrir o que ela tão bem escondia. Quem era essa moça que dormia como uma ninfa naquela cama? >
Miguel tocou a canção dela. Não seguia nenhum código, nenhum ritual, nenhum manual. Ele seguia a si mesmo e àquele ímpeto de vê-la acordar suavemente sobre a cama macia. Tocava o violão com tanto respeito que as notas musicais eram como um coro de muitas águas. Seu corpo todo era cachoeira descendo despenhadeiro.
Sua namorada. Pensou e rejeitou a possessividade no mesmo tempo. Não. Madalena era dela. E ele nem a si pertencia. Ela era a namorada dos dias dele. Constrangimento na hora em que o recepcionista perguntou quem era a moça que entrava com ele. O rapaz apenas queria saber o seu nome para o registro obrigatório e Miguel entendeu outra coisa. Não sabia responder. Quando ela entrou no saguão do hotel, todos pararam para vê-la passar. Não era bonita. Ou não tão bonita para isso. Mas Madalena chamava a atenção pela sua sensualidade e meiguice. Era ao mesmo tempo uma mulher e uma menina. As mãos pequeninas, o corpo quase perfeito. Era na sua imperfeição. Miguel se deslocava quilômetros para vê-la, anualmente. Qualquer sacrifício seria pequeno para ouví-la rir, contar o seu dia, dar gargalhadas já "altinha" por três taças de vinho.
Miguel a queria mas não sabia exatamente como isso seria. Nem poderia, Madalena está acima de todas as leis. Aprendera a vida toda a exercer o poder sobre os outros (e a deixar-se dominar por pessoas, sentimentos e situações) ou sobre tudo o que tinha. Com ela aprendera outros tons, outros verbos e algumas palavras perderam o sentido quando finalmente tocou aqueles lábios arredondados que sempre desejou. O beijo daquela moça o suspendia do chão. O toque da língua, o cheiro, as mãos por dentro do cabelo e a entrega que a tornava promessas e desafios.
Madalena lhe ensinava todos os dias a reverter a ordem das coisas e a fazer poesia concreta quando as suas mãos contornava os sonhos dele acariciando o seu ego e injetando vida em suas veias. Naquele momento, deixava que ela se fizesse cenário para a melodia que sussurrava para despertá-la. Miguel era ridículo apaixonado e nem fazia questão de não demonstrar. O amor daquela moça lhe vestia de sonhos e adornava as manhãs em que fugia do mundo para vê-la naquele quarto de hotel.
De qualquer maneira queria ser ali, aquele momento, ao lado e dentro dela porque era apenas assim que se traduzia.
Para os homens sensíveis que quando amam, se desprendem das dores do mundo. Dentre os que conheço e amo: Miguel, Luis, Nélio, Paulo Sérgio, Zeca, Isaque, Marco, César (aldeias).
:: Postado por
Dira
as
3:28 PM
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Na arena

Imagem: O fantasma da Ópera
Alguns pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, o suco escorre como se o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o medo e desfaz-se em voltas que as rimas soletram em sua cabeça – há ventos no céu da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e nada posso fazer daqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até enclausura-se em multidões de si: cada passo é em falso e um abismo completa o outro em prosa. Conta estórias que não quer esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário, deslizantes desejos. Inspira-se na falta como se a palavra dele fosse cântaro onde ela bebe, diariamente e em silêncio mortal. Não quer que ele saiba que é sua sombra, gosta do silêncio e do moço quando a saudade é poesia concreta ardendo suavemente na boca.
Madalena cansa das escolhas que faz e mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse restos de idéias e relatos de suas paixões. Todas as palavras se ressentem da inspiração que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros). E se não fosse aquela música, poderia ser algodão doce na paisagem?
Ela finge que nem lembra, mas cada vez que olha, o atrás é reflexo e pesadelo. A boca dele em concha é o alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Não pode pagar sozinha por todas as culpas. Eu sei. Mas ele não sabe. Quando o amor resseca na boca, é necessário antibióticos miraculosos para sarar ausências. Não sei como sobreviveu sem estrelas até agora. Ela é forte.
Quando caminha, a volta é o frio e todas as portas traduzem gritos. Quem é ela para compor o intervalo e pedir que ele olhe o ontem? O que sente já nem faz eco, e o que soletra já não escreve o nome dele porque esqueceu suas vogais. Uma lacuna e um verso não escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta. Ele é prosa quando se mostra poesia nos olhos que brilham e sorri no momento exato do quando. Mas Madalena não separa a prosa da poesia porque nela, tudo é prazer sem forma.
Há curvas no tempo e todas as vezes que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.
(Uma roda de amigos, conversas ao vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês, e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao impossível).
Madalena se ressente do que não viveu e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.
Toda vez que canta pensa no ontem. E cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não volta, fez sombra em uma eternidade. Nunca esquecerá que no abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido, porque já pertence ao cenário de um espetáculo sem estréia. Vive os fantasmas e o personagem principal que não rende bilheteria e nem fama.
Repete as cenas, reescreve diálogos, relê o passado: toda a falha é síntese que não consegue reemprimir daquelas páginas arrancadas bruscamente. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando nunca, repete-se no final. E o dia ditava a hora em que podia dizer eu te amo com a voz entrecortada pela dor do longe.
Madalena tem sonhos em vantagem e toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem fim – o bilhete é só de ida e o destino, incerto.
Em todos os dias em que não se desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode condenar o tempo por promessas não pagas.
E se ainda tiver fôlego poderá refazer-se palco e brilhar o neon de seu desejo. Haverá sempre outra platéia e um autor em busca de falas.
:: Postado por
Dira
as
12:22 PM
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Faminta
Madalena tem fomes quase maiores que ela. Quando caminha, metade dessas fomes caminha a passos largos atravessando as suas pernas e falando alto como se quisesse duvidar dela. Não sei se tenho pena, ou se eu também queria a sua fome diária de querer o amor a roçar os meus cabelos e tocar a minha boca enquanto me arruma numa poltrona de viagem ao lado dela.
Ontem me falou dessa fome que não consegue controlar e nem denominar, como se pudesse enfileirar, emprateleirar, ou coisa semelhante, as suas vontades. As suas necessidades de amor, chegam a doer no estômago e ela se parte em duas quando está
Enquanto viajávamos ontem me contou do moço, e do outro e do outro. Dos sonhos e das apostas que fazia quase sempre para perder. Ela não se importa com isso. Paga o preço, como eu disse, paga com a dor de talvez não acertar o alvo e cair de cansaço.
Dessas fomes, que por vezes a derruba na cama e a faz comer chocolate por horas a fio, sei que caminha para o pior. O pior de quem tece castelos de areia e de vento. Menina sozinha. Enquanto ele dormia, Madalena o olhava faminta, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando que talvez aquele momento fosse o último. Nem se desse a sua alma, alcançaria o outro que de tão alheio, nem perceberia que ela chorava quando vestiu a roupa e insinuou ir embora. Não queria ir, claro que não. Talvez o mínimo que esperasse era que ele disse não, não vá e ela fingiria resistência mas por fim, deitasse ao lado daquele corpo, que era apenas o corpo mais especial que já tocara. Mas era só isso. E Madalena tem fomes demais para contentar-se com o corpo, o suor e a alegria do prazer no durante.
Queria o que estava por trás, atrás da porta, debaixo do travesseiro, por baixo das cobertas, do edredom. Queria a palavra não dita e talvez a dor de partir sem ouvir o que dizia por tantas vezes e o tempo todo. Eu te amo. Madalena gostava de repetir na intenção de que o outro aprendesse e sussurrasse para ela. Sim, ela amava, mas a fome que tinha, pouquíssimas pessoas a saciaria.
Enquanto me contava, percebi que chorava e massageava a barriga mostrando onde a fome se instalara. Fome de tudo, de olhos, de bocas, de palavras, principalmente palavras que dissessem a ela mais do que ela pretendia ouvir. O mundo inteiro é pouco para a fome de Madalena que se instala além do ventre e vai muito mais fundo do que qualquer raio x possa expor. Quando ama, costuma abrir as comportas e como as chuvas são temporãs, não há represa que a comporte e nem tão pouco, mãos que se adaptem à sua boca, saciando a sede e a fome de todas as ausências. E mesmo assim, me admiro de encontra-la sempre terra fértil e preparada para gerar todos os frutos de que necessita.
Quando o moço dorme e sonha, Madalena derrama rios e deseja margens, corpo aberto na expressão de quem espera. Mas que o desejo, mas que energia, o que está invisível talvez à cena anterior ao toque de midas. Madalena é mata fechada, vontade selvagem de quem viverá seus silêncios e noites sem lua. Nas clareiras que abre em si mesma, Madalena é foco, fogo predador e fêmea e não há quem possa com isso.
Dira Vieira
:: Postado por
Dira
as
4:38 PM
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Hora marcada
Reinventei os dias quando o tive entre as mãos: poesia a cumprir-se como profecia. Hei de te amar enquanto o sopro me doer nas narinas e quando o tarde se fizer hoje nas noites em que fechamos os olhos para suspirar. Sim, eu reinventei a poesia no cheiro, no hálito e na sintonia de ouvir a tua voz, melodiosa canção de ninar enquanto eu sussurrava milhões de vezes o teu nome para acreditar.
Hei de te amar, quando o sono não vem e o relógio avisa do dia amanhecendo como um enfado e nenhuma vontade de levantar. Se o tempo se fecha, se o riso é um choro abafado e se os teus olhinhos me pedem alegria quando eu sei que aquele tempo é o que me desenhas instantes sem promessa, sem registros fotográficos, sem nenhuma marca de descontentamento.
Hei de descobrir a porta para o ontem e o verso contorcionista que segura os dias e revela-se no momento do deixar partir. Deixa eu ir, deixa. Ensina para os filhos, que nunca terei contigo, o quanto de nós que era vidro e nunca quebrou nas tempestades de silêncio. Conta para eles, que nunca virão, que o teu pelo era a minha pele e a tua boca, o mapa dos meus encontros e bússola de perdição. Conta-lhes do teu desejo de como soletramos pesadelos, bocas, dedos, camisola de dormir e o teu pijama de bolinhas que eu vesti sem sentir. Conta tudo. Conta. E não me deixas mentir. Conta de quantas vezes, para fugir, vestimos os avessos e em contrário e nos confundimos entre as nossas pernas quando éramos apenas vontade e fome de nunca existir.
Enquanto isso derrama em mim essa saudade, o suor descendo pelo teu rosto, cascata de desejos alimentando minha boca. Do que nunca perdi por não guardar como marca em um anel que brilha no escuro trago os traços do teu corpo, caminho de ilhas e parágrafos, tempo final de todas as lutas.
Já é tarde. E enquanto arrumo as malas, desembaraço o cabelo acostumado aos teus dedos, me alimento da devoção com que me olhas, saudade e pedido de não vá e eu fecho os olhos para acordar mais viva dessa angústia que é dizer adeus quando a tua boca me morde o céu da boca e eu agradeço a Deus o sopro da vida.
És a tatuagem mais perfeita e que me descola assim, de mim, quando em todas as fases me fazes lua ao teu bel prazer e majestade. E eu, a rainha confusa, letras formando nuvens no azul céu enquanto esquadrinhas e prendes a minha alma na tua canção.
:: Postado por
Dira
as
7:13 PM
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Silêncio nas curvas

Imagem: Cássio Murilo (Santa Luzia, Paraíba)
Madalena estava sem ar como de costume. Quando o emocional se abalava, sentia o ar faltar-lhe nas narinas como a palavra que lhe salivava vida. A boca seca e a língua se enrola em um ritual assombroso de quem procura o chão e encontra vazios.
Sentou-se na praça. A noite silenciada por uma chuva fina, transparente, caia ao seu lado, sem que tocasse os seus cabelos em chapinha – vez por outra, Madalena discute a relação com os seus guardados tamanha a dor que sente sozinha, sem compartilhar com quase ninguém, senão os amigos invisíveis que coleciona para momentos como esses.
Abriu-se como bolsa a procurar alguma coisa ansiosamente. Procurava frases, bilhetinhos deixados sobre a sua mesa do trabalho, promessas, sonhos de menina, uma criança que não conheceu exatamente o frescor das manhãs em um parquinho infantil. Quis encontrar o beijo prometido, a chuva fresca, o brilho no olhar, a ousadia invadindo a blusa e o escuro da noite. Quanto mais procurava, mais se agitava ansiosamente. O ônibus que se perdia na escuridão da madrugada não estava ali, dentro dela, em um folhetim
A chuva, usando de todo o senso comum, curva-se diante da moça de cabelos nada ondulados, que sentava sozinha com a alma aberta em busca de traços do homem que conhecera há dias atrás. Teria sido mesmo o aquele homem ou outro avatar que saltara de dentro do espelho de Alice e lhe tocara como se nunca fora tocada? Madalena era uma página em branco, amassada e jogada no passeio público. O poema, que certamente teria escrito naquela noite ao tocar os lábios carnudos do moço, era agora, apenas um esboço suave na salivação incontinenti daquela hora.
A hora em que a despedida é apenas um aceno e um até logo, como se aquele encontro tivesse sido apenas e unicamente um meteorito no lugar errado e na hora errada, Madalena se ressente de querer sempre o impossível. Porque a pele e a densa nuvem que desce sobre os seus pensamentos descrevem uma cena sem atores e um palco onde apenas o desejo fez dueto de si mesmo.
Ontem ele era apenas um menino e Madalena especialista em descascar nuvens de fumaça.
Recolheu-se no banco, quis olhar para trás e lembrou-se do sal. Volte. Lembrou o pedido do homem de longe quando ela era apenas uma paisagem de sorriso largo e confissões infantis. A amizade desejava líquidos e sonhos da boca do outro, e o proibido se permitiu poesia solene de amores e os pés nos chão alcançando a liberdade.
Dira Vieira
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Dira
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8:29 PM
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Sexta-feira de todas as paixões
Imagem: Sérgio Pinto (Encontros e Desencontros) Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Por dentro de mim, não sou sozinho, sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto minha história, me misturo, mulato não das raças, mas das existências.
[Mia Couto, "Afinal, Carlota Gentina não chegou a voar?", do livro Vozes anoitecidas, 1987]
Tenho medo de dormir algumas noites, como a de hoje. E quando o silêncio é a placa de vídeo prévio sobre o destino açoite, imagino o tempo que ficarei a sós comigo e com os meus monstros habitantes
Em mim, alguns personagens fazem plantão em noites de lua como hoje e esperam, horas a fio, que eu me disponha a ouvi-los, como agora em que eu me sinto rendida a fugir de todas as mãos de mim que puxam a barra do vestido que já foi azul só dele.
A loira que odeia ser chamada de burra; a morena voluptuosa e cheia de maldades; e a bruxa que errou a fórmula de todos os encantamentos e nunca conseguiu a poção correta e exata para acostumar-se quando o amor pede férias e sai a pescar. Todos esses eus me esperam à noite em minha cama, quando eu me encontro em dias como hoje, sem entender como alguns sentimentos se expõem e se retraem numa facilidade de perder de vista a noção do encantamento e do respeito ao outro.
- Era mesmo lilás aquela canção da madrugada em que me vestisses a alma e saímos para encantar? –
Tenho medo, nem vou negar, das noites que se vestem como a de hoje. Uma frieza de sentimentos que me enche os olhos de uma saudade infinita. É como não comer macarrão e não sentir a menor falta disso, já que ao meu lado tenho as marcas de todas as reivindicações de mim e de todos eus. Não acreditar em luas cheias; não dar pérolas e nem beijos calientes em porcos que se reviram em suas poças de lama; não acreditar jamais no amor que pede um tempo ou tira férias e se vai; não mergulhar no amor que não se expõe, que não suja as mãos e que não derrama rios quando a saudade comprime o peito. Sei que de todos a Madalena é a que mais chora: puxa pelo meu braço, chora quando descubro os seus ritos e ainda se joga, peito aberto, vísceras à mostra, toda vez que ensaia amar e arriscar-se aos precipícios. Madalena sabe que nessas histórias de contos e fadas, a bruxa é a atriz principal, e os sapinhos, apenas príncipes desengonçados e mal acostumados a fingir que beijam bem, quando na verdade, é Madalena e todas as mulheres em mim, que arriscam a pele quando o assunto é desvendar e virar a pele pelo averso em tatuagens que sangram poética e deliciosamente.
Os habitantes do meu corpo são prisioneiros de uma sexta da paixão em branco e preto no melhor estilo faroeste sem armas.
Visto o silêncio, como o dele, no mesmo tom, e antecipo a falta para uma madrugada íntima com a coragem que se veste
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Dira
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12:02 AM
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Mulher de tardes

Infelizmente não sei o autor dessa foto que capturei no Google. Se alguém souber, por favor, avise-me.
De faltas. a minha pele sente e me faz rosários de lamúrias quando o dia se veste de uma noite perdida. O clima que se abre pós sol, arrepia e me chama outros sons que eu desconfio fazer parte de minhas angústias. Relaxo as cores, abro um sorriso tímido e toco a pele para ver se transformo a noite em poesia e desperto anjos em mim.
De faltas, a minha angústia me enche de peles o peito e expõe os guardados nunca secretos que explodem sorrisos e gerânios de um tempo quase em meu coração.
- os pensamentos são como ninfas em uma floresta deserta, fujo deles para não acreditar -
Algumas tardes me cobrem com lençóis vermelhos, de cetim, e acendem outras intenções como se abrissem um livro e uma página manchada a dores com frases incompletas. Sou maré cheia ao fim da tarde, e um movimento de tocar e voltar em ondas me faz descobrir que estou mais viva do que morta em saudades.
Sou letras e rabiscos e um desenho ímpar sobre a pele das faltas escrevendo um nome que eu não consigo traduzir. Era ontem e o janeiro diria que eu sentiria essa falha em meu sistema de dados, mas era tarde para voltar atrás o que estava posto sobre a cama tão vazia dele.
De faltas, eu me traduzo outras línguas e em parábolas, me tatuo rede, rosto virado para o que não vejo e tento chamar a sua atenção: nem todas as línguas revelam o que só o coração dele d(e)ialeta para outras ilhas. Sou bug numa tarde de vermelhos e ardências e o mar fazendo voltas na pele em uma sinfonia minuciosa e íntima onde eu te traio em mim na presença da tua lembrança que se manifesta carinhos, redomas e hálito quente.
Sou tardes, hálitos, faltas, pele e um sonho reeditado ano após ano, contando-me desejos que neguei e que se acendem em detalhes todas as vezes que penso tecer.
De faltas eu me traduzo ilhas e uma saudade anelar me conta de promessas que prefiro esquecer.
Dira Vieira
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Dira
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8:28 PM
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Atropelando as chuvas
Imagem capturada na página: http://i78.photobucket.com/albums/j104/poesia_portuguesa/Chuva.jpg
A tela que se mostra o lado fino do olhar é o outro e a sentença sobre a tez de Madalena é cruel. E ela é fria. Escolhe os passos que dará como quem escolhe uma peça de roupa para sair. E tem que ser assim, como o suave desejo que lhe percorre a espinha e é tão só dela o tamanho das asas que escolhe para voar nesse dia.
Quando o dia amanhece, Madalena é outra, em uma estação de trem distante de casa. Revolve os cabelos, olha a imensidão de uma estrada que deixou para trás. O que virá no depois?
Madalena é faminta. E quanto mais o dia vai chegando ao seu final, mais ela se agita como um leão em fúria dentro do quarto. Sua ansiedade geme, eu posso escutar de onde estou que todas as angústias dela dividem o seu corpo em partes de um quebra-cabeça complicado e difícil de atender. Madalena chove como um temporal que cai sobre a cidade deixando as ruas repletas de pedidos de socorro. E o que eu posso fazer da posição confortável de espectador?
Uma fúria feminina, inconstante e líquida me absorve e debilita. Exala um cheiro de fêmea. Doce cheiro. Desenha suas faltas em um espelho encardido na parede de um banheiro fétido na estrada. Entendo a sua angústia latente. Os lábios rosados perdendo o volume pelo peso da idade, e o corpo, tomando proporções que ela nega até a morte. Madalena é rio que corre sem represas... mas ela queria os braços dele a represar as suas ilhas: anda cansada de pastorear sozinha as suas falas.
Madalena é tola. Carrega a angústia de noites sem lua. E quando finalmente é lua cheia, treme dentro do quarto como se suas fomes fossem únicas no mundo. Sei de seus desertos e daquele moço que levou a sua alma azul de mil tons. Nunca mais a teve e sempre que se agita, sei que busca o azul dentro de si para sobreviver. Ultimamente, sua palidez desenha monstros em meu sorriso. Isso me assusta. Onde se perdeu, a minha menina?
Ontem foi assim. A noite descendo devagar como um manto enlouquecedor e Madalena esperando respostas na estação de trem. Queria a sua alma, como antigamente e a paz que a precedia nesses momentos únicos.
Na pele, as marcas em tatuagem falavam dele... Lembranças malditas de tardes sofridas, espaço em branco, lilás de palavras sufocadas e um desejo maior que tudo empurrando a sua vontade para pensar nele. Vai Madalena, só mais uma vez, pensa nele e morre. Morre de uma vez por todas, fecha esse capítulo, encerra essa cena e abre outra chance em seu leque de azuis perfeitos. Talvez fosse apenas louca, com uma insanidade pagã masoquista.
Das pinturas em quarto crescente, Madalena é o vidro que secou na minha melhor cor e tom e eu ainda nem explorei de todo a sua pele macia de suas valsas em tons semi-rosas.
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Dira
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7:51 PM
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Quando o olhar é peixe fora do aquário...

Madalena fixa os olhos no nada e passa a contar as palavras que saem do silêncio de Mário. Uma palavra, duas, interrogação, reticências. Não há em sua estrofe silenciosa nada que se possa formar uma oração. Há um desconexo de dúvidas a cada minuto.
Ela pára. Respira fundo e recomeça a contar. Para que criar uma novela nesse vácuo? Quando a noite de sábado se enrola em uma cortina de silêncio, Madalena realiza uma discussão acerca do vazio que se interpõe entre a sua ausência em si e a do outro.
Metade é ela em frente ao espelho, cabelo molhado, taça de vinho convidando a lua e a insegurança de não ser nada para ele a brincar com as gotas que correm pelo seu corpo ao sair do banho. A pele tem uma textura de mata virgem e de pêlos que esperam luas cheias. Madalena se toca e a noite parece ter outro clima que a joga para a varanda.
Há uma angústia que se instala em seu ventre afastando-a de outras alegrias. Embriagaria todos os sentidos. Deixaria a varanda aberta, dia de chuva fina sobre a sua pele sempre tão úmida de ausência e quereres.
Não ia forjar uma luta, nem ventanias, nu frontal sob o olhar minucioso do gato siamês que brinca com a almofada da sala. Ela poderia insistir por choques elétricos e fios desencapados. Mas seria inútil... se a outra parte não arrepia para que incendiar terra encharcada de águas salgadas?
A noite de sábado poderia ter areia nos pés, sorriso solto, uma ventania. Poderia ter barulho de bocas roçando e pés inquietos procurando outros debaixo da mesa. A noite e o sábado poderiam inventar serestas, ditados populares, poesia concreta, batom vermelho, camisa aberta, olhar de quem quer, e se finge de morto. Poderia quem sabe ser terreno baldio na sua sede de terra molhada. Mas o dia reservou silêncios e angústias e ainda se arrastou para um até breve seco, como se a linha tênue de todas as falas se calassem para sempre, e fosse o fim do mundo.
Madalena é porta fechada e desertos. Melhor assim que inventar rimas pobres e remendos em roupas novinhas em folhas. Se ele não decide, por que ela se traduzia em braile a si mesma? Eu sempre soube que Madalena ama demais. E isso é tão inútil quanto tentar suar em dias de gelo e vácuos. Mário era um camaleão. Madalena era a interpretação de todas as falas e riscos. Água e óleo no dia azul. Nada se mistura mais que as incompletudes quase idênticas. Alguns diálogos não resistiriam às dúvidas. E Madalena sabia de sua boca a contar as meninas que saltavam de seus olhos.
A boca dele é doce. E aquelas mãos já não escreveriam tantos poemas bons porque perdeu a noção do corpo dela em suas mãos. Amar era sacrifício de arte e induções.
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Dira
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9:23 PM
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Arquipélagos na alma

Imagem: Marília Campos
Doce é o cheiro dele. Roupa estendida na varanda, suor de homem que chegou correndo. Madalena comprime o peito e respira fundo para não avançar os sinais que se propôs respeitar. O menino tem a suavidade de uma idade que já foi para ela. E mesmo que afirme milhares de vezes que a sua preferência seja os cabelos grisalhos de um homem maduro, o professor bem que chega perto e entorna os seus cabelos ao vento.
Madalena se protege. Brinca de esconde-revela. Mas se cansa de nunca ser achada por ele. Deixa sempre se revelar na blusa nova que deixou o botão aberto; no batom novo, no sorriso que desamarelou para brilhar azuis para ele. Ele não se decide. Finge não entender quando o grito dela é uma sinfonia solitária e dissonante na lua cheia. Faz de conta que o som da rua é mais alto que a respiração ofegante dela, sempre que toca a pele dela.
Doce é o cheio dele quando se deixa mostrar, as pernas alvas, a barriguinha protuberante, sorriso de quem esconde outros sonhos e outros invisíveis na alma. Madalena não se importa. Importa sim o treme-treme ao meio-dia, sol escaldante, trânsito maluco, suor descendo pelo rosto que nem o ar condicionado do carro consegue aliviar. Ela pede por ele nos sinais vermelhos e quando o verde acena o "vai, canta pra ele", ela sorri se sentindo a bala.
Madalena é desejo de uma história real contada a dois. Mas não está interessada em sofrer por ela, nem ser tão ridícula quanto as cartas que escreve para ele todos os dias. E por falar em dias, esses se arrastam como tartarugas que se caminham para a sombra e fazem Madalena desistir de correr atrás e de lado. É como se sentisse que não há muito tempo para quem amou demais, quis demais e ainda, amargou dias de morrer na praia e no antes, quando o depois era apenas contar as lágrimas derramadas enquanto dirigia todas as velocidades do mundo.
Precisa diminuir a ansiedade, diminuindo as marchas e freando o querer, quando o menino apenas acena na paisagem, mas não é de fato e de direito, terra sua, para que possa ser posseira dessa necessidade que tem de ser dele: boca acenando gostos tão diferentes.
Ontem, quando o cheiro dele invadiu a casa e Madalena achou que completaria a cena, encheu-se de capítulos novos, refez algumas falas mansas, ensaiou desejos, desenhou-se pura numa virgindade de todos os anos em que se desejou virgem e santa, para tocar aquela boca que ela via na fotografia e que moldava o outro lado do travesseiro em que dormia.
Ontem Madalena bem que queria esquecer como as mãos dele cabem em copo em seus seios, e fechou os olhos quando sentiu saudades do que não viveu e que talvez nem viverá, mas mesmo assim, não teve como conter o gozo, quando pensou em seu corpo sobre o dele, como tapete de águas, todos os líquidos e pedidos que fez dela apenas a imagem que ela queria nele, arquipélagos e ilhas incandescentes.
Madalena só queria a tatuagem daquela boca em seu ventre, e ainda assim, era pedir demais da lua cheia. Nem estrelas cadentes lhe dariam tamanha loucura.
Doce é a ilusão de sabê-lo movido pelos cheiros dela... Ainda que seja tarde, ainda que seja breve, o beijo era tudo o que ela mais queria.
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Dira
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10:23 PM
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Um dia ao sol

Patos - Paraíba
Quando o dia amanhece, sinto as pernas não responderem ao meu comando. Patos fica distante 370Km da capital, mais ou menos. Dizem que o sol fez morada aqui. E é verdade. O sol é na verdade o grande vilão dessa cidade. Todas as terças, acordo com a cabeça doendo muito e a pressão oscila entre muito alta ou muito baixa. Amo essa cidade e as portas que ela me abriu, mas quando a tarde cai na terça feira e a noite se promete ausente de sonhos, eu corro para a rodoviária para voltar para casa, em João Pessoa.
Os dias lá, são corridos, de muita alegria e cansaço. Os alunos são parceiros que vamos conquistando ao longo dos semestres. Ser professor, é padecer no paraíso. Nós "sofre", mas nós... É isso. Quando a noite chega e o corpo está moído (uma maratona de aulas das primeiras horas da manhã até às 22 horas), eu não quero mais que minha cama no alojamento das professoras. O sono vem sem que eu espere. E se eu me demoro a trocar palavras com as colegas, sou pega de surpresa durinha de sono com roupa e tudo.
Sinto aquele cheirinho de cidade do interior, cheiro de mato, de terra que se ressente do castigo do sol e à noite, solta uma poeirinha silenciosa. Eu durmo próximo à janela, deixo o vento (quando ele existe) entrar, e até mesmo quando a chuva ensaia uns passos tímidos, deixo que ela me molhe. Sim... porque chuva em Patos é novidade e eu amo, receber essa novidade no meu corpo.
Quando as luzes do apartamento finalmente cedem à escuridão do cansaço coletivo, eu tento me achar antes que o sono me domine completamente. Penso em tanta coisa... penso em organizar-se por essa cidade e estabelecer-me por aqui. Um lugar de silêncio e paz nos fins de semana. A cidade de Patos é uma cidade essencialmente universitária, quando se está em férias ou em fins de semana, isso aqui fica um deserto. E é isso que assusta. Mas ao mesmo tempo, estou precisando de dias de silêncio de mim mesma.
Aqui vivemos em república, como a maioria dos estudantes que são de outras cidades. E a vida em coletivo não é fácil. As pessoas são diferentes, e as culturas, o modo de vida. Não é fácil conciliar e mesmo que o tempo juntas seja muito pouco, mas os conflitos são reais. Alguém que usou utensilhos e não lavou, alguém que não secou o banheiro, alguém que sujou e não limpou. Ou outra que ocupou muito lugar e tomou o espaço de outra entre outras tantas reclamações. A vida é recuo e avanço. Mas na verdade, Patos me deu régua e compasso e eu não reclamo de quase nada, senão unicamente, da solidão de ruas e silêncios quando o corpo queria bailar, flutuar e sonhar que ama. No mais, eu sobrevivo, sempre, às quartas feiras, quando João Pessoa se torna um carinho na pele e na alma.
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Dira
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8:38 AM
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PRÉ LANÇAMENTO
Quem estiver interessado em adquiri-las, faça desde já a reserva pelo e-mail:
Ou deixe seu e-mail nos comentários para que eu possa fazer contato.
Preço de cada livro, já com postagem para dentro do país: R$ 20,00
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2:56 PM
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Gatinhos
Imagem: Jorge Jacinto (1000Imagens)
Brinca de gato e rato. Quando ele quer, chama, e ela, só de pirraça, esconde as garras, finge-se de morta, faz biquinho mas acaba cedendo. Mexe nos cabelos dele, passeia a língua em seus braços e em seu peito nu, ronrona como uma gata manhosa e depois enfia as unhas em suas costas, só para que ele não esqueça quem manda ali.Madalena ri de como deixa o professor incomodado. Mas na verdade, é ela, a moça nada comportada, que, em dedos, treme quando veste a sensualidade na palavra e toca o outro, lá onde a poesia traça palcos e encena sussurros e beijos. Ela nem confessa mas morre de medo de ser ela o rato.
Gostava de vê-lo tímido, olhos confusos se escondendo dos dela. As mãos fazendo gestos arredondados no ar tentavam falar de outras coisas, outras teias que tece enquanto estão longe.
Quando as palavras se gastam e o tempo de olhar o longe conta os dias para o fim, Madalena é sonho e desejo de tatuar-se par no moço. Na briga de gato e rato, a lua mingua e quase, no ontem infindável, ela é ímpar nas decepções de inacabáveis sonhos de nanquim.
Quando ele quer ela é poesia concreta e úmida desenhando possibilidades e rebeldias na pele que tecem, a dois, enquanto se alimentam de luas cheias (a voz miada e sussurrada ao telefone diz tanto, e ele se finge de morto). Quando ela é sim, nem sempre o mundo se parte em dois e se entrega em seus tons. Madalena é sempre solitária, quando ama e quando apenas deseja rios pela vida inteira.
Por ela, subiria outros telhados, contemplaria outras luas e faria serenata em outros quintais, mas foi querer o sorriso do menino rato, os dentinhos de roedores novos e a pele branquinha de lençois virgens com sinais por mordiscar. A sua alma de bruxa deseja a alquimia da boca dele com a sua pele. E para isso, tecerá nuvens e tempestades, adornará os dias de verde e lilás incadescente até que o rato se deite em sua teia, farto de fugir e ávido por suas mordidas.
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Dira
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5:22 PM
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Para responder silêncios
Silenciosa, a madrugada se veste de uma cor que eu não decifro. Cores e formas e o invisível, é a carícia do silêncio se compondo na pele da gente. Nem todos podem compreender quando a noite se veste de festa e sorri sozinha para inaugurar os guardados. Eu nem sei quem sou e ainda assim, ouço o murmúrio de uma chuva fina lá fora e penso que o mundo fala comigo. O mundo talvez não. A noite. A madrugada com os seus segredos e sonhos quase sempre impossíveis.
O longe é a tatuagem em máscara que brilha na televisão e eu já nem acredito que haja parte entre os opostos. Não sinto o cheiro, nem sei do hálito quente ou frio e nem se as mãos abarcam minhas vontades – há tanto por se pensar e querer que nem vale a pena o desejo morno. Todo o querer é mínimo quando a cena se desarma e as cortinas fecham.
Pensava que longe era um lugar que não custasse mais que dois passos e perto de alcançar o outro, mas cada vez que ensaio chuva dentro de mim, invento de desfilar desculpas para o inevitável. Não se pode negar, as portas sempre se fecham quando nos acovardamos diante do nada.
Antes, à noite, fechava bem os olhos até que o redor dormisse para que eu ficasse sozinha com o silêncio. Essa era a senha para pensar em tudo, inclusive no verso inacabado e impossível de terminar. Algumas palavras são ditas no silêncio, na ausência e ao apagar das luzes. Talvez eu peça a ele, para apagar a fala quando precisar sonhar. Ou afagas os meus bichos sempre tão selvagens. Em mim todos os poros são abismos abertos ao ar livre. Livre sou de coisa alguma. E o que temo são as algemas da consciência. Quem pode se livrar das culpas?
- Imaginei o beijo dele como a métrica dos poemas mais complexos. E nem foi. No mínimo a ausência do calafrio na espinha e o tremor da língua me diziam para ir embora o quanto antes.
Traduzo o poema, a canção, os versos provocam barulho ao teclado quando todos os seres dormem. Enquanto a noite descansa, a poesia alardeia sua incompletude bizarra. Nunca ninguém me acompanhou nessa viagem, por anos e anos teci canções que desfiava de meus próprios rosários.
Desconfio que não haja lugar para acompanhantes ao meu lado. Toda viagem é solo, desenho solidão como um casaco surrado, cheio de pó dos dias que eu trago comigo nessa passagem. Levanto, afasto para um lado o sono, (na madrugada, sono é palavra impossível e sem rima) e vou escrever, como se ninguém mais pudesse estar comigo.
Minhas inquietações são olhos brilhando no pedinte que encontro na rua. Estava ali, desenhado na minha cara, o que custei a esconder. Palavras, frases, sons quase inaudíveis, cada vez mais angustiantes. Sempre o que quero é o que nego e digo não. Talvez por ter desafiado o silêncio e ter aprendido a dizer sim quando me convém. Isso talvez seja imperdoável.
Sou quadros desenhados em curvas na parede e pele. Sinuosidades que eu desfilo faminta, mas que ao fim, desconheço-me roteiros e avenidas. Não tenho rumo certo mesmo quando abuso das bússolas. Nem quero saber teu endereço, escapando assim das tuas promessas inúteis. Quando a palavra se esgota, a boca implora e isso é o que eu nunca consigo traduzir.
(E eu lá sei, que ruas – e segredos a – percorrer?)
Eu conto dias e enfileiro carícias para amanhecer mais leve, mas nunca adianta, porque planto dúvidas onde me sobra tempo e madrugadas a compor-me insônias e pesadelos.
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Dira
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5:01 AM
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