Meu Humor

Dira Vieira
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Eu penso nele quando o batom acaba

 

 

Eu penso nele quando a fome me empresta uma mão e me faz procurá-lo por todos os poros. Ele navega em mim, e mesmo assim sinto a sua falta e a falta de todas as presenças que eram meio dia até o finzinho de todas as tardes. Ele me faz falta quando me revira as páginas e deixa a sua poesia como rodapé de minhas saudades e eu percebo que fui carbono em dias que não se deixava marcas de metades. A alma que gritava gêmea, definhou quando lhe negou um beijo. É de látex aquela fala e o sorriso, uma bijouteria de pouco valor ou nenhum valor.

 

Eu penso nele nos dias de feira e nos que ainda assim, me remetem a um cinzeiro de conversa jogada fora. Escrevíamos o amor em silhuetas e estrofes que ele detalhadamente sussurrava e me advinhava as curvas e cores. A poesia era a senha e o álibe o mapa de ansiedades e dúvidas. A cor do dia ele me escolhia quando me abria as asas. 

 

Eu penso nele nos dias que chovem e nos dias em que me parto ao sol, olho a minha pele que não tem mais o brilho da juventude que ele guardou com ele na carteira de cédulas. E quanto mais me prefiro esfinge, mais eu penso nele e a minha alma fica numa metade visível e outra incompreensível. Eu até economizo, mas o batom sempre acaba.

 

Eu penso nele quando o batom dos meus retratos reluzem no espelho e ao contrário me remete a um tempo em que eu delineava a praia de Tambaú e prometia surfe nas ondas de Intermares. (Ainda lembro de ter cruzado o oceano atlântico em sua fala sempre tão aflita de quereres e mágoas). Ele se vestia de minha pele e me contava os centímetros de suas metades dentro do apartamento em que me desenhava amor nas paredes.

 

Eu sempre penso nele quando o travesseiro me conta pesadelos e acordo na madrugada forçando o sol a lembrar-se de mim.

 

Ele se foi levando as minhas senhas, os códigos e o meu melhor vestido azul. E nunca mais desceram as chuvas fora de tempo e as margens fizeram silêncio em respeito às minhas ilhas.

 

Eu penso nele quando o batom acaba.

 

:: Postado por Dira as 4:12 PM

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Beijo

 

 

Primeiro foi o cheiro e a metade de todas as coisas passadas que me fizeram leque diante de outros olhos. Os dele. Olhos de vidraça em manutenção. E no perto, onde aquela boca estava quando eu pensei miragens? Não é carência que molda o desejo. Se assim fosse, o vendedor de picolé que passa na praia me causaria arrepios. Nada contra o vendedor e nem o arrepio que ele possa causar. É que o animal em mim só acende perto dele, de ninguém mais. Mas isso não me tira a paz, ao contrário. Não é a falta que me cria o palco, é a cena que me faz desejar beija-lo quando ele é sorriso e lenda. Não me perguntem exatamente porque a lua acendeu agora minhas faltas e não no antes do que sempre foi depois. Não sei responder. Ele estava ali, pertinho, e a sua invisibilidade era meu porto bem seguro. Algumas culpas envelhecem conosco e só vamos perceber que elas existem quando os valores se confundem e se apresentam desejo.

 

Viro a página todos os dias para escrever novas manhãs. Mas nunca consigo alterar a cor branca e pálida de minhas lembranças, como marca dágua de novos registros. Elas doem, sangram e no fundo, algumas, são pequenas dores de estimação.

 

Ele me pediu um beijo de verdade e eu me apercebi que todos os outros tinham sido de mentirinha. Eu tinha perdido as chaves de abrir o beijo que eu queria ter. Pensei em todas as fomes e aquela espera disfarçada de jejum poético ardia em minha boca um hálito de esperas e sonhos. Era marrom o meu batom.

 

- Quer algo para beber?

- Não, nada.

- Cerveja, coca-cola?

Fiz sinal que não com a cabeça. Ele lia nos meus olhos de minhas outras sedes.

- Beijo na boca, aceita?

- Sim. Respondi brincando. (Tenho sede de tuas falas e a palavra que derramas é a que me preenche e enfarta).

 

O moço fez um silêncio de épocas e de dúvidas. Tantas. O ontem e o antes de depois me diziam, por que não o dei quando? E por fim, o beijo de crianças que arriscam experimentar o novo. Selinho. A boca encostada à minha, ria. E a minha que ria com ela, nem acreditava que seria sim.

 

Eu quis aquele beijo. E outro. E mais outro. Eu quis telefonar e dizer do quanto tremi quando a sua boca fez em mim rios e densa floresta em chamas. Mas não era o tempo, ou era. Nem sei. Sei que as nuvens expostas em um véu anunciavam chuvas fortes e lamaçal de encrencas e eu tive que embarcar naquele vendaval que estrategicamente me tirava dali. Ele sabe que me detém, mas eu não abro com todas as chaves. Aliás, tenho um dispositivo de perigo, e sempre que ele alarma, saio a tempo de não sofrer danos. Quando o dano é inevitável, abro uma clareira, acendo uma fogueira e tento aprender com os passarinhos a não temer as tempestades. 

 

:: Postado por Dira as 8:45 AM

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Memórias do esquecimento

 (Imagem: Achei-a na net, quem souber o autor, por favor, ajude-me a dar os créditos)

 

Sim, pensei nele nessa manhã de uma forma que talvez nem devesse, mas quem vai dizer que posso controlar o pensamento quando as rédeas me faltam nas mãos? Soltei os remos, essa é a verdade. Estive cansada por esses dias para imaginar o que pensar justamente em uma manhã de sol quente e uma promessa no ar. Então, deixei que ele me aparecesse por alguns minutos em minha cabeça.

 

Não deveria, bem sei. Mas foi aquela cena na teve de um comercial que me fez chorar (quando estou incolor, os comerciais me fazem desbotar).

 

Desbotei por todos os lados em uma euforia que já não me conhecia. De onde saltaram aqueles repentes e repentinas extravagâncias? Eu saberia dispor de todas as saídas se naquele momento, exatamente naquele momento alguma luz (quem sabe uma voz superior no meu ouvido) tivesse fechado o sinal para que não pensasse nele. Eu sempre me queixo de lembrar dos meus esquecimentos.

 

Mas pensei, é verdade. De uma forma bem protegida. Não ia me expor a um pensamento que talvez me doesse a espinha dorsal (entre outros prejuízos irreparáveis). Respirei fundo, bem fundo, para dar tempo até de pensar em outra coisa, uma outra imagem, uma poesia, quem sabe. Mas ali estava ele. Bem na frente das minhas idéias... sua boca (sempre essa boca e de ninguém mais) acenava para a minha fragilidade que só eu mesma pensava em esconder. Desligava a teve e corria para fazer alguma coisa mais útil?

 

É. Pensei sim. E agora, nem vou me arrepender. Ele nunca saberá. Nem valeria a pena. O tempo perdido foi apenas meu. E é claro que me protegi para nem sofrer. Minutos depois tinha outra cor e nada de dores. Nem quero voltar ou olhar para trás. Algumas promessas me transformaria em estátua de sal. Sal grosso nas minhas memórias de Alzheimer. Que cor inha mesmo o cabelo dele? Eu não conseguiria delinear sua boca no minuto seguinte. Santa memória de Alzheimer! Tenho a desculpa perfeita! O que seria de mim se sentisse naquele pensamento o cheiro dele, e lembrasse do percurso de suas mãos sobre o meu corpo? Nunca. Apaguei tudo. Amnésia. Disse isso imediatamente quando alguém me viu em outra dimensão. Quem era ele mesmo? Disfarcei para os meus botões. Nem lembro. Amei mesmo? Foi? Como pude? Ele nem era isso tudo. Segundo as minhas amigas, "o-que-mesmo-você-viu-nesse-cara-arrogante"? Eu vi isso também. Claro que a gente vê também os defeitos. Mas eles só servem para a partilha final. E pesam... ui, se pesam no inventário dos mortos.

 

Sei que pensei e agora foi. Desse evento catastrófico e delirante eu nem me recordo mais. Quem se lembraria que aquele beijo molhado ficou tatuado por semanas na minha boca? E que eu guardei a blusa que me fez suar? Tinha um cheiro bom, eu gostava de fechar os olhos e desejar que ele viesse em todos os momentos em que meus guardados eram vazios de memórias. Eu pensava que era dele. E ele fingia que era meu. Mas eu não lembro agora. De nada disso. Mas sei que lembrei de pensar nele naquele dia e ainda nem sinto remorso por isso.

:: Postado por Dira as 8:32 PM

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Para você ouvir

http://www.youtube.com/watch?v=0ukYrdaNSt4

:: Postado por Dira as 12:38 AM

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AmPáginas

 

                                                                                                      Autor da foto: Tiago Martins

 

 

 

Quando ele me dobrou, tinha em mim que as palavras eram as linhas tortas em que ele me gravara. Amanhecer em lírios e uma pitada do ontem ainda sobre nossas peles era brincadeira de boneca. Uma, duas, outras tantas marcas no meu ouvido e o desejo ficava removendo a poeira e sacudindo as estrelas todas as vezes que ele se ausentava de mim. Sempre dizia voltas, mas nunca acreditei dia amanhecendo depois das tempestades.

 

Nem contei quantos calendários eram folhinhas amassadas sobre a penteadeira. Roberto sabia que toda vez me encontraria ali, no exato marco histórico que nos encontramos pela enésima vez. E o mesmo batom, eu sempre cuidava de ser a mesma marca, ele me reconheceria de olhos fechados.

 

- Minha letra em contraste, meu desarranjo poético. Ele sussurrava quando nos víamos na boquinha da noite cheia de vontades.

 

Ontem eu contei quantas vezes me disse que me amava. Quer saber? Tudo mentira. O moço que contava linhas tinha outras estradas e pés descalços para as armadilhas. E num minuto em que me apercebi era tarde em suas mãos. Os dedos, que antes descobriam minha ilhas, tateava o braile da despedida e me despia de todos os planos.  

 

Quando ele me amassou e embaralhou minha páginas eu vi que era um verso quebrado e uma imagem sobre saudades. Nunca mais me vi poesia em outras linhas.

 

Ninguém saberia compor tantas tardes assim. E outros outonos seriam de páginas em branco, mulheres esperando na rodoviária, fim de tarde escurecendo as idéias e uma mulher sozinha a caminhar sobre os ombros nus numa serenata sem som. Nenhuma boca diria mais eu te amo naquele tom. E nem mais o meu batom brilharia naquela camisa branca de cores quando a vontade fosse um verso lírico de raiva e dor.

 

Roberto escreveu outros ritmos e Madalena sou eu, medida rota de saudades e uma página sem sinais de trânsito. Ele desenha mulheres de latas na cabeça e vestidos que disfarçam ausências. E eu, renovo suas palavras e repito suas vontades até que me faça livro e autor novo em outras edições.

:: Postado por Dira as 3:02 AM

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Caixinha de música

 

Desconheço o auto dessa imagem. Capturei no Google.

 

Eu construo vontades onde a fome é ventania. Basta abrir a porta da frente e perceber que ainda estou na mesma caixinha em que ele me colocou, ainda com invólucro de “cuidado, este lado para cima”. Construo então pequenas saídas, passagens secretas, pergaminhos densos por onde os meus pés vão traçando caminhos para longe dele. Longe, bem longe dele e do que essa falta simboliza nessa tempestade. Tentativas inúteis. Ele sempre me encontra quando de propósito cria esquinas em minhas fugas. O secreto é hábil em desvendar os meus tesouros.

 

Eu-digo-e-ela-não-acredita-ela-é-bonita-demais.

 

E o verbo se volta para o infinitivo. Omeleteria que descompassa as idéias e absorve pequenas passagens secretas.

 

- eu disse para ele que meu mapa continha pequenos vácuos e ilusões de ótica e ainda assim ele acreditou que o toque era a promessa mais ousada daquele domingo de agosto.

 

Às favas com a pronúncia sempre tão correta e justinha nos lábios do nome dele. Não me mereço. Nem os favores, nem o cumprimento, nem a saudação de bons ventos. Quero as tempestades no meu vestido e o roncar de um vento impetuoso a trazer-me boas notícias empacotadas com um laço lilás indescritível.

 

Tive-o em minhas mãos, no limite do meu nariz, onde todos os seus odores eram escapes para uma dor insuportável que eu mapeava de saudade. Essa saudade era nominal ao invisível, comparsa de todas as fugas. Eu o neguei tantas vezes em meus delírios febris. Por tantas vezes, antes que o galo anunciasse o dia, eu o neguei, cuspi sobre a face do tempo e disse, basta de lamúrias, o ontem é um copo sujo sobre a pia da cozinha em um dia de falta d´água e vontades.

 

Assim mesmo no desenho que me marco Madalena, imprimo guerras e desbravo conflitos, e ainda assim, o meu discurso é de mais quimeras. Onde me culpo se enfrento os moinhos e desbravo fantasmas? Dos abismos, aprendi a pentear cabelos e em redemoinhos faço franjas no que ele não diz. Estou eterna e limpa onde o que me finjo é a cor escarlate do meu batom e o rebu das unhas tecendo mistérios e entrelinhas.

 

Os cabelos (sempre eles) possuem uma tonalidade que ele desconfia, sempre tive. E quando  mudo o tom, ele me chama a atenção e remete-me ao um passado torto, aquele da caixinha de música e põe-me bailarina a rodopiar sozinha em uma música que ele sussurra para eu ouvir. Ele lembra a música e não lembra as dores que me causa quando me põe a roupa de época e me deixa sozinha a rodopiar na caixinha em sua mesa. A mesa é fria e o som que canto na caixinha é um aboio regado a uma saudade imensa dos dias não vividos.

 

Reclamo dele. Reviro a cara, finjo engano quando o telefone toca. Eu queria mesmo era o hálito quente em minhas veias e o brilho do verbo como verniz das minhas vontades. E nada disso me escolhe pois o que é beco não tem saída e nem tem parte com a essa história.

:: Postado por Dira as 11:50 AM

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Gesticulando sombras

 

Há um gosto estranho em minha boca quando ele chama o meu nome mesmo que sem querer no meio dos tumultos. Os rios secos, tento proteger as nascentes para que possam ressuscitar de vez em quando.

 

Quantos mares me faço enchente em suas cordilheiras se nem ao menos sei das florestas que cresceram onde você fazia morada em mim. O templo é tempo ocioso e já não tenho medo de nada.

 

Como ilha, segredo-me do mundo, separo-me das multidões porque me falta a gota d´água, e os fios invisíveis. Retrato os desertos de como eu me acho esfingindo-me a cada ilusão ou martírio. Tenho os riscos de viver sobre a pele e não me queixo de quase nada.

 

Quando fecho as portas abro em mim as outras mulheres que só eu domo, recrio e me visto de nus para outros descobrimentos. Nunca acreditei no reencantamento até pousar a minha boca sobre a tua, como se despertasse de um longo e dolorido inverno. É um sonho e a Madalena que adormecia em mim se agarrava àquela boca com a fome que não mais sufocaria crias e necessidades íntimas.

 

Eu me neguei tantas vezes que nem Pedro conseguiria contar nos dedos todos os nãos. Disse não quando a boca pronunciava culpas e salivava esperas. Negava-me a contar estrelas, negava-me a chorar as ruas passadas, mas todas as vezes que ele me tocava, nem que fora de longe, passava a revisar minhas páginas viradas e aqueles sinais do diário conjunto exalava todos os desejos por ele. Amava acima de outras lutas e mesmo assim não conseguia escrever outras histórias, deixava sempre um final aberto, um sinal que não avermelhava nunca. Chorava o sim quando nos despedíamos na esquina de casa e Pedro voltava sozinho acompanhando outros abismos.

 

Eu sempre desejo assim, quando a música canta, o silêncio grita e o carro em disparada lambe uma estrada que provoca desertos e medo. Não conheço seus dedos, nem a velocidade do seu pensamento e ainda assim me pressinto tentativas de ser feliz além do que é possível desenhar na minha face apaixonada. Ele sabe e eu desconfio que me engano e todas as tentativas são inúteis para acender castelos na areia. Ele ama a si mesmo no espelho e competir com isso eu não posso. Esqueci de tecer sacrifícios de tolos.

 

Aquele olhar nem sempre me vê e quando se esconde, pisa outras areias, calça outros ritmos, sufoca dores e explode quase sempre onde o meu olhar não o alcançará. O tempo é de choro e de ressentir-se do vazio que me supera, mas o amanhã me traz sorriso e noites insones de puro amor e contentamento. Madalena nunca desiste, reage às tempestades como quem as aproveita para mergulhos mais profundos.

 

Não tenho respostas, nem formularia perguntas impossíveis com suas dúvidas óbvias. Resta esperar que esse dia chuvoso carregado de mistérios traga algum alívio. Enquanto isso, acato silêncios e soletro desejos.          

 

Madalena em mim descansa de mais uma batalha e quanto mais o campo machuca os meus pés, mas me desejo ali, amando-o e desejando-o como se mais nada me completasse quanto aquela imagem do menino que acredita que é alguma espécie de deus.

:: Postado por Dira as 5:00 PM

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Quando o azul é abismo

 

Enquanto me movo na frente do espelho à procura de sons que possam traduzir o meu desejo por ele, alguns pedaços de mim saem fora do quebra-cabeça e se confundem na imagem que me molda no espelho.

O corpo avolumado dos dias e dos desencontros emerge de uma depressão que se arrastou por meses e meses. Eu era sempre o desejo por ele... e fazia-me falta ser a Madalena dos próprios azuis, ondas e um mar em fúria. Ele me desenhava azul quando queria mergulhar e ao pensar que me usava para aplacar seus desgostos, era eu que me aproveitava de seus tons para ser mais feliz.

Íamos ao cinema sempre. Mãos que não se desgrudavam nem para pegar os bombons de doce de leite que ficavam na sacolinha presa à cadeira. Quem olhasse de longe ou no perto-quase-cheiro não poderia supor que dois abismos tão juntos beiravam o paraíso. O abismo dele era a minha identidade secreta. E o que me mostrava fundo o adornava em dias de chuva. Desse jeito a gente se completava e nem entendia direito o porquê já que o encontro era quase de uma impossibilidade crônica.

O meu coração que adornava os cachos nos cabelos era de uma bola azul reluzente... quase beijávamos, quase tocávamos o nosso dentro e quase sonhávamos o mesmo sonho. Éramos o retrato falado do que escrevemos na lousa branca da sala de aula. Opostos como sombra e paisagem.

Não me arrumava para sair com ele. Gostava de senti-lo soltar os cachos nos meus cabelos com os dedos... desembaraçando qualquer dúvida entre nós. Sentia a pulsação dele pertinho de mim e me sentia fora e longe de casa. Quando me contava de uma música nova, de suas saídas com os amigos, sem mim, ou do quanto que pensara em mim, sem ele, era como se assistisse a um filme de encantamentos. O doce lar era a angústia de tantas distâncias. Ele era o longe e eu o pé na estrada. O encontro era na quebra da onda e no beijo do mar.

Se chegasse ao encontro com os cabelos presos ele marcava a testa com sulcos de desaprovação, imediatamente. Em minha cabeça, tinha todos os poemas e as palavras de uma Madalena louca de amor. Eu usava a sua presença para as inspirações que me cabiam daqueles encontros e marcava a própria pele de suores e vinhos.

Eu lhe daria um nome para compor as faltas. E do quanto que a sua ausência denominava vácuos em mim, mas não era necessário. O homem que me cobria de cores tinha as mãos de profeta e batizara-me de vida quando a substância líquida e quase invisível se desenhava boca e batom em mim. Essa era a senha para a presença dele e a escada para sair dos mergulhos quando o azul se tornava dia a dia comigo.

Os sons que busco ao espelho surgem como sinfonias de enclausuramento. Não vou arrumar os cabelos para esperá-lo. Que venham as horas e as marcas na pele. Sou o que me resta do lirismo dos versos moldados no seu corpo. Eu desenho as curvas e me afogo em seus rios, quando as margens de uma estrada nua enlaça-me para outros atalhos. Eu me olho e não me vejo e ainda assim me espero.  

:: Postado por Dira as 11:57 AM

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Rituais

Gosto dessa palavra e do que ela me causa. Alguns rituais são imprescindíveis em alguns momentos. O ano chegou ao fim e como no ano passado, se abateu um branco vazio sobre mim (muito embora alguns afirmem que o branco é a presença de todas as cores - nunca entendi essa mentira, achei q fosse o preto).

2008, ano maravilhoso:

1. Passei no doutorado em Sociologia e em segundo lugar

2. Tive inúmeras respostas de Deus na minha vida pacata e corrida

3. Comecei o ano aprendendo a ser sozinha, não foi fácil

4. Aprendi a fazer feira sozinha, sem roteiros, sem babás, sem personais qualquer coisa

5. Adoeci (e encerro o ano doente) e me vejo curada no ano que virá;

6. Conheci pessoas ímpares no blog do AO, sob a batuta da incrível Loba (Euza Noronha)

7. Descobri que alguns superherois que eu achava que eram o máximo não passavam de pessoas normais, covardes e duvidosas

8. Descobri-me conselheira

9. Descobri-me voluntária

10. Descobri que ainda sei chorar, cair, e levantar

11. Publicamos nossa coletânea (novamente a Loba e a Cherry na frente)

12. Me apaixonei e desapaixonei num piscar de olhos.

13. Descobri que a maioria dos homens lindos, perfeitos e sarados (e SOLTEIROS) são gays.

14. Descobri que preciso descansar e aprendi a ouvir o meu corpo reclamar

15. Descobri que amo as pessoas e não preciso que elas me amem de volta.

16. Descobri que quero emagrecer e ter a boca da Jolie.

17. Descobri que quero ser homem para namorar uns gays lindos e apaixonantes;

18; Descobri que amo a Deus acima de todas as coisas, e resolvi serví-lo da forma como ele me chamou.

19. Descobri que sou fã da AMY, mas detesto a sua aparência anoréxica e drogada.

20. Percebi que sou importante demais para ceder à depressão.

21. Descobri, finalmente que sou uma pessoa internacional, globalizada, mas que ainda morro de medo de dormir no escuro.

22. Tive a certeza que sou linda, anoréxica, gostosa e beijo bem ao espelho, sozinha

23. Descobri sem querer, que o moço que não era gay, ia casar com outra e ele nem sonhava em me contar pessoalmente

24. Descobri que mentira tem pernas curtas e que sou uma sortuda em descobrí-la, SEMPRE.

25. Descobri que posso viver sem a coca cola e essa foi uma das melhores descobertas desse ano de 2008.

26. Descobri que é verdade o ditado: antes só do que mal acompanhado, por isso pretendo dançar comigo mesma em meus sonhos na passagem do ano novo.

27. Tive a incrível sensação de chegar atrasada na minha própria vida em eventos decisivos e íntimos de my life.

28. Descobri que amo, e isso não especifica exatamente um lugar, uma pessoa, um gênero ou qualquer outra classificação humana e vazia.

29. Descobri que alguns príncipes não passavam de sapões que se transformaram após o meu beijo.

30. Tenho sempre a certeza absoluta que posso viver sem chocolate e coca cola, mas que Deus não me tire os poucos e valiosos amigos que Ele me deu ao longo da vida. Eu morreria.

:: Postado por Dira as 11:03 PM

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Ritual

 

 

Meu corpo é feito de caixas, várias e pequeninas caixas de todas as cores. Mas não possuo armários, nem prateleiras, nem rótulos que possam dar nomes aos meus sentimentos. Tudo o que sinto e às vezes vêm de momento, existiu em algum outro lugar... E se eu acreditasse em vidas passadas, diria que as outras Madalenas, Clarices, Suzanas, Berenices, certamente teriam vivido esse coração que agora habita em mim. Mulheres são todas assim. Repletas de cores de todos os sons. E nunca executamos o amor não correspondido.

 

Minha cama é o último lugar onde o meu corpo se encontra. Não tenho endereço certo. O meu cansaço é o meu tempo quando. Perdi as contas de quantos rosários desfiei em memória. Sou meu próprio cárcere e o meu alvo de todas as guerras. Mas não me importo muito com isso. 

 

Meu nome é Madalena e às vezes me inquieto com essa fala que nem sei mesmo se reflete em mim. Todo o dia, como quem escolhe uma roupa para sair, procuro nessas caixas, detalhes que adornem o meu dia. Pequenos e invisíveis detalhes. Pequenos e imperceptíveis desejos. Eu não consigo definir os sentimentos e nem ao menos entender os alheios. Tenho as tintas e outras estimas, mais o desejo de pintar, mesmo em dias de um cinza quase preto ainda me salta o peito e geme. Inútil, ainda não ousei descolorir os meus risos mornos nem minhas utopias. Ainda não perdi a cor lilás que me escrevia nem o resumo dos vôos que me partia em mil partes e cores.  

 

Choro as meninas e as mulheres que matamos todos os dias. Choro as manhãs que não retocarão o batom de suas meninices. Choro as meninas clicadas nas digitais dos sonhos que serão apenas adornos de lápides abandonadas e empoeiradas.

 

Quando o dia é estrada eu aproveito para organizar as listas de todas as coisas dentro de minhas caixas. Não há roteiros, nem um manual de boas vindas. E tudo em mim se mistura e desencaixa. E quando a luz do ônibus apaga, a Madalena sorri para a paisagem escura lá de fora e finge dormir para a multidão. Nem olho para os lados, nem contemplo os vultos que ressonam ao largo, o que me interessa é que não refiro e o que me acorda é o que menos conta. Aproveito a estrada para as faxinas da alma e retiro o pó das minhas intensidades. 

 

Desconstruo a imagem do espelho, recomponho outros detalhes e registro o invisível. Na verdade, eu não sou. Soletro apenas o impossível. O ontem, estampado na imagem reluz a sutileza do que não sei. Sou outras imagens e o que se move ao longe não se escreve em linhas tortas. Não se pode querer saber o que o outro pensa. É megalomania se achar sabedor de todos os mundos. O que é verdade tem outras versões. E a que menos importa é o que está exposto no outdoor. Sou outras falhas e ritos. 

 

-    o amor não se faz fatura vencida e nem se submete a bancos em greves. tudo é delírio e coma.

 

Eu tenho detalhes que ninguém lê e todas as vezes que pinto em face, no batom vermelho incandescente e na máscara do dia, revelo a nudez que desconcerta e cria. Minha memória é falha na ordem do dia. E a minha falta nunca foi tão ausente.

:: Postado por Dira as 6:34 PM

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O Dia das Crianças

 

Imagem: Crianças cubanas,  clique na foto para ir ao site que armazena essa imagem

 

Primeiro ato: Algumas coisas me incomodam nesse dia. E eu não consigo ficar sem dizer uma palavra. O dia das crianças, o dia dos professores, o dia disso, o dia daquilo. Compreendo todo o processo capitalista de instituir dias para esses lucros. Não me reporto a isso porque também não posso conter o capitalismo. Nem eu mesma consigo fugir dele, já que vivo quebrando cartões para não trocar a alegria de não dever pelo consumo enlouquecido.

 

Ainda estou ressacada pelas últimas eleições. Não me conformo do meu canditato não ter vencido. Mas sou movida 80% pela emoção e apenas 20% pela razão. E isso me entristece ver pessoas novas na política e já comprando votos. Isso me deixa estarrecida. O fenômeno da caradepau não só aconteceu na capital. O estado todo viu a campanha da compra do voto, com excessão de Pombal, onde a justiça realmente foi feita com a candidata e agora prefeita, Pollyana (que eu nem vou contar aqui porque é loooonga).

 

Segundo ato: Quando os meus filhos eram menores eu não podia comprar presentes no Natal, nem no dia das crianças. Hoje que eles não são mais crianças, eu compro para os afilhados, os vizinhos, e alguns parentes. Vejo a alegria dos olhos deles, mesmo quando o presente é singelo. Isso me deixa imensamente feliz.

 

Terceiro ato: Hoje ao deixar uns presentes na casa de uma amiga, não esperava que lá estivessem outras crianças. E nem podia levar para todas, mas me chamou a atenção a reação de uma menininha quando eu chegava com uma boneca para a outra, a dona da casa. Ela não entendeu nada. E caiu em um desespero que me cortou o coração. Criança não perdoa. E nem vai entender o que houve ali. Eu sei bem o que é trauma de infância por não ganhar presentes em datas assim.

 

Ao lado, uma mocinha, com um problema sério de pele e na face, explicava a sua peregrinação pelos postos de saúde e hospitais da cidade em busca de ajuda médica. Sem sucesso (Socorro, alguem arruma um Dermatologista por aí?) E ela tem apenas 15 anos, nenhum documento e órfã de mãe. Com ela, a tia, minha amiga, com três dias de resguardo do quarto filho. Depois de peregrinar por uma laqueadura, a bebê não aguentou e nasceu normal. Ruim para ela que penou nas mãos do médico que a atendeu em um hospital da capital e ainda obrigada a ter cesareana, quando foi proibida por outro médico a ter normal, desde o primeiro filho. E esse era o quarto, sem que ninguém aceite a realizar a laqueadura. Olhamos a criatura e vemos uma mulher humilde, magérrima, andando devagar com o semblante de preocupação e dor.

 

Quarto ato: Na cama, a menininha que eu queria que fosse minha, dormindo como um anjinho... sem saber da podridão que é o mundo ao redor.

 

Quinto ato: Em outro lado da cidade, uma outra menininha, com sérios problemas psicológicos agravados pelo abandono e a negligência de pais até certo ponto, "esclarecidos".  É triste demais. É absurdo demais. É desumano demais.

 

Sexto e último ato: E eu ainda vejo canditatos campeões em compra de voto na capital, agradecendo em cartazes a Deus a votação estrondosa na cidade. Deus tenha misericórdia dessas almas sebosas.

 

E amanhã é dia das crianças.

 

De que mesmo?


O doutorado vai de vento em polpa, quanto mais leio, mas me apaixono pela palavras e pelas coisas.

 

Escritura E A Diferenca, A
  Filosofia 
Derrida, Jacques

Quer questionem a escritura literária ou o motivo estruturalista, no campo da crítica, das ciências do homem ou da filosofia, quer apelem por uma leitura configurante a Nietzsche ou a Freud, a Husserl ou a Heidegger, a Artaud, Bataille, Foucault, Jabès ou a, Levinas, os ensaios aqui reunidos têm todos um só centro de insistência: o ponto de articulação

Lendo, lendo, lendo.

:: Postado por Dira as 5:03 PM

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Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses

O não-corpo

 

Tenho códigos por todo o corpo. O mapa que me esconde possui territórios não cobertos. Não traço todos os caminhos para não me perder de todas as idas. Traços voltas e me perco delas. Algumas me partem em duas, outras são como mapas de tesouros. Uma espera e outra desenha pesadelos noturnos. Mas nem sou. Nem me traduzo.  Penso no corpo de mar e de brilhos não ditos, é essa linguagem que pinta em mim fios que nunca direi. Na mão uma aquarela que ainda moldarei em sua boca.  

 

(o que o moço levou de mim não me deixa em falta, antes alimenta meus rios sempre tão aflitos por sua fala).

 

Sou outros planos e uma câmera sempre atenta a olhares silenciosos e cinematográficos. O plano B me alimenta e sara.

 

Ontem, quando me dei conta, a voz do moço era som em alto relevo na paisagem da estrada. Um sonho em carne e osso e bilheteria. Voltei-me para decifrar e vi-o em holograma, exatamente como me desenhava azul. Barba beirando a boca que eu sonhei, cor de menino-homem ainda guri e uma garota em sacola nos seus braços. Observei a moça, branca, vestido amarelo estampado, sorriso largo, brincadeiras com outra amiga ao seu lado. O que ela preenchia me faltava ao lado dele e ainda assim, cometi o pecado de desejá-lo, como a mais ninguém. O olhar dele era paisagem e o que eu mais desejo não possuía fala e nem inscrições em braile. Ele olhava o nada e eu do nada traçava desejos e vontades. Eu queria imolar aquele momento e emoldurar o seu pensamento no meu corpo como sinais de trânsito. Sinal fechado para essa paixão.  

 

Voltei a dormir as linhas cansadas e percebi que a sua falta é o meu pesadelo de cores e dias. Vivo e morro no pensamento nele. Não era o inconsciente e nem o que não disse que desenhava corpo sem órgãos. Era o amor do moço que me despertava sonhos no meu cansaço diário de outras guerras. Não sou o que digo e nem o que penso, sou o que nego e que me escondo. Há em mim ruas perdidas e guetos malditos. E ainda assim, a imagem dele é campo minado das Bermudas.

 

Eu tenho rios que transbordam vazios e as linhas imaginárias não ditas serão a herança de gozos e saudades. Naquele moço teci outras marcas de angústias e de prazer. Outros mapas revelam minhas esquinas e em todas sou calçada deserta onde o azul espera a não-promessa. Eu não me escrevo e em todas as cartas sou todas as dúvidas. 

 

 

:: Postado por Dira as 5:11 PM

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Da série: cartas que nunca mandamos

Tenho medo quando o meu pensamento tem a voz rouca e fala alto, provocando escândalos. Algumas palavras e pensamentos nunca deveriam materializar-se em ações ou desejos. Eu tenho medo do desejo de tua boca na minha. E ainda, quando nada mais preenche os meus contornos.  

 

O mundo se revira no meu estômago e eu embrulho mal estar sem a tua voz trêmula ao telefone. Conto nos dedos se houve amor maior que o que sentimos. Se é que isso mesmo existiu ou foi um romance que começamos juntos a escrever e desistimos nos últimos capítulos.

 

Se eu dissesse que te amo, estaria mentindo. Nem é mais amor o que eu sinto. É prisão. Um enclausuramento de freira que desiste de viver e isola-se em uma torre com a certeza absoluta que nenhum cavaleiro em um cavalo branco ousará aproximar-se da torre. Não tenho tranças e nem me chamo Rapunzel. Madalena é a minha sina e sinal de entorpecimento.

 

Tenho medo do dia que olharei tua imagem e perguntarei se já o amei um dia. Conto os teus passos e morro de medo de esbarrar em tua sombra por ruas dessa cidade hostil e vazia.

 

Na tua boca escrevi meus desejos e em teu corpo desenvolvi várias teses de encantamento. A televisão nova desligada na sala, as almofadas desarrumadas de nossas brincadeiras e a pia da cozinha com as marcas de nossa fome. Aquele copo em que não bebestes a minha lágrima ainda repousa sobre o medo de tua existência. Eu não me canso de pertencer a ti e às tuas lembranças.

 

O quarto, ainda por decorar com os teus gemidos, possui uma cor esquisita, nem de longe revela o azul de tua voz e o lilás que te vestia. Guardei as cores para levar comigo até o dia de nossa morte. Morte de esquecimento e platéia vazia. As cenas finais deixaram os personagens aturdidos e todas as falas repousam agora sobre o meu ventre querendo o sopro de vida de tuas páginas.

 

O meu corpo não conhece outro autor e as minhas linhas permanecem tortas sem a tua poesia.

 

Ouvi-te calada quando desfizestes as promessas. E a palavra cantada virou aboio entre as minhas pernas. O rio que tecemos juntos ainda permanece abismo e todas as noites jogo garrafas cheias de recados para os teus olhos de sereia.

 

Ontem, quando arrumava a cama para deitar, deixei sobrando o lado que ainda não escolhestes e deitei sobre ele o corpo que ainda te abriga entre os dentes. Eu não espero a tua volta, tatuei outros caminhos no meu corpo pergaminho e enterrei abusos em terrenos baldios. Há muito tempo desisti de acreditar em potes de ouro no fim de arco-íris.    

:: Postado por Dira as 9:34 AM

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EXPIAÇÃO

 

Descobri que tenho vácuos. Eu, a Madalena de todas as faces, possuo vácuos intermináveis. Percebi isso ontem à noite quando ele me deixou na porta de casa. Foi só atravessar o portão e lá estava eu mergulhada no vácuo até o pescoço. Da janela, olhando para a rua através do portão de madeira, tentei alcançar as margens e contornar espaços.. Não existia lados e nem começo onde o fim se fazia uma enorme parede de vento. Um vento frio. Mordaz. O nada dividindo o espaço com as minhas dúvidas.

 

Nesses vácuos, tenho o costume de tecer fios invisíveis de solidão. Fios coloridos que apenas eu posso ver. Das cores, costumo tirar lãs e cobrir minhas vestes de forma que eu possa me sentir azul para mim e para ele. O amor é o adorno do vestido longo que teci para ele, de presente. Vestido fruto dos vácuos. Eu prometi vestir na lua cheia. E o farei , um dia. Por hora, espero os vácuos encherem os cântaros para banhar-me à noitinha, quando estiver bem pertinho de vê-lo. Banhos de azul bem piscina. Daqueles azuis que quando batem os raios do sol a água vira espelho. Eu sou no espelho entre o meio e contentamento. Vou tecer fios de azuis em todos os vácuos para compor outras histórias ao entardecer. Ando cansada do silêncio de mãos pelo meu corpo.

 

Tive que tecer memórias e descarregar de mim o que me pesava e nada dava conta de tantos espaços vazados e lembranças de margens e abismos. Quando me olho do meu próprio alto, sou o que não entendo e ainda assim, me permito.  

 

Hoje descobri-me metades. Uma metade vazada e incompleta cheia de plenitudes e desejos. Os cabelos, ah, sempre os cabelos fazendo volume onde o nada é apenas presença inócua nessa paisagem. De onde venho, nem sempre me acho e quando estou farta, sou como porta que bate no silêncio da noite. Já disse tantas vezes que estou pela fresta da porta...

 

Em mim, vários fantasmas passeiam dentro de casa, insones. Eu, janelas e pastos de vácuos à espera de sonhos, disputo com eles, a tapas, o meu direito de defesa. Eu teço noites a fio e nunca preencho outros pedaços. O que escrevo, descreve os meus pêlos e o que escondo lateja entre os ombros como uma frase incompleta e impossível. Eu tenho esperas silenciosas que se prostram na minha janela. Abro os olhos, arregalo as vontades e quase sempre, vou dormir com a minha solidão com a pele lacrimejando em dores por tantas ausências.  

 

Ontem não quis decifrar espaços. O vazio instalado no peito tomou conta de toda a casa, instalou-se paisagem e abriu outras fendas em meu peito. Eu tive que tomar um banho, abrir outras comportas e pensar nele para dissipar outros tumultos de ausências.

 

Nem sempre é assim tão fácil, mas quando sou forte, minha memória me traça de pecados e culpas. Hoje tem uma lua no céu e eu nem aí para conquistá-la.

:: Postado por Dira as 10:54 PM

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Diários de Pele

O Diário de Su

Imagem capturada na net. Clique na imagem.

 

O meu corpo conhece a tua falta e pressente da ausência da forma mais cruel: me sinto rabiscos de uma história incompleta. Quando as horas tocam o alvo e o dia se espalha no céu da boca, sou toda cabelos ao vento e marcas de pele. Uma ansiedade me corta ao meio e me diz de rimas que tu me fizestes.

 

-         nos dedos que trazes, o caminho que traçou em minha pele. rituais de outros sons que ensaiamos juntos.

 

Nem era tão tarde assim, ouvi-te chamar ao telefone em uma mensagem: Madalena, minha Madalena, acorde. E a noite, era a madrugada dos meus dias. Uma penumbra de hábitos e a vontade de chover em tua boca, como me ensinastes. Todos os rios correm para as suas mãos e quando me tocas, sou mar de todas as vontades. Quando penso saudade minha pele se descreve com o teu nome.

 

Sei de todas as culpas e o silêncio subscreve capítulos nocivos a todas as faltas. A paixão me tomou pela mão e nunca mais largou, mesmo quando caminhava sem o oleiro e o meu corpo relata o barro ainda intacto e imperfeito. Eras meu dono e ao mesmo tempo, metade do barro que me esvazia.

 

Não há esperas quando os pés beiram o novo. Quando nem querias brisa, tomei-te tempestades em minhas mãos. Tomo do teu cálice e de tua boca e mergulho no encantamento, fechando os olhos para te ensinar todas as portas e as brechas entre as idas e voltas. Espio entre as palavras e te traduzo para nunca mais sair de perto de ti.

 

Dei-te os melhores desejos e colhi de tua boca as mais perfeitas foices. Quando tua voz era surdina, o meu corpo era dor e cortes profundos. E quando a tua espera era o beijo eu disse sim na tarde que nunca volta. Nossas bocas provaram de todos os azuis.

 

Eu te beijei quando já nem eras e o dia que fomos ficou emoldurado dentro de mim: diplomas de incapacidades latentes.  

:: Postado por Dira as 11:56 AM

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Espelho... espelho meu

Imagem: AmandaCom.foto Excelente trabalhos, visite, clique na imagem.

Espelho da sala

Tenho sempre a noção da volta. O corpo quente, as idéias fervendo, ventanias no sol da manhã. Temo sempre a noção do tempo. O dia passado, o beijo não dado e aquela promessa de encantamento fazendo dobra no cair da tarde. Tudo o que eu mais queria era o silêncio do perto e o olhar cansado de outras páginas.

 

Preciso rever a estrada. Desarrumar velhos mitos e entender que a palavra chave é sempre aquela que não posso reproduzir. O vento encalha a folha seca na porta. Não adianta abrir, encostar o timbre no dia e chamar o nome dele. Algumas palavras são indivisíveis em qualquer compasso. As esperas são espinhos escondidos na pele quase imperceptíveis.

 

- o que te falta que te agride a alma? em que parte da arrumação da casa perdeste o novelo da volta?

 

E ainda. Quando todos os contrários repetem a mesma cena. Uma. Duas. Trezentas mil vezes. O mesmo vestido azul, o ano que se repete ano após ano. Todos os fogos que se acedem quando o ano finda, eu acendo uma vela dentro de mim para os mortos que nunca morreram demasiadamente demais para enterrá-los.

 

Pego a palavra e soletro. Foto antiga, beijo colado na tela. Voz do outro lado que treme. O coração pipocando um compasso meio louco e tímido e a vontade de dizer, me chama, que eu vou.

 

O dia não pára e os arremedos histéricos da impaciência querem todas as respostas instantaneamente. O que eu guardo é o presente mais caro. Não há devoluções quando a carne arde e pede. E se tudo fosse apenas o holograma da fala? Decorei a geografia de tua pele para poder falar em francês. Aprendi a geometria do olhar para decifrar os teus nãos.

 

Quando disseres o nada saberei que o rito é o contrário. E quando a pele soltar brilho, saberei de ti quando o dia acabar à minha volta e o final feliz se desenhar no azul que nos guarda nessa fala que me cabe.

 

De tudo o que mais possuo é o não lugar e a casa que compomos juntos: tapetes e sonhos espalhados na sala, uma televisão para entender a rua e passos que reescrevem labirintos azuis.

 

Deixei dormir o filho que não tivemos. E quando ele tiver menino, contarei as suas estórias de Dom Quixote enquanto ele se veste de lilás e quereres. Ensaiarei seus primeiros passos nas marcas dos teus pés no meu próprio corpo e te esperaremos ao anoitecer, o teu amor e tua melodia.

 

Tenho em mim que todos nos silêncios são orquestras de esperas. E que os dias lá foram expõem dos dentes à mostra como leões que matamos todos os dias.

 

A saudade tua é esse bicho feroz que mato todos os dias. Resta a palavra-presente embrulhado sobre a penteadeira com o livro que não te dei. E ainda assim, o meu instante é o azul que espera estorinhas de fadas na hora de dormir.    

:: Postado por Dira as 5:51 PM

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Miguel, mandou, eu obedeço

Há uma brincadeira rolando, Miguel mandou, então eu obedeço e respondo também.

 

Descreva-se

 

Sou uma mulher que ainda não cresceu, mesmo que o tempo e a vida tenham se encarregado de marcar o rosto e o corpo. Não tive infância, muito menos adolescência. Mas não me ressinto disso. Tive que ser adulta aos sete anos e quando alcancei a idade adulta, descobri que estava entrando na adolescência. Gosto de estudar, gosto de ensinar, gosto de ser eu mesma, mas isso quase sempre nem é possível por viver em um mundo cheio de regras e de valores que nos encaixam dentro de prateleiras com rótulos que muitas vezes nem cabem na gente. Eu não me adequo a rótulos nenhum, eu não tenho ódio, nem invejas, nem raiva, mesmo que me ire algumas vezes. Creio em Deus. Tenho uma sensibilidade cristã que me faz chorar e pular de alegria na presença de Deus. Eu sou Dele e Ele é meu. É o meu melhor amigo, é o meu marido, é meu irmão: Deus é tudo e todos as minhas perguntas e voltas. Todos os dias reconheço em mim uma outra pessoa e me reconstruo nela e me refaço todos os dias para não ser nunca igual a ontem. 

 

O que as pessoas acham de você?

 

Como vou saber? Pouco sei de mim. Sou metade do que pensam que sou. Mas não me importo muito com isso.

 

Descreva o atual relacionamento

 

Um bonito sonho, a esperança da confiança, da sintonia, da companhia à solidão, ainda que seja apenas um desejo.

 

Descreva a ultima relação

 

21 anos. Dois filhos perfeitos. Um grande aprendizado, afetividade, amizade.  Eu cresci apesar de ainda ser menina. Eu cresci e deixei de brincar de bonecas.

 

Onde queria estar agora?

 

Numa praia. Rede na varanda. Alguém interessante na cozinha preparando o almoço. (ora, quero ser rainha por um dia).

 

O que você pensa sobre o amor?

 

Ainda é o equilíbrio que sustenta o mundo em fios invisíveis. O amor pra mim é Deus.

 

Como é a sua vida?

 

De muita luta e muitos fios invisíveis conduzindo os meus passos. Eu amo. O tempo todo e tudo o que faço.

 

Se tivesse direito a apenas um desejo...

 

Não posso ser Deus. Não pediria o que já está determinado. Não posso acabar com a fome no mundo. Nem posso endireitar os caminhos tortos dos homens. Mas é só um desejo? E quem o me daria? Se fosse concedido por Deus, eu desejaria o fim do tráfico de drogas.

 

Uma frase sábia

 

“Suportai-vos em amor”.  Frase Bíblica.

 

Uma frase para os próximos

 

Conheça Deus além do que se diz por aí.

 

Indicações;

 

Cherry(Cerejinha), Loba (BH), César (Avesso)

:: Postado por Dira as 1:10 PM

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Fotoimagem: Antonio Guimarães

Dos mil desejos, apenas um.

 

 

Se chamar o seu nome a minha pele responde entre as marcas das tantas algemas dispostas nas portas das minhas saídas e do tempo que faz questão de anotar dia a dia as dores que nos causa ao longo da vida. Não é possível desvencilhar das margens e eu me disfarço muito bem das minhas faltas. Sou intérprete de minha solidão e nunca desafino quando em frente ao que mais temo. Não abro todas as portas para não me soltar eu pássaros.  Em mim as falas resultam desejos. E os desejos são reservas das invernadas que atravesso sozinha. Desejo da casa, da caça e da pesca. Desejo de gozo e de descanso. Desejo de soltar a língua e o verbo e ser livre colada à boca dele sempre tão convidativa e insegura.

 

(tantos desejos traçam caminhos difícieis de cumprir-se: em mim todos os dias acordam manadas correndo em desespero, fugindo do tempo, pulando as cercas, correndo além de pastos. bichos de todos os tamanhos e cores combinam entre si dilatando minhas ilhas. eu tenho todas as faltas do mundo e todas elas descrevem apenas um nome).

 

Imaginei que recuperaria o fôlego longe do toque, mas as senhas e as palavras que abrem espaços eram todas nativas daquele olhar. Menino safado que me tecia silêncios e taras mas nunca promessas. Dificilmente sobreviveria àquele abraço bom de reencontro. Tantas vezes tentando fugir e milhões de vezes desejando aqueles braços. Eu me reconstruo todos os dias. E todas as noites, desfaço-me retornando sempre ao pó para acordar outras manadas no dia seguinte.

 

Todos os dias reescrevo o meu próprio nome em vários tons para nunca ser a mesma, conservando a essência de fênix. Sou eu mesma e todos. E quase sempre, sou eu mesma de um lado e outro do tabuleiro. Cheque-mate de mim e de meus conflitos.

 

Quando minha pele soletra o nome dele, nem importa se ele responderá ou não. Se me tocar, sou toda braile e se sorri, o óbvio é a minha falha, o ponto em falso. O suficiente é a música que toca meus dentes e mordem a falta. Eis-me farta da imagem dele. Minha pele sabe bem o caminho que trilha quando soletra as ausências e eu sei que antes só, num deleite de lua cheia e desejos, que a presença sempre tão inquieta e ausente dele.

 

Sei da promiscuidade dessas margens e dos atalhos que decifro sem querer. Fazer o que se tudo em mim é trilha em matas fechadas? O meu corpo acostumado à companhia da lua, entende bem que esperas se tecem com fantasias. É preciso tecer o sol todas as manhãs para inaugurar algumas melodias e noites de luas cheias.

 

Sem a minha própria pele, nem o nome dele eu decifraria.

 

O melhor dele é o meu pensamento nele. Mata virgem. Palavras guias. Mentiras que ele não disse e aquela boca sempre tão perto longe de mim. E sei dos atalhos e quase sempre recuso parábolas. Pressinto as claras e prefiro chamar o seu nome, como quem resiste ao encantamento das sereias. Finjo que estou dormindo para que o ontem não me assombre e eu ainda imagine que estou à sua mercê, tapete por onde ele pisa e massageia com botas de cano alto.

 

Quando me toca, ativa as defesas, acende os faróis, põe vigia em minhas torres. Eu sou a menina dele, esperando o colo e os perigos do sim. Nunca mais me dispus a enfrentar o os riscos. Os cabelos em concha me prendem a outros armários e eu o espero, silêncio  (mas nunca cativa), como ladrão no meio da noite a encantar com a palavra mãe que põe panos quentes em minha nuca e me despe de esperas de multidões. Sim, eu tenho todos os desejos repletos e nenhum à mão da sensatez.

 

Fazer o que? Madalena é assim. Não me estranhe. Sinto desejos quase insuportáveis de conter. Resisto à mão dele, apenas quando farta de muitas luas. Mas quando deserto, as suas mãos abrem em mim outros atalhos. Ele conhece todas as chaves e se atrapalha na hora de abrir.

 

(não levanto bandeiras, não grito palavras de ordem. Minha política é desejo e a minha fala, minha questão de pele).

 

Sou sempre porta, deixo ferrolhos invisíveis para casos de guerra, apesar da língua presa e da alma que responde pelo desejo. Apenas um desejo entre tantos mil que responde pelo seu nome.

 

Dira Vieira


P.S. Resultado da primeira aula de Seminários Avançados II (Doutorado em Sociologia - UFPB) do Professor e mágico das palavras: Adriano de Léon e Prof. Artur Perrusi. Impossível sair de uma de suas aulas sem ter a cabeça fervilhando de idéias e questionamentos. Adriano nos dá o roteiro mas sempre torce para que sigamos outros.

:: Postado por Dira as 9:51 AM

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Tempo de frio

 

Fiquei lhe devendo uma carta, um choro, uma despedida, sei lá. Ontem pensei, ao ler um bilhete seu que não nos despedimos. A rota de sua boca quase encostou na minha e eu bem que silenciei o mundo ao redor para receber os seus lábios. Não houve volta e nem ida. O silêncio foi mais duro que cortar os pulsos ou jogar-se de uma ponte. Eu bem que me avisei, não entra nessa Madalena, não entra. Mas como sou teimosa, traço os meus motivos, especulo minhas trilhas como quem caminha lentamente e com muita fome para o matadouro. Eu bem que adoro arriscar a pele, quem sabe eu não me dou bem e acho o pote de ouro no fim do arco-íris?

 

Dizem que a poesia existe. Eu até tentei acreditar nisso naqueles dias. O homem me esperava aflito; a minha pele pedia a sua, o corpo, a alma, as palavras se demoravam no camarim preparando a melhor fala para dizer o que sabes decorado. Tinha o vocabulário da paixão como um rosário meticulosamente guardado dentro de mim. E eu beata de suas horas marcadas e aparições no meio do dia corrido. 

 

Quando o dia amanhecia eu já me imaginava sua, poema partido, trabalhado em uma página colorida por onde me tocavas. E como me tocava bem ... Sua língua tinha uma sinfonia especial, eu esperava acordá-lo em mim para que me tecesses o dia e o quanto me esperou a vida inteira.

 

Não tivemos tempo de tecer angústias. Ao seu lado, em distância segura, eu tecia outras paisagens rupestres, desenhos que fazíamos na voz e nas promessas de acasalamento. Eu fui sua, mesmo quando não era presente naquela folha de papel desenhada no meu corpo. Todos os dias me recompunha as folhas e me fazia florescer em seus dedos. Cada frase, cada promessa, cada verso era balada de mascar mentiras.

 

Eu sempre fui nossa. Mesmo quando nem nos despedimos e eu sabia que nunca mais ouviria a sua voz me chamar pelo nome. Decorei suas falas, suas rimas e o seu cheiro e nunca mais viram Madalena bailar a meia noite. Decorei seus pedidos de socorro, suas angústias, sua solidão sempre tão impossível de compor. Decorei o seu sorriso e seus pêlos. Desconstruo em mim, dia após dia, o desejo e a vontade do dia findo a repousar no seu colo o meu cansaço.

 

Sou sempre idas, peito aberto a outras quedas mas nunca me desfaço do mote de esperá-lo na rua. Novas cenas abrem outros abismos e ainda assim, ofereço os pulsos à palmatória, ainda que o nada aconteça e os espasmos seja mesmo da minguante fala que nunca quis mais que as margens aos sacrifícios de coragem.

 

Se é que me sabes, hoje é um tempo de frio, de recolher-se às cavernas e de curva-se longe das tempestades. Um tempo hábil de dar adeus e querer. Um tempo de pensar em você e ensaiar desculpas para essa despedida. Quem sabe assim arrisco outras curvas?

 

Madalena

:: Postado por Dira as 1:31 AM

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Solidão de esfinge

 

tenho a sensação de um silêncio em preto e branco que sensibiliza os meus dedos. doi tudo em mim como se a falta dele de repente viesse à tona em alguns poucos minutos em que vi a sua silhueta passar por mim. era ele mesmo ou o meu desejo tomando contornos de alma e vindo assombrar quando a noite entra na segunda parte da madrugada? nem me dei conta que alguns anos passaram rápido demais. dos filhos que não tivemos um se chama azul e a outra, pequenina e com a cara dele, tem a poesia e a fala mansa dos vermelhos que acendemos. temos dois filhos que nunca existirão e ainda assim me sinto órfã da falta de esperança de sobreviver à solidão. faz frio nesse corredor de ônibus no meio dessa noite e campina grande abre as portas para o inverno de palavras.

era azul celeste mesmo aquele vestido que ele me deu?

sinto que perdi algumas cenas desse velório. não chorei todas as lágrimas, não enterrei todos os mortos, nem ousei missas de sétimos ou outros dias. eis-me ainda aqui, na rua, cabelos em lilás e a frase solta que nunca mais conseguiu outras rimas. o rosto dele e a barba por fazer fazem cosquinhas em minha memória e lá vamos nós sozinhos novamente para o século passado em eras medievais... sinto-me só como a esfinge plantada na sala de minhas angústias.

Madalena

:: Postado por Dira as 3:29 PM

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Banho
(Rural)

Zila Mamede


 De cabaça na mão, céu nos cabelos
 à tarde era que a moça desertava
 dos arenzés de alcova. Caminhando
 um passo brando pelas roças ia
 nas vingas nem tocando; reesmagava
 na areia os próprios passos, tinha o rio

 com margens engolidas por tabocas,
 feito mais de abandono que de estrada
 e muito mais de estrada que de rio

 onde em cacimba e lodo se assentava
 água salobre rasa. Salitroso
 era o também caminho da cacimba

 e mais: o salitroso era deserto.
 A moça ali perdia-se, afundava-se
 enchendo o vasilhame, aventurava

 por longo capinzal, cantarolando;
 desfibrava os cabelos, a rodilha
 e seus vestidos, presos nos tapumes

 velando vales, curvas e ravinas
 (a rosa de seu ventre, sóis no busto)
 libertas nesse banho vesperal.

 Moldava-se em sabão, estremecida,
 cada vez que dos ombros escorrendo
 o frio d'água era carícia antiga.

 Secava-se no vento, recolhia
 só noite e essências, mansa carregando-as
 na morna geografia de seu corpo.

 Depois, voltava lentamente os rastos
 em deriva à cacimba, se encontrava
 nas águas: infinita, liqüefeita.

 Então era a moça regressava
 tendo nos olhos cânticos e aromas
 apreendidos no entardecer rural.

:: Postado por Dira as 3:21 PM

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Intimidade
 
eu passo em riste
o dedo que me aflige
minha melodia é quanto
o meu verbo
é embrulho de um cinema mudo.
 
-  teço intimidades
com a solidão -
 
 
Dira

:: Postado por Dira as 7:51 PM

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Olhando para trás

Não localizei o autor dessa foto, quem souber, por favor, preciso dos créditos.

Madalena é resolvida. Na cabeça, atitudes, no que quer da vida. Resolve as situações como quem arruma o leque sobre os ombros e sorri para a câmara. Debulha as palavras com maestria e ri de si mesma quando se imagina uma atriz. A atriz que esconde em si a menina que nunca deixou de ser.

 

E estava ali... Diante dele. Resolvida? Nem tanto. As mãos, suando, o olhar desviando, as imagens de um tempo ontem bailando na sua cabeça. Queria aquela boca... E queria de novo a vida que ele injetava naquele encontro casual. Não programara nada e se tivesse feito, talvez não tivesse sido tão bom. Tantas coisas a contar... Tantas. O pensamento dela criava o palco, mesmo que fosse para um monólogo secular. Estava acostumada a desejos de mão única, mas quem poderia decifrar o poema que se erguia entre as suas lembranças? Madalena deslizava suores frios e tremia com o gelo da sala. Não gelava dentro dela... Sentia sim pontadas na carne de um sentimento que não conseguia decifrar. Seria justo sentir tudo aquilo, tantos anos depois? Não poderia responder e mesmo que tentasse, não aceitava o papel da menina boazinha e compreensiva que lhe nomearam a vida toda. Ali era apenas a Madalena afoita de sentimentos fortes e desejos nada comportados.

 

Uma atriz. Tinha que conter as vontades sufocando a pele e as mãos que desejavam aquele rosto. A imagem era a mesma de tanto tempo... O menino doce de mãos ágeis, e o ventre de Madalena ávida dos filhos que compuseram juntos. Sinfonia tardia. Gozo protelado a um tempo que não foi possível encenar juntos. Parecia um sonho. Teria direito àquela reprise?

 

Se fechasse os olhos, enquanto o moço se movimentava em outros mundos à sua frente, poderia (e tinha o poder de) tocar a alma dele. O moço ainda usava as calças apertadas que mostravam o peso das pernas e um caminhar que traduzia a saudade grande que ela encenava diante dos olhos. Lembrava o jeans surrado de outros tempos e o sonho de vencer o mundo, a partir do nada que tinha nas mãos. Não queria sair dali. Nunca mais. Teria que se acostumar àquele olhar pequeno do homem que subiu às nuvens, mas continuava o megalomaníaco adoravelmente insuportável. Ele podia tudo. E era dor saber que sim. Madalena sabia bem.

 

Inquieta, tentava a melhor posição sobre as nuvens. Não poderia ser diferente. Cada passo que ele dava sua cabeça de menina rodopiava. Não poderia levantar naquele momento com a sensação de que cairia a qualquer momento. Mesmo que tudo aquilo não passasse de uma ilusão da adolescente que acalentou por tantos anos.

 

Quando finalmente levantou para ir embora, todo o seu corpo disse não. Madalena lutava dentro de suas cavernas para continuar fiel a si mesma. Fiel a tudo o que se negara por tanto tempo. Precisava ir. Precisava olhar para frente numa releitura de possibilidades e realidades. Mas como poderia se e ele ainda a olhava com a mesma poesia? 

 

Quando ele sentou no sofá, insinuando mais tempo de conversa, Madalena fingiu pressa para resistir a proximidade e intimidade que se anunciava tardia naquelas mãos tão próximas de si. Capaz de trair-se se sentasse ali, pertinho da boca que lhe dizia saudades e dores. Apertou as mãos, soluçou o tempo gasto e finalmente acordou daquele momento quando a calçada era a fuga perfeita para a realidade. 

 

Corre, Madalena, corre. Faz um verso, pinta um poema, qualquer curva é melhor para todos os segredos. Corre, Madalena, corre e salva a tua própria pele, ao menos uma vez na vida.  

:: Postado por Dira as 11:18 AM

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Deitada

milnoites.jpg

Fotografia de Graça Loureiro retirada daqui

O dia se levanta sobre sua pele como uma cobra que se revira enquanto digere o último alimento. O corpo não responde e o burburinho da manhã lá fora bate na janela como pedras jogadas contra a vidraça. O coração demora a acordar as páginas deletadas do tempo que urge na calçada do ontem. Mas nada disso importa a Miguel que se debruça na varanda para ver o dia acordar.

A palavra, língua solta e úmida, conta dos segredos da noite anterior. O vinho, a meia luz, a gargalhada solta da moça (o cenário perfeito para o encantamento), entoavam o som ambiente para o encontro perfeito. Sem rimas, o verso só quebrava quando a última barreira, onda quebrando na praia, esbarrava no céu daquela boca ainda úmida de tanto repetir o nome dele. Ah, Madalena, Madalena, que delírios esconde essa mulher na qual a ausência de todas as culpas a levam para o sim, sempre que o dia se levanta em seu querer.

Debruçado sobre a varanda a esperar a noite, deixa transparecer outro mundo além do balcão da recepção. Citou-a como namorada e depois ficou pensando realmente o que ela seria naquele momento em que todos os seus ossos, células, medula, fios de cabelo, eram de Madalena e apenas dela. Corpo moreno que compunha a cena daquele quarto, onde, na noite anterior, estreara o seu melhor disfarce sobre ela. Não conseguia ser o seu dono, nem ele mesmo pertencia a si ao lado dela. Madalena era livre. E ao seu lado era apenas a materialização dos desejos dela. Madalena era a senhora de todo aquele momento, ambiente, sonhos dele. Os sonhos de Miguel vestiam uma camisola vermelha curtíssima de renda e uma boca que sorria enquanto dormia.

Voltou para dentro do quarto. Viu-a dormindo mas não como um anjo. Além disso. Madalena era a extensão das suas mãos que tateavam nela a esperança dele mesmo existir. E se ela fosse um holograma, Miguel, o homem da varanda, seria também uma ilusão da palavra marfim?

Sentou-se ao lado da cama. Pegou o violão pois sabia que ela gostava de vê-lo tocar. Viu-a chorar na madrugada e ficou em silêncio para não entrar de sapatos em sua vida. Por muitas horas, evitando magoá-la, ou invadi-la, desejou sua boca em silêncio, desenhou seus lábios com os olhos e não ousou roubar-lhe beijos. Antes assim fosse. Um ladrão. Bandido impiedoso que invade o corpo alheio sem pedir licença e deixa a vítima violada e apaixonada. Mas ele não era assim. E talvez faltasse um pedaço por não ser comum a todas as eras. Miguel era único como Madalena alí, deitada naquela cama, como se a manhã não tivesse poder para acordá-la, nem senha para abrir o que ela tão bem escondia. Quem era essa moça que dormia como uma ninfa naquela cama? >  

Miguel tocou a canção dela. Não seguia nenhum código, nenhum ritual, nenhum manual. Ele seguia a si mesmo e àquele ímpeto de vê-la acordar suavemente sobre a cama macia. Tocava o violão com tanto respeito que as notas musicais eram como um coro de muitas águas. Seu corpo todo era cachoeira descendo despenhadeiro.

Sua namorada. Pensou e rejeitou a possessividade no mesmo tempo. Não. Madalena era dela. E ele nem a si pertencia. Ela era a namorada dos dias dele. Constrangimento na hora em que o recepcionista perguntou quem era a moça que entrava com ele. O rapaz apenas queria saber o seu nome para o registro obrigatório e Miguel entendeu outra coisa. Não sabia responder.  Quando ela entrou no saguão do hotel, todos pararam para vê-la passar. Não era bonita. Ou não tão bonita para isso. Mas Madalena chamava a atenção pela sua sensualidade e meiguice. Era ao mesmo tempo uma mulher e uma menina. As mãos pequeninas, o corpo quase perfeito. Era na sua imperfeição. Miguel se deslocava quilômetros para vê-la, anualmente. Qualquer sacrifício seria pequeno para ouví-la rir, contar o seu dia, dar gargalhadas já "altinha" por três taças de vinho. 

Miguel a queria mas não sabia exatamente como isso seria. Nem poderia, Madalena está acima de todas as leis. Aprendera a vida toda a exercer o poder sobre os outros (e a deixar-se dominar por pessoas, sentimentos e situações) ou sobre tudo o que tinha. Com ela aprendera outros tons, outros verbos e algumas palavras perderam o sentido quando finalmente tocou aqueles lábios arredondados que sempre desejou. O beijo daquela moça o suspendia do chão. O toque da língua, o cheiro, as mãos por dentro do cabelo e a entrega que a tornava promessas e desafios.

Madalena lhe ensinava todos os dias a reverter a ordem das coisas e a fazer poesia concreta quando as suas mãos contornava os sonhos dele acariciando o seu ego e injetando vida em suas veias. Naquele momento, deixava que ela se fizesse cenário para a melodia que sussurrava para despertá-la. Miguel era ridículo apaixonado e nem fazia questão de não demonstrar. O amor daquela moça lhe vestia de sonhos e adornava as manhãs em que fugia do mundo para vê-la naquele quarto de hotel.

De qualquer maneira queria ser ali, aquele momento, ao lado e dentro dela porque era apenas assim que se traduzia.


Para os homens sensíveis que quando amam, se desprendem das dores do mundo. Dentre os que conheço e amo: Miguel, Luis, Nélio, Paulo Sérgio, Zeca, Isaque, Marco, César (aldeias).

:: Postado por Dira as 3:28 PM

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Na arena

Imagem: O fantasma da Ópera


Alguns pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, o suco escorre como se o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o medo e desfaz-se em voltas que as rimas soletram em sua cabeça – há ventos no céu da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e nada posso fazer daqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até enclausura-se em multidões de si: cada passo é em falso e um abismo completa o outro em prosa. Conta estórias que não quer esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário, deslizantes desejos. Inspira-se na falta como se a palavra dele fosse cântaro onde ela bebe, diariamente e em silêncio mortal. Não quer que ele saiba que é sua sombra, gosta do silêncio e do moço quando a saudade é poesia concreta ardendo suavemente na boca.

Madalena cansa das escolhas que faz e mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse restos de idéias e relatos de suas paixões. Todas as palavras se ressentem da inspiração que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros). E se não fosse aquela música, poderia ser algodão doce na paisagem?

Ela finge que nem lembra, mas cada vez que olha, o atrás é reflexo e pesadelo. A boca dele em concha é o alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Não pode pagar sozinha por todas as culpas. Eu sei. Mas ele não sabe. Quando o amor resseca na boca, é necessário antibióticos miraculosos para sarar ausências. Não sei como sobreviveu sem estrelas até agora. Ela é forte.

Quando caminha, a volta é o frio e todas as portas traduzem gritos. Quem é ela para compor o intervalo e pedir que ele olhe o ontem? O que sente já nem faz eco, e o que soletra já não escreve o nome dele porque esqueceu suas vogais. Uma lacuna e um verso não escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta. Ele é prosa quando se mostra poesia nos olhos que brilham e sorri no momento exato do quando. Mas Madalena não separa a prosa da poesia porque nela, tudo é prazer sem forma.  

Há curvas no tempo e todas as vezes que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.

(Uma roda de amigos, conversas ao vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês, e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao impossível).

Madalena se ressente do que não viveu e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.

Toda vez que canta pensa no ontem. E cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não volta, fez sombra em uma eternidade. Nunca esquecerá que no abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido, porque já pertence ao cenário de um espetáculo sem estréia. Vive os fantasmas e o personagem principal que não rende bilheteria e nem fama.

Repete as cenas, reescreve diálogos, relê o passado: toda a falha é síntese que não consegue reemprimir daquelas páginas arrancadas bruscamente. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando nunca, repete-se no final. E o dia ditava a hora em que podia dizer eu te amo com a voz entrecortada pela dor do longe.

Madalena tem sonhos em vantagem e toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem fim – o bilhete é só de ida e o destino, incerto.

Em todos os dias em que não se desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode condenar o tempo por promessas não pagas.

E se ainda tiver fôlego poderá refazer-se palco e brilhar o neon de seu desejo. Haverá sempre outra platéia e um autor em busca de falas. 

:: Postado por Dira as 12:22 PM

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Faminta

Imagem: Victor Melo

 

Madalena tem fomes quase maiores que ela. Quando caminha, metade dessas fomes caminha a passos largos atravessando as suas pernas e falando alto como se quisesse duvidar dela. Não sei se tenho pena, ou se eu também queria a sua fome diária de querer o amor a roçar os meus cabelos e tocar a minha boca enquanto me arruma numa poltrona de viagem ao lado dela.

 

Ontem me falou dessa fome que não consegue controlar e nem denominar, como se pudesse enfileirar, emprateleirar, ou coisa semelhante, as suas vontades. As suas necessidades de amor, chegam a doer no estômago e ela se parte em duas quando está em crise. Falou-me do moço ao lado dela na cama. O sono, fechando os olhos após o amor e Madalena querendo mais, sobrando na cena e na paisagem. Queria mais suor, queria palavras ofensivas, ou carinhosas, queria barulho no quarto de quem ama como animal. Na verdade, Madalena sempre quer o que está além da escrita e da descrição do autor. Queria muita festa, e talvez o que ouvisse o tempo todo fosse o silêncio de quem pouquíssima coisa tem a dizer. Isso dói em seu estômago, porque ama com as vísceras e quando se entrega, chega a sangrar a sua carência. Madalena é faminta e eu nem sei se a culpa é dela mesma ou dos outros que não se entregam na mesma proporção.

 

Enquanto viajávamos ontem me contou do moço, e do outro e do outro. Dos sonhos e das apostas que fazia quase sempre para perder. Ela não se importa com isso. Paga o preço, como eu disse, paga com a dor de talvez não acertar o alvo e cair de cansaço.

 

Dessas fomes, que por vezes a derruba na cama e a faz comer chocolate por horas a fio, sei que caminha para o pior. O pior de quem tece castelos de areia e de vento. Menina sozinha. Enquanto ele dormia, Madalena o olhava faminta, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando que talvez aquele momento fosse o último. Nem se desse a sua alma, alcançaria o outro que de tão alheio, nem perceberia que ela chorava quando vestiu a roupa e insinuou ir embora. Não queria ir, claro que não. Talvez o mínimo que esperasse era que ele disse não, não vá e ela fingiria resistência mas por fim, deitasse ao lado daquele corpo, que era apenas o corpo mais especial que já tocara. Mas era só isso. E Madalena tem fomes demais para contentar-se com o corpo, o suor e a alegria do prazer no durante.

 

Queria o que estava por trás, atrás da porta, debaixo do travesseiro, por baixo das cobertas, do edredom. Queria a palavra não dita e talvez a dor de partir sem ouvir o que dizia por tantas vezes e o tempo todo. Eu te amo. Madalena gostava de repetir na intenção de que o outro aprendesse e sussurrasse para ela. Sim, ela amava, mas a fome que tinha, pouquíssimas pessoas a saciaria.

 

Enquanto me contava, percebi que chorava e massageava a barriga mostrando onde a fome se instalara. Fome de tudo, de olhos, de bocas, de palavras, principalmente palavras que dissessem a ela mais do que ela pretendia ouvir. O mundo inteiro é pouco para a fome de Madalena que se instala além do ventre e vai muito mais fundo do que qualquer raio x possa expor. Quando ama, costuma abrir as comportas e como as chuvas são temporãs, não há represa que a comporte e nem tão pouco, mãos que se adaptem à sua boca, saciando a sede e a fome de todas as ausências. E mesmo assim, me admiro de encontra-la sempre terra fértil e preparada para gerar todos os frutos de que necessita.

 

Quando o moço dorme e sonha, Madalena derrama rios e deseja margens, corpo aberto na expressão de quem espera. Mas que o desejo, mas que energia, o que está invisível talvez à cena anterior ao toque de midas. Madalena é mata fechada, vontade selvagem de quem viverá seus silêncios e noites sem lua. Nas clareiras que abre em si mesma, Madalena é foco, fogo predador e fêmea e não há quem possa com isso.

 

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 4:38 PM

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Hora marcada

Reinventei os dias quando o tive entre as mãos: poesia a cumprir-se como profecia. Hei de te amar enquanto o sopro me doer nas narinas e quando o tarde se fizer hoje nas noites em que fechamos os olhos para suspirar. Sim, eu reinventei a poesia no cheiro, no hálito e na sintonia de ouvir a tua voz, melodiosa canção de ninar enquanto eu sussurrava milhões de vezes o teu nome para acreditar.

 

Hei de te amar, quando o sono não vem e o relógio avisa do dia amanhecendo como um enfado e nenhuma vontade de levantar. Se o tempo se fecha, se o riso é um choro abafado e se os teus olhinhos me pedem alegria quando eu sei que aquele tempo é o que me desenhas instantes sem promessa, sem registros fotográficos, sem nenhuma marca de descontentamento.

 

Hei de descobrir a porta para o ontem e o verso contorcionista que segura os dias e revela-se no momento do deixar partir. Deixa eu ir, deixa. Ensina para os filhos, que nunca terei contigo, o quanto de nós que era vidro e nunca quebrou nas tempestades de silêncio. Conta para eles, que nunca virão, que o teu pelo era a minha pele e a tua boca, o mapa dos meus encontros e bússola de perdição. Conta-lhes do teu desejo de como soletramos pesadelos, bocas, dedos, camisola de dormir e o teu pijama de bolinhas que eu vesti sem sentir. Conta tudo. Conta. E não me deixas mentir. Conta de quantas vezes, para fugir, vestimos os avessos e em contrário e nos confundimos entre as nossas pernas quando éramos apenas vontade e fome de nunca existir.

 

Enquanto isso derrama em mim essa saudade, o suor descendo pelo teu rosto, cascata de desejos alimentando minha boca. Do que nunca perdi por não guardar como marca em um anel que brilha no escuro trago os traços do teu corpo, caminho de ilhas e parágrafos, tempo final de todas as lutas.

 

Já é tarde. E enquanto arrumo as malas, desembaraço o cabelo acostumado aos teus dedos, me alimento da devoção com que me olhas, saudade e pedido de não vá e eu fecho os olhos para acordar mais viva dessa angústia que é dizer adeus quando a tua boca me morde o céu da boca e eu agradeço a Deus o sopro da vida.

 

És a tatuagem mais perfeita e que me descola assim, de mim, quando em todas as fases me fazes lua ao teu bel prazer e majestade. E eu, a rainha confusa, letras formando nuvens no azul céu enquanto esquadrinhas e prendes a minha alma na tua canção.

:: Postado por Dira as 7:13 PM

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Silêncio nas curvas

Imagem: Cássio Murilo (Santa Luzia, Paraíba)

Madalena estava sem ar como de costume. Quando o emocional se abalava, sentia o ar faltar-lhe nas narinas como a palavra que lhe salivava vida. A boca seca e a língua se enrola em um ritual assombroso de quem procura o chão e encontra vazios.

 

Sentou-se na praça. A noite silenciada por uma chuva fina, transparente, caia ao seu lado, sem que tocasse os seus cabelos em chapinha – vez por outra, Madalena discute a relação com os seus guardados tamanha a dor que sente sozinha, sem compartilhar com quase ninguém, senão os amigos invisíveis que coleciona para momentos como esses.

 

Abriu-se como bolsa a procurar alguma coisa ansiosamente. Procurava frases, bilhetinhos deixados sobre a sua mesa do trabalho, promessas, sonhos de menina, uma criança que não conheceu exatamente o frescor das manhãs em um parquinho infantil. Quis encontrar o beijo prometido, a chuva fresca, o brilho no olhar, a ousadia invadindo a blusa e o escuro da noite. Quanto mais procurava, mais se agitava ansiosamente. O ônibus que se perdia na escuridão da madrugada não estava ali, dentro dela, em um folhetim em reprise. Queria tocá-lo imensa e silenciosamente, mais que tudo na vida.

 

A chuva, usando de todo o senso comum, curva-se diante da moça de cabelos nada ondulados, que sentava sozinha com a alma aberta em busca de traços do homem que conhecera há dias atrás. Teria sido mesmo o aquele homem ou outro avatar que saltara de dentro do espelho de Alice e lhe tocara como se nunca fora tocada? Madalena era uma página em branco, amassada e jogada no passeio público. O poema, que certamente teria escrito naquela noite ao tocar os lábios carnudos do moço, era agora, apenas um esboço suave na salivação incontinenti daquela hora.

 

A hora em que a despedida é apenas um aceno e um até logo, como se aquele encontro tivesse sido apenas e unicamente um meteorito no lugar errado e na hora errada, Madalena se ressente de querer sempre o impossível. Porque a pele e a densa nuvem que desce sobre os seus pensamentos descrevem uma cena sem atores e um palco onde apenas o desejo fez dueto de si mesmo.

 

Ontem ele era apenas um menino e Madalena especialista em descascar nuvens de fumaça.

 

Recolheu-se no banco, quis olhar para trás e lembrou-se do sal. Volte. Lembrou o pedido do homem de longe quando ela era apenas uma paisagem de sorriso largo e confissões infantis. A amizade desejava líquidos e sonhos da boca do outro, e o proibido se permitiu poesia solene de amores e os pés nos chão alcançando a liberdade.

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 8:29 PM

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Sexta-feira de todas as paixões

Imagem: Sérgio Pinto (Encontros e Desencontros)

 

 

 

Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Por dentro de mim, não sou sozinho, sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto minha história, me misturo, mulato não das raças, mas das existências.

[Mia Couto, "Afinal, Carlota Gentina não chegou a voar?", do livro Vozes anoitecidas, 1987]

 

 

Tenho medo de dormir algumas noites, como a de hoje. E quando o silêncio é a placa de vídeo prévio sobre o destino açoite, imagino o tempo que ficarei a sós comigo e com os meus monstros habitantes em mim. Melhor varar a noite e cair de cansaço para não ter que discutir a relação com os meus outros. A mulher mal amada que reclama de tudo e se sente só quando o dia é apenas um quadradinho riscado de tinta vermelha no calendário preso da porta da geladeira; a menina que saiu para comprar chocolate e insiste em que eu veja as variações de ovos que comprou para a minha páscoa; o homem que me chama de maluca, e vez por outra se espanta quando eu escolho o batom que ele usa; a mulher magra de boca carnuda que tem a pele em brasa e vive ao espelho retocando a palidez como se sentisse falta de outras culpas; a mulher gorda, sentada na sala comendo pipoca, insatisfeita, que morre de tristeza de não ser aquela gostosa que chama a atenção quando passa na rua, mas que ao mesmo tempo se sente feliz por ser a que melhor goza e que não se rejeita, quando ama.

 

Em mim, alguns personagens fazem plantão em noites de lua como hoje e esperam, horas a fio, que eu me disponha a ouvi-los, como agora em que eu me sinto rendida a fugir de todas as mãos de mim que puxam a barra do vestido que já foi azul só dele.

 

A loira que odeia ser chamada de burra; a morena voluptuosa e cheia de maldades; e a bruxa que errou a fórmula de todos os encantamentos e nunca conseguiu a poção correta e exata para acostumar-se quando o amor pede férias e sai a pescar. Todos esses eus me esperam à noite em minha cama, quando eu me encontro em dias como hoje, sem entender como alguns sentimentos se expõem e se retraem numa facilidade de perder de vista a noção do encantamento e do respeito ao outro.

 

- Era mesmo lilás aquela canção da madrugada em que me vestisses a alma e saímos para encantar? –

 

Tenho medo, nem vou negar, das noites que se vestem como a de hoje. Uma frieza de sentimentos que me enche os olhos de uma saudade infinita. É como não comer macarrão e não sentir a menor falta disso, já que ao meu lado tenho as marcas de todas as reivindicações de mim e de todos eus.  Não acreditar em luas cheias; não dar pérolas e nem beijos calientes em porcos que se reviram em suas poças de lama; não acreditar jamais no amor que pede um tempo ou tira férias e se vai; não mergulhar no amor que não se expõe, que não suja as mãos e que não derrama rios quando a saudade comprime o peito. Sei que de todos a Madalena é a que mais chora: puxa pelo meu braço, chora quando descubro os seus ritos e ainda se joga, peito aberto, vísceras à mostra, toda vez que ensaia amar e arriscar-se aos precipícios. Madalena sabe que nessas histórias de contos e fadas,  a bruxa é a atriz principal, e os sapinhos, apenas príncipes desengonçados e mal acostumados a fingir que beijam bem, quando na verdade, é Madalena e todas as mulheres em mim, que arriscam a pele quando o assunto é desvendar e virar a pele pelo averso em tatuagens que sangram poética e deliciosamente.

 

Os habitantes do meu corpo são prisioneiros de uma sexta da paixão em branco e preto no melhor estilo faroeste sem armas.

 

Visto o silêncio, como o dele, no mesmo tom, e antecipo a falta para uma madrugada íntima com a coragem que se veste em mim. Pelo tom da pausa, desconfio que o poema quebrou o verso e se afogou no nada. Não será possível destravar a língua nesse vazio de palavras vãs.

 

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 12:02 AM

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Mulher de tardes

Infelizmente não sei o autor dessa foto que capturei no Google. Se alguém souber, por favor, avise-me.

De faltas. a minha pele sente e me faz rosários de lamúrias quando o dia se veste de uma noite perdida. O clima que se abre pós sol, arrepia e me chama outros sons que eu desconfio fazer parte de minhas angústias. Relaxo as cores, abro um sorriso tímido e toco a pele para ver se transformo a noite em poesia e desperto anjos em mim.

 

De faltas, a minha angústia me enche de peles o peito e expõe os guardados nunca secretos que explodem sorrisos e gerânios de um tempo quase em meu coração.

 

- os pensamentos são como ninfas em uma floresta deserta, fujo deles para não acreditar -

 

Algumas tardes me cobrem com lençóis vermelhos, de cetim, e acendem outras intenções como se abrissem um livro e uma página manchada a dores com frases incompletas. Sou maré cheia ao fim da tarde, e um movimento de tocar e voltar em ondas me faz descobrir que estou mais viva do que morta em saudades.

 

Sou letras e rabiscos e um desenho ímpar sobre a pele das faltas escrevendo um nome que eu não consigo traduzir. Era ontem e o janeiro diria que eu sentiria essa falha em meu sistema de dados, mas era tarde para voltar atrás o que estava posto sobre a cama tão vazia dele.

 

De faltas, eu me traduzo outras línguas e em parábolas, me tatuo rede, rosto virado para o que não vejo e tento chamar a sua atenção: nem todas as línguas revelam o que só o coração dele d(e)ialeta para outras ilhas. Sou bug numa tarde de vermelhos e ardências e o mar fazendo voltas na pele em uma sinfonia minuciosa e íntima onde eu te traio em mim na presença da tua lembrança que se manifesta carinhos, redomas e hálito quente.

 

Sou tardes, hálitos, faltas, pele e um sonho reeditado ano após ano, contando-me desejos que neguei e que se acendem em detalhes todas as vezes que penso tecer.

 

De faltas eu me traduzo ilhas e uma saudade anelar me conta de promessas que prefiro esquecer. 

 

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 8:28 PM

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Atropelando as chuvas

 

Imagem capturada na página: http://i78.photobucket.com/albums/j104/poesia_portuguesa/Chuva.jpg

 

A tela que se mostra o lado fino do olhar é o outro e a sentença sobre a tez de Madalena é cruel. E ela é fria. Escolhe os passos que dará como quem escolhe uma peça de roupa para sair. E tem que ser assim, como o suave desejo que lhe percorre a espinha e é tão só dela o tamanho das asas que escolhe para voar nesse dia.

 

Quando o dia amanhece, Madalena é outra, em uma estação de trem distante de casa. Revolve os cabelos, olha a imensidão de uma estrada que deixou para trás. O que virá no depois?

Madalena é faminta. E quanto mais o dia vai chegando ao seu final, mais ela se agita como um leão em fúria dentro do quarto. Sua ansiedade geme, eu posso escutar de onde estou que todas as angústias dela dividem o seu corpo em partes de um quebra-cabeça complicado e difícil de atender. Madalena chove como um temporal que cai sobre a cidade deixando as ruas repletas de pedidos de socorro. E o que eu posso fazer da posição confortável de espectador?

Uma fúria feminina, inconstante e líquida me absorve e debilita. Exala um cheiro de fêmea. Doce cheiro. Desenha suas faltas em um espelho encardido na parede de um banheiro fétido na estrada. Entendo a sua angústia latente. Os lábios rosados perdendo o volume pelo peso da idade, e o corpo, tomando proporções que ela nega até a morte. Madalena é rio que corre sem represas... mas ela queria os braços dele a represar as suas ilhas: anda cansada de pastorear sozinha as suas falas.

Madalena é tola. Carrega a angústia de noites sem lua. E quando finalmente é lua cheia, treme dentro do quarto como se suas fomes fossem únicas no mundo. Sei de seus desertos e daquele moço que levou a sua alma azul de mil tons. Nunca mais a teve e sempre que se agita, sei que busca o azul dentro de si para sobreviver. Ultimamente, sua palidez desenha monstros em meu sorriso. Isso me assusta. Onde se perdeu, a minha menina?

Ontem foi assim. A noite descendo devagar como um manto enlouquecedor e Madalena esperando respostas na estação de trem. Queria a sua alma, como antigamente e a paz que a precedia nesses momentos únicos.

Na pele, as marcas em tatuagem falavam dele... Lembranças malditas de tardes sofridas, espaço em branco, lilás de palavras sufocadas e um desejo maior que tudo empurrando a sua vontade para pensar nele. Vai Madalena, só mais uma vez, pensa nele e morre. Morre de uma vez por todas, fecha esse capítulo, encerra essa cena e abre outra chance em seu leque de azuis perfeitos. Talvez fosse apenas louca, com uma insanidade pagã masoquista.

Das pinturas em quarto crescente, Madalena é o vidro que secou na minha melhor cor e tom e eu ainda nem explorei de todo a sua pele macia de suas valsas em tons semi-rosas. 

:: Postado por Dira as 7:51 PM

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Quando o olhar é peixe fora do aquário...

 Imagem capturada nesta página

 

Madalena fixa os olhos no nada e passa a contar as palavras que saem do silêncio de Mário. Uma palavra, duas, interrogação, reticências. Não há em sua estrofe silenciosa nada que se possa formar uma oração. Há um desconexo de dúvidas a cada minuto.

 

Ela pára. Respira fundo e recomeça a contar. Para que criar uma novela nesse vácuo? Quando a noite de sábado se enrola em uma cortina de silêncio, Madalena realiza uma discussão acerca do vazio que se interpõe entre a sua ausência em si e a do outro.

 

Metade é ela em frente ao espelho, cabelo molhado, taça de vinho convidando a lua e a insegurança de não ser nada para ele a brincar com as gotas que correm pelo seu corpo ao sair do banho. A pele tem uma textura de mata virgem e de pêlos que esperam luas cheias. Madalena se toca e a noite parece ter outro clima que a joga para a varanda.

 

Há uma angústia que se instala em seu ventre afastando-a de outras alegrias. Embriagaria todos os sentidos. Deixaria a varanda aberta, dia de chuva fina sobre a sua pele sempre tão úmida de ausência e quereres.

 

Não ia forjar uma luta, nem ventanias, nu frontal sob o olhar minucioso do gato siamês que brinca com a almofada da sala. Ela poderia insistir por choques elétricos e fios desencapados. Mas seria inútil... se a outra parte não arrepia para que incendiar terra encharcada de águas salgadas?

 

A noite de sábado poderia ter areia nos pés, sorriso solto, uma ventania. Poderia ter barulho de bocas roçando e pés inquietos procurando outros debaixo da mesa. A noite e o sábado poderiam inventar serestas, ditados populares, poesia concreta, batom vermelho, camisa aberta, olhar de quem quer, e se finge de morto. Poderia quem sabe ser terreno baldio na sua sede de terra molhada. Mas o dia reservou silêncios e angústias e ainda se arrastou para um até breve seco, como se a linha tênue de todas as falas se calassem para sempre, e fosse o fim do mundo.

 

Madalena é porta fechada e desertos. Melhor assim que inventar rimas pobres e remendos em roupas novinhas em folhas. Se ele não decide, por que ela se traduzia em  braile a si mesma? Eu sempre soube que Madalena ama demais. E isso é tão inútil quanto tentar suar em dias de gelo e vácuos. Mário era um camaleão. Madalena era a interpretação de todas as falas e riscos. Água e óleo no dia azul. Nada se mistura mais que as incompletudes quase idênticas. Alguns diálogos não resistiriam às dúvidas. E Madalena sabia de sua boca a contar as meninas que saltavam de seus olhos.

 

A boca dele é doce. E aquelas mãos já não escreveriam tantos poemas bons porque perdeu a noção do corpo dela em  suas mãos. Amar era sacrifício de arte e induções.

:: Postado por Dira as 9:23 PM

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Arquipélagos na alma

Imagem: Marília Campos

Doce é o cheiro dele. Roupa estendida na varanda, suor de homem que chegou correndo. Madalena comprime o peito e respira fundo para não avançar os sinais que se propôs respeitar. O menino tem a suavidade de uma idade que já foi para ela. E mesmo que afirme milhares de vezes que a sua preferência seja os cabelos grisalhos de um homem maduro, o professor bem que chega perto e entorna os seus cabelos ao vento. 

 

Madalena se protege. Brinca de esconde-revela. Mas se cansa de nunca ser achada por ele. Deixa sempre se revelar na blusa nova que deixou o botão aberto; no batom novo, no sorriso que desamarelou para brilhar azuis para ele. Ele não se decide. Finge não entender quando o grito dela é uma sinfonia solitária e dissonante na lua cheia. Faz de conta que o som da rua é mais alto que a respiração ofegante dela, sempre que toca a pele dela.

 

Doce é o cheio dele quando se deixa mostrar, as pernas alvas, a barriguinha protuberante, sorriso de quem esconde outros sonhos e outros invisíveis na alma. Madalena não se importa. Importa sim o treme-treme ao meio-dia, sol escaldante, trânsito maluco, suor descendo pelo rosto que nem o ar condicionado do carro consegue aliviar. Ela pede por ele nos sinais vermelhos e quando o verde acena o "vai, canta pra ele", ela sorri se sentindo a bala.

 

Madalena é desejo de uma história real contada a dois. Mas não está interessada em sofrer por ela, nem ser tão ridícula quanto as cartas que escreve para ele todos os dias. E por falar em dias, esses se arrastam como tartarugas que se caminham para a sombra e fazem Madalena desistir de correr atrás e de lado. É como se sentisse que não há muito tempo para quem amou demais, quis demais e ainda, amargou dias de morrer na praia e no antes, quando o depois era apenas contar as lágrimas derramadas enquanto dirigia todas as velocidades do mundo.

 

Precisa diminuir a ansiedade, diminuindo as marchas e freando o querer, quando o menino apenas acena na paisagem, mas não é de fato e de direito, terra sua, para que possa ser posseira dessa necessidade que tem de ser dele: boca acenando gostos tão diferentes.

 

Ontem, quando o cheiro dele invadiu a casa e Madalena achou que completaria a cena, encheu-se de capítulos novos, refez algumas falas mansas, ensaiou desejos, desenhou-se pura numa virgindade de todos os anos em que se desejou virgem e santa, para tocar aquela boca que ela via na fotografia e que moldava o outro lado do travesseiro em que dormia.

 

Ontem Madalena bem que queria esquecer como as mãos dele cabem em copo em seus seios, e fechou os olhos quando sentiu saudades do que não viveu e que talvez nem viverá, mas mesmo assim, não teve como conter o gozo, quando pensou em seu corpo sobre o dele, como tapete de águas, todos os líquidos e pedidos que fez dela apenas a imagem que ela queria nele, arquipélagos e ilhas incandescentes.

 

Madalena só queria a tatuagem daquela boca em seu ventre, e ainda assim, era pedir demais da lua cheia. Nem estrelas cadentes lhe dariam tamanha loucura.  

Doce é a ilusão de sabê-lo movido pelos cheiros dela... Ainda que seja tarde, ainda que seja breve, o beijo era tudo o que ela mais queria.

:: Postado por Dira as 10:23 PM

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Um dia ao sol

Patos - Paraíba

 

Quando o dia amanhece, sinto as pernas não responderem ao meu comando. Patos fica distante 370Km da capital, mais ou menos. Dizem que o sol fez morada aqui. E é verdade. O sol é na verdade o grande vilão dessa cidade. Todas as terças, acordo com a cabeça doendo muito e a pressão oscila entre muito alta ou muito baixa. Amo essa cidade e as portas que ela me abriu, mas quando a tarde cai na terça feira e a noite se promete ausente de sonhos, eu corro para a rodoviária para voltar para casa, em João Pessoa.

Os dias lá, são corridos, de muita alegria e cansaço. Os alunos são parceiros que vamos conquistando ao longo dos semestres. Ser professor, é padecer no paraíso. Nós "sofre", mas nós... É isso. Quando a noite chega e o corpo está moído (uma maratona de aulas das primeiras horas da manhã até às 22 horas), eu não quero mais que minha cama no alojamento das professoras. O sono vem sem que eu espere. E se eu me demoro a trocar palavras com as colegas, sou pega de surpresa durinha de sono com roupa e tudo.

Sinto aquele cheirinho de cidade do interior, cheiro de mato, de terra que se ressente do castigo do sol e à noite, solta uma poeirinha silenciosa. Eu durmo próximo à janela, deixo o vento (quando ele existe) entrar, e até mesmo quando a chuva ensaia uns passos tímidos, deixo que ela me molhe. Sim... porque chuva em Patos é novidade e eu amo, receber essa novidade no meu corpo.

Quando as luzes do apartamento finalmente cedem à escuridão do cansaço coletivo, eu tento me achar antes que o sono me domine completamente. Penso em tanta coisa... penso em organizar-se por essa cidade e estabelecer-me por aqui. Um lugar de silêncio e paz nos fins de semana. A cidade de Patos é uma cidade essencialmente universitária, quando se está em férias ou em fins de semana, isso aqui fica um deserto. E é isso que assusta. Mas ao mesmo tempo, estou precisando de dias de silêncio de mim mesma.

Aqui vivemos em república, como a maioria dos estudantes que são de outras cidades. E a vida em coletivo não é fácil. As pessoas são diferentes, e as culturas, o modo de vida. Não é fácil conciliar e mesmo que o tempo juntas seja muito pouco, mas os conflitos são reais. Alguém que usou utensilhos e não lavou, alguém que não secou o banheiro, alguém que sujou e não limpou. Ou outra que ocupou muito lugar e tomou o espaço de outra entre outras tantas reclamações. A vida é recuo e avanço. Mas na verdade, Patos me deu régua e compasso e eu não reclamo de quase nada, senão unicamente, da solidão de ruas e silêncios quando o corpo queria bailar, flutuar e sonhar que ama. No mais, eu sobrevivo, sempre, às quartas feiras, quando João Pessoa se torna um carinho na pele e na alma.

:: Postado por Dira as 8:38 AM

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PRÉ LANÇAMENTO

 

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Finalmente Fevereiro é o mês! Estão nascendo mais duas crias do mundo blogueiro!

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Preço de cada livro, já com postagem para dentro do país: R$ 20,00

:: Postado por Dira as 2:56 PM

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Gatinhos

Imagem: Jorge Jacinto (1000Imagens)

Brinca de gato e rato. Quando ele quer, chama, e ela, só de pirraça, esconde as garras, finge-se de morta, faz biquinho mas acaba cedendo. Mexe nos cabelos dele, passeia a língua em seus braços e em seu peito nu, ronrona como uma gata manhosa e depois enfia as unhas em suas costas, só para que ele não esqueça quem manda ali.

Madalena ri de como deixa o professor incomodado. Mas na verdade, é ela, a moça nada comportada, que, em dedos, treme quando veste a sensualidade na palavra e toca o outro, lá onde a poesia traça palcos e encena sussurros e beijos. Ela nem confessa mas morre de medo de ser ela o rato.

Gostava de vê-lo tímido, olhos confusos se escondendo dos dela. As mãos fazendo gestos arredondados no ar tentavam falar de outras coisas, outras teias que tece enquanto estão longe.

Quando as palavras se gastam e o tempo de olhar o longe conta os dias para o fim, Madalena é sonho e desejo de tatuar-se par no moço. Na briga de gato e rato, a lua mingua e quase, no ontem infindável, ela é ímpar nas decepções de inacabáveis sonhos de nanquim.

Quando ele quer ela é poesia concreta e úmida desenhando possibilidades e rebeldias na pele que tecem, a dois, enquanto se alimentam de luas cheias (a voz miada e sussurrada ao telefone diz tanto, e ele se finge de morto).  Quando ela é sim, nem sempre o mundo se parte em dois e se entrega em seus tons. Madalena é sempre solitária, quando ama e quando apenas deseja rios pela vida inteira.

Por ela, subiria outros telhados, contemplaria outras luas e faria serenata em outros quintais, mas foi querer o sorriso do menino rato, os dentinhos de roedores novos e a pele branquinha de lençois virgens com sinais por mordiscar. A sua alma de bruxa deseja a alquimia da boca dele com a sua pele. E para isso, tecerá nuvens e tempestades, adornará os dias de verde e lilás incadescente até que o rato se deite em sua teia, farto de fugir e ávido por suas mordidas.   

:: Postado por Dira as 5:22 PM

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Para responder silêncios

Autor da Imagem: Marcus Ribeiro - 1000Imagens

 

 

Silenciosa, a madrugada se veste de uma cor que eu não decifro. Cores e formas e o invisível, é a carícia do silêncio se compondo na pele da gente. Nem todos podem compreender quando a noite se veste de festa e sorri sozinha para inaugurar os guardados. Eu nem sei quem sou e ainda assim, ouço o murmúrio de uma chuva fina lá fora e penso que o mundo fala comigo. O mundo talvez não. A noite. A madrugada com os seus segredos e sonhos quase sempre impossíveis.

 

O longe é a tatuagem em máscara que brilha na televisão e eu já nem acredito que haja parte entre os opostos. Não sinto o cheiro, nem sei do hálito quente ou frio e nem se as mãos abarcam minhas vontades – há tanto por se pensar e querer que nem vale a pena o desejo morno. Todo o querer é mínimo quando a cena se desarma e as cortinas fecham.

 

Pensava que longe era um lugar que não custasse mais que dois passos e perto de alcançar o outro, mas cada vez que ensaio chuva dentro de mim, invento de desfilar desculpas para o inevitável. Não se pode negar, as portas sempre se fecham quando nos acovardamos diante do nada.

 

Antes, à noite, fechava bem os olhos até que o redor dormisse para que eu ficasse sozinha com o silêncio. Essa era a senha para pensar em tudo, inclusive no verso inacabado e impossível de terminar. Algumas palavras são ditas no silêncio, na ausência e ao apagar das luzes. Talvez eu peça a ele, para apagar a fala quando precisar sonhar. Ou afagas os meus bichos sempre tão selvagens. Em mim todos os poros são abismos abertos ao ar livre. Livre sou de coisa alguma. E o que temo são as algemas da consciência. Quem pode se livrar das culpas?

 

- Imaginei o beijo dele como a métrica dos poemas mais complexos. E nem foi. No mínimo a ausência do calafrio na espinha e o tremor da língua me diziam para ir embora o quanto antes.

 

Traduzo o poema, a canção, os versos provocam barulho ao teclado quando todos os seres dormem. Enquanto a noite descansa, a poesia alardeia sua incompletude bizarra. Nunca ninguém me acompanhou nessa viagem, por anos e anos teci canções que desfiava de meus próprios rosários.

 

Desconfio que não haja lugar para acompanhantes ao meu lado. Toda viagem é solo, desenho solidão como um casaco surrado, cheio de pó dos dias que eu trago comigo nessa passagem. Levanto, afasto para um lado o sono, (na madrugada, sono é palavra impossível e sem rima) e vou escrever, como se ninguém mais pudesse estar comigo.

 

Minhas inquietações são olhos brilhando no pedinte que encontro na rua. Estava ali,  desenhado na minha cara, o que custei a esconder. Palavras, frases, sons quase inaudíveis, cada vez mais angustiantes. Sempre o que quero é o que nego e digo não. Talvez por ter desafiado o silêncio e ter aprendido a dizer sim quando me convém. Isso talvez seja imperdoável.

 

Sou quadros desenhados em curvas na parede e pele. Sinuosidades que eu desfilo faminta, mas que ao fim, desconheço-me roteiros e avenidas. Não tenho rumo certo mesmo quando abuso das bússolas. Nem quero saber teu endereço, escapando assim das tuas promessas inúteis. Quando a palavra se esgota, a boca implora e isso é o que eu nunca consigo traduzir.  

 

(E eu lá sei, que ruas – e segredos a –  percorrer?)

 

Eu conto dias e enfileiro carícias para amanhecer mais leve, mas nunca adianta, porque planto dúvidas onde me sobra tempo e madrugadas a compor-me insônias e pesadelos.  

:: Postado por Dira as 5:01 AM

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Imagem: Delírios de Baco - Autor: Ramarago no 1000Imagens

 

Estendidas

 

Quando Mariana chegou encontrou-me varal de roupas estendidas em um quintal limpo e arrumado. Há tempos que arrumava a casa em mim, tentando guardar os pertences ainda amassados e cheios de poeira. Demorei a vê-la no portão. Costumo olhar a roupa secar ao sol no varal. Algo de especial há nesse ritual que me toma o tempo e eu fico a ver o ritmo das peças para um lado e para o outro... Silenciosamente.

 

Mariana chamou minha atenção pela pele que usava naquela tarde. Pele de esperas, como a de Madalena que é morna por vida. Quando a toco, parece que esteve ao sol há pouco tempo. Transpira em minha mão como se vivesse eternamente febril. E eu sei de suas febres quase sempre incontroláveis. Madalena possui a febre de matas virgens e ao mesmo tempo, a febre dos pactos de sangue em que diz não, quando a pele diz sim o tempo todo.

 

Ontem estivemos juntas, eu, Madalena e Mariana. Conversamos e dançamos e enquanto a chuva nos pegava de surpresa ao ar livre, vi Mariana atender ao celular. Noite de entregas que ficou pairando no ar como promessas juvenis. Era Rodolfo. Engraçado que sempre achei que a cara dele combinava com esse nome. Um menino cheio de azuis e de mistério. Bem que Mariana o acolhe em si e se farta grávida dos desejos que nutre por esse moço. Achei que aconteceria o que ela esperava, noite de estrelas e Chico César cantando ao largo. Nem tanto, algumas paisagens líquidas são quase impossíveis de relacionar como realidades febris. Precisa mais. Tom, cores, a brevidade das necessidades urgentes em nós. Eu disse isso a ela. Pena que a minha pele cética sempre tenta proteger as mulheres em mim.

 

É inútil. Elas sempre se jogam no escuro. Fendas, labirintos secretos que, ousadas, teimam em desbravar como bandeirantes afoitas. Foi só ele ligar, pela primeira vez, como insinuou da última vez e Mariana ali, com a febre de Madalena, suspirando tão alto que daria para compor uma sinfonia. A sinfonia das esperas nuas.

 

Quando ela voltou, estava sozinha. Celular na mão, e os olhinhos miúdos ainda esperando o retorno. Do que? Eu me entregava ao show. Dancei como nunca, tentando tornar real apenas aquele momento na mata, recebendo a chuva dos céus e contendo em mim todos os secretos. Porque minhas fomes são tantas e a água pouca para fazer gerar fora de mim as sementes do outro.

 

Eu queria a febre delas. Mas o que me restou foi os medos da volta e a solidão barulhenta de quem vagueia a noite, como gatos que voltam madrugadinha de suas farras pelos quintais vizinhos. Eu sou o outro que se recolhe em esperas infinitas e febris. Madalena e Mariana se divertiram, muito embora, notássesmos os olhos de Mariana para o celular enquanto durou a festa. E ele não retornou.

 

Estendida sobre a nossa pele, sobravam as esperas, o vinho e o ofertório. O desejo da festa e a esperança de beijos trêmulos quase infantis. A roupa secando no varal e em nós. E o corpo em festa, movido pelo vento a voar sozinho naquele noite que podia tudo, mas ficou a dever e ainda será quando a poesia se completar em versos que podem tatuar o desejo e esperar a completude. Eu sei que o que ela espera virá. O radar, instalado em seus olhinhos miúdos era a promessa, o vento na roupa a balançar.

 

:: Postado por Dira as 11:21 AM

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Feliz Ano Novo!

 

Nada de promessas, nada.

 

Nunca consigo falar em primeira pessoa. Acostumei-me a enlaçar as palavras e os sentimentos em silêncio guardando-os dos transeuntes... As minhas teias, adornando as minhas ilhas, falam de mim de uma menina assustada e faminta. Dias de fome e angústias, mas dias em que esperei atentamente as tempestades passarem para bordar novos sonhos nos meus dedos de gritos. Dentro de mim, algumas meninas brigavam entre si. Madalena, Clarisse, Rebeca, Diadorim, Alice, e a versão de Pollyana-moça sempre trocaram juras e algumas farpas quando eu me descuidava de mim.

 

Com elas, aprendi a guerra. Não se pode expor o sangue, as vísceras, o suor. Tudo é pecado e as meninas em mim ousavam me ensinar que o maior pecado era manter em segredo os meus gemidos e a ousadia de dar o primeiro passo quando o desejo fosse meu e fosse além. Talvez eu ainda nem saiba ser gente grande e Madalena sempre me puxa os cabelos quando me diz que eu devo crescer como ela, que virou uma moça feita e quando ama, sabe ser dela mesma e de mais ninguém. Madalena sabe encolher-se quando chora, mas sabe ser leoa quando a fome aperta. Eu sempre esperei que o outro tomasse as rédeas de minha vida. Não que eu gostasse, mas que talvez a comodidade de esperar a comida na boca me fizesse ser invisível para minhas lágrimas. Nunca fui frágil e nem desprotegida, mas deixar que pensassem isso de mim me trazia benefícios. Eu sempre quis ser a filha, mesmo quando eu era a dona da cena e da poesia.

 

Minhas mãos sempre desenharam invisíveis. Amei o que nunca vi, entreguei-me a paixões inúteis, tive grandes amores e tracei metas que nunca cumpri. Um dia, um único dia eu voei sem a minha vassoura. Alice, atordoada no avião, ensaiava versos de ousadia para as estrelas agora bem pertinho da janela.

 

Essa semana, enquanto via “O amor nos tempos do Cólera” me senti pequenina e ao mesmo tempo gigante nos braços do amor que eu amo. Um amor sem limites. Esse amor que nada tem a ver com as nossas razões e nem com o que imaginamos de “fidelidade”. O amor não requer pactos de fidelidade, ele apenas é. E quando vem, nos atinge o estômago como um soco. O amor que sentimos nunca é em via dupla. Ele quase sempre existe sozinho... por si só.

 

Enquanto o filme se desenrolava na tela eu sentia falta do amor em mim, e dessa troca que a gente costuma fazer quando ama. Senti as ausências de mim mesma e do encontro amoroso de minhas meninas dentro de mim. Madalena, Clarice, Beatriz Alice, sabem que quando estamos “tocadas” e afetadas por algo ou alguém não há como controlar a ansiedade e o desejo de ir buscar o outro, seja lá onde o outro possa estar.

 

Não. Nada de promessas para o ano novo. Só a gratidão de ainda manter vivo dentro de mim esse poder de renovar a alma. Síndrome de Peter Pan, síndrome de Phoenix. Síndrome do amor que adorna os meus dias tornando-me cada dia mais guerreira.

 

Trago em mim as frases incompletas e dos desejos inconclusos para dividir com o outro. Aquele que eu espero e que não seja nunca meu, mas seja do amor. Nada de posses, nada de meu e teu e dele. Que o amor é casa sem muro e portas abertas.


Quando sai do filme... com a cabeça em lugares ermos e um desejo de voar, mirei a minha emoção na ultima cena em que o casal de velhinhos fazem sexo, ela com vergonha do corpo marcado pelo tempo e ele a dizer-lhe: como pode sentir vergonha, do corpo que eu esperei por 52 anos? É esse o amor que eu quero para mim. Hoje, com 42 anos, amanhã com 80 anos. Amor que conhece o desejo, mas se reconhece acima de tudo, como o outro que se vê no espelho e ama a si mesmo. 

 

P.S. Obrigada aos amigos carinhosos que continuam vindo aqui, mesmo quando eu estou sem inspiração e pareço ter abandonado o blog. Eu volto. Isso sim, é promessa. Beijos a todos e Feliz Ano de 2008!.

 

 

 

:: Postado por Dira as 9:04 PM

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O que gosta uma mulher que os homens façam, ou manual de uso dos homens

(Ilustração de Daniel Garcia, Telmo, retirada do Blog: Pilha Errada.

 

* Por  Madalena Mel

 

Sou Madalena, 32 anos, e cansei de tentar entender os homens. Eles deviam vir com manual de instrução em português. Ok, talvez, no máximo em espanhol. No entanto, acho que eles estão vindo com defeito de fábrica. Falta sensibilidade para enxergarem que ao lado deles está uma mulher e não outro ser do mesmo sexo que eles. Percebo isso porque está cada vez mais difícil encontrar um homem meio “mulher” por aí. Que tal um homem com manual de instruções? Ou quem sabe alguém não inventa um manual de mulheres e não dá para eles? Por favor, escrevam em português, senão, será um desastre quando eles resolverem interpretar, como algumas pessoas fazem com a Bíblia.

Por exemplo, tem coisa mais irritante que esse medo dos homens de mostrarem-se apaixonados? E o de chorar? Ah, meu Deus. Chega a ser patético. Adoro vê-los chorando... por um filme, uma música, um livro, uma cena da novela. Por isso admiro Zeca Baleiro, autor da música: “Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar...” Eu choro mais quando esbarro com uma figura masculina razoavelmente interessante e ele acaba nos mostrando que o cérebro dele é de um tamanho de um falo, e o pior, bem pequenininho. 

Alguns deles quando esbarram em alguma mulher cujo perfil eles se interessem, partem para o ataque frontal. Nem se dão ao trabalho de estudar a forma de abordagem ou no mínimo, entender o que gosta ou quem é o seu objeto de prazer e desejo. Chegam mais perto (é, algumas mulheres pagam para ver: umas se decepcionam e conseguem sair de fininho, outras, se envolvem, aí é tarde, choram por séculos) e já estão puxando a mão delas para o membro deles. Há coisa mais patética que homem “guiando” a nossa mão pro sexo deles? Acaso não sabem que se estivéssemos interessadas nós mesmas faríamos isso? É que homens acham que apenas o membro deles é importante, por isso uns se acabam quando o possuem pequenos. Falta de imaginação. É como estar com um canivete, gostariam era estar com a espada de samurai. Não sabem eles que um canivete pode fazer um grande estrago, questão de inteligência, apenas. Mas não vou ensinar, não nasci homem. 

 A mulher fica lá, esperando para saber que livros lêem; se conhecem Nelson Rodrigues, opa... logo esse? Ou se gostam de filmes na sessão da tarde. Perda de tempo. Eles já estão de pau duro e raramente vão deixar elas falarem. São instantâneos, como se estivessem em stand by o tempo todo. Pior, quando as mulheres pensam em gozar eles já estão diminuindo o ritmo e lá estão, loucos para dormir.

E quando brocham, em quem eles colocam a culpa? Na mulher, claro. Em quem mais? Quem manda ser imbecil e acreditar neles?

Outro dia saí com um. O cara era um deus grego. Corpo sarado (cuidado com os saradões, eles não vão admitir nenhuma celulite sua), 1,80, sorriso lindo, dentes-saídos-de-uma-sessão-de-clareamento-dental e por vezes balançava o cabelo de uma forma que eu estranhei um pouco. Ora, mas sou legal. Respeito todas as tribos. E agora, surgiu uma nova categoria de homens, o tal do metrosexual... talvez ele fosse um. Embarquei. Estava carente. Achei que aquele corpanzil no mínimo me daria uma tarde inteira de prazer animal. É, ele tinha um corpo magnífico. Mas entrou no quarto já seminu. Nem tirou as meias. Mulher odeia isso. Homens de meia. Brocha qualquer uma. Comigo não foi diferente. Performance? Só mesmo se eu colocasse plaquetas no meu corpo: siga a seta, cuidado, piso escorregadio, vire a direita, desça devagar, e por aí vai. O cara devia ser tapado, mas se sentia a bala.

Resolvi gritar quando ele passou meia hora tentando colocar o pauzinho dentro da camisinha. Ele achou que eu estava gozando (por que será que eles nunca têm certeza disso se é tão óbvio?). Esse achava que as mulheres gritam quando estão gozando, vai ver são anos e anos vendo os gatos fazendo sexo nos telhados. As gatas gritam. Pobres gatas. Pobre de mim que gritei tanto de raiva que ele acabou sem conseguir vestir a tal camisinha e desistiu. Disse depois que a culpa era minha que pareci “comandar”, e mulheres que comandam o deixam “inibido”. Sei, sei. 

E quando metem a língua na nossa orelha. Alguém sabe para que? E quando eles pensam que preliminares são pura perda de tempo? Será que não entendem que uma mulher precisa desse “tempo” no antes? E será que não lembram que estavam acompanhados no “depois”? Tem coisa mais deprimente que o sujeito tirar a roupa em dois segundos e já cair matando a vítima? Se brincar, a mulher nem lubrificou. Nem poderia. Vai ver pensam que há botões de ligue/desligue e buraco pra enfiar a tomada no nosso corpo. Vão ficar com a tomada na mão e mais uma vez, lá vamos nós explicarmos, põe isso aqui, ó, na minha vagina, ou seja lá em que buraco for. Pobres meninos.  Creio que a educação que eles recebem nunca é da mãe. Marte também é um planeta machista. Deve ser por isso. Se uma mulher os tivesse ensinado, talvez eles soubessem nos tocar.

Pronto, agora vou adivinhar o que o leitor está pensando: coitada dessa mulher, só pega trogloditas. Por que será que eles raramente ligam no dia seguinte? Mulher gosta de saber se a noite foi boa pra ele também. Nada. Eles nem se dirigem a você. Problema seu se gozou ou não. Eles não perceberão mesmo... sempre perguntarão ao final: foi bom pra você? E você a cara de quem morre de pena do infeliz vai dizer, “foi ótimo, você é o máximo”, daí você vira as costas e tenta esquecer que aquela transa existiu e o cara vai embora se sentindo o máximo. Deixa ele, amanhã ele chega em casa e a mulher dele está na cama com a vizinha, uhuuu, ele vai querer se matar. Mas eu bem que avisei.

Tem coisa mais deprimente que a insistência dos homens antes de trepar? São perfeitos. Até flores eles mandam. E se tiverem competindo com outro babaca, aí é que a performance antes do acasalamento se torna mais “romântica”. E todas as mulheres ao redor vão invejar a pobre vítima. Mas é só a idiota dizer sim e esquecem até o seu nome no dia seguinte. E se perceberem que a imbecil se apaixonou, putz... estarão longe na primeira hora seguinte da relação.

Homem não tem mesmo noção. A mulher passa horas promovendo o prazer DELES. E tome carinho, dança do ventre, strip-tease, sexo oral, gemidos em outra língua (eles se sentem o máximo se a mulher varia a entonação do gemido e se aliar a isso uma boa rebolada, pronto, estão satisfeitos) e eles abrem as pernas delas, ensaiam o gesto, correm para fazer o mesmo com elas. Não dá tempo, eles já vão estar quase gozando e precisam estar com aquilo lá duro dentro da gente. Sei de uma amiga que reclamou ao infeliz que ele não a chupava. A resposta dele foi imediata: desculpe benzinho, eu esqueci prometo que na próxima eu não esqueço.

Os homens são egoístas, acham que só goza quem possui pau, mulher então, nem precisa gozar, eles não vão saber mesmo. Nunca.

Eles têm amnésia no dia seguinte: Ah era com você que eu estava ontem, querida? Estava tão chateado com a vida que nem me toquei. Claro que não. Ele usou as mãos dela para tocarem nele. Ora, melhor aceitar, piores os que preferem os becos, as ruas e as calçadinhas da praia para evitarem gastar grana com uma trepada só. Para que? Nada contra os improvisos do desejo de última hora...acontece.

         Ah, mas nem tudo está perdido. A ciência está tão avançada que logo criaremos homens sensíveis e meio mulheres só para o nosso prazer. Bem que os gays deveriam ser bi. Porque assim, teríamos homens sensíveis, amorosos, e perfeitos, sabendo tratar uma mulher.

         Homens deveriam se obrigados a ler o nosso manual. Daí, nem precisariam nos perguntar no meio da transa, onde fica o nosso ponto G. Nem soletrando eles achariam as vogais, quanto mais as consoantes. E a mulher ainda é a culpada quando eles brocham.


Madalena e a Amanda (AQUI) resolveram dar suas versões sobre o tema. Cherry, eu não consigo comentar no seu blog!!!!! 

:: Postado por Dira as 5:58 AM

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Namoro

Imagem: Namoro (Almada Negreiros)

O despertador na cabeceira já tocara várias vezes. Mas ela não conseguia estímulo para levantar da cama. Uma, duas horas de atraso. O telefone, na sala, já demonstrava a irritação de pessoas procurando por eles. Madalena é festa e descanso no dia seguinte.

Evitara muitas vezes deixar o seu corpo falar. A vida inteira aprisionou os seus desejos e apenas era metáfora e dúvidas quando a pele exalava rumores de angústias de pele aflita. Quando tomava banho o corpo chorava. Desejava o moço. Desejava a vida. Desejava sair como saíra naquele dia: braços abertos para a imensidão de doar-se a si e a ele.

Madalena nem quis pensar nas possibilidades do desencontro de peles e cheiros. Desencontros tardios de aflições e sentimentos. Isso tinha que ir além de alguma forma. A hora estava marcada. O dia no calendário lunar adornava-se de uma lua amarelada com os contornos em relevo pendurada sobre o mar azul. Mar de ondas serenas e com um cheirinho suave invadindo a rua onde Madalena estacionaria sua ansiedade.

Quando tocou a porta, Miguel a esperava com uma roupa delicada. Tinha no beijo um vinho perfeito: hálito, boca e segredos enrolados na sua língua quando a recebeu na porta. Madalena era esperas e entrega. Por pouco esquecera a porta aberta, enquanto os vizinhos do flat cruzavam o corredor.

Quando o mundo se fechou atrás dos dois, o céu era ali dentro. Estrelas, cometas, brisa noturna no corpo dele, onde Madalena passeava tentando provar o nunca e o impossível de acontecer. O vinho da boca dele a embriagava, deixando-a mole, cada vez mais entregue e apaixonada. Mas não poderia pensar em sentimentos. Não em paixão. O que estava ali era apenas a sede e a vontade de comer. Mas ele fazia tudo para que aquele momento fosse mais e além. E foi.

Delicadamente Miguel a conduziu a cena seguinte. Ritual de passagem, necessário, se estivesse falando de pessoas comuns, não de Madalena que tinha na pele outros tons em rosa azul incandescente. Sim, a pele dele e o cheiro traduziam o que ela mais quis e sonhou. Cheiro de homem e de menino. Tudo poderia passar despercebido, como apenas mais um encontro entre duas pessoas que se desejam, repito, se não estivesse falando de Madalena essência de vontades e malícia.

Eles não tinham pressa. Nenhuma. Tinham a vida para degustar todo aquele vinho. Na sala, os cheiros se misturavam ao som das ondas quebrando na calçada. Miguel sabia exatamente onde as faltas de Madalena a escondia em barbantes espalhados pela sala. Fio por fio e ele a tecia com mãos de mágico e de escultor. Sabia exatamente como redesenhar a alma dela e isso não tinha nada a ver com romantismo, era apenas um homem conduzindo uma mulher para depois, deixar-se conduzir pela paixão. Miguel não estava preocupado em ser o mais superficial possível com medo que a pobre e indefesa mulher se apaixonasse perdidamente e arruinasse a sua liberdade.  Eles eram cúmplices do desejo e depois de uma amizade que desenrolaria outras cenas de afeto.

Com ele, Madalena ousava dizer “te amo” sem culpa e medo, quando ele orquestrava seus gemidos naquela noite. Era lua cheia. E os gemidos, uivos de carinhos moldados pelas mãos dela... pequena artesã de seus caprichos. A sinfonia era de um afeto incomum àqueles tempos... mas era real, eles se sabiam.

O dia amanhecera devagar e ela se recusava a acordar junto. Não queria ir embora. Nem. Desejaria acordá-lo com flores do campo, cereja que mergulharia sobre o corpo alvo dele... brancura pintada de pelos e marcas de batom... Naquela noite mergulhara nele de corpo e alma, procurando nascentes de águas límpidas onde bebeu e matou sedes. Guardaria o seu gosto entre as mãos, os lábios, o corpo inteiro, até que a ausência, provocasse outras reprises em preto e branco.

Quando acordou, Miguel sorria ao seu lado. Sem jeito, arrumou o lençol sobre o corpo desnudo e pediu para ele olhar para o outro lado. Miguel riu e sem entender o constrangimento dela, obedeceu carinhosamente. Madalena levantou, trancou-se no banheiro e pediu aos céus para nunca acordar daquele sonho bom. Beberia todas as tempestades que saíssem daqueles lábios, corpo, pele e músculos. Mas sabia que era um corpo estranho ali naquela cama e naquele quarto. Precisava desocupar o espaço até há pouco tempo dividido entre gemidos e ensaios de um ritual de acasalamento.

Sussurrou o nome dele. Mil vezes, para tornar real aquele tremor em suas pernas. Mas Miguel era apenas uma promessa tórrida e meiga e era tudo que Madalena queria: descanso dos dias e gozo nas preliminares. Aquele sim era sua metade, o parque de diversão e a sala de leituras que ela desejara a vida inteira. Pena que era apenas um personagem que compôs para si mesma. E ele morreria na cena final, quando o livro por fim, fosse fechado, sem nenhuma chance para uma segunda parte ou a continuação de outros sagas. Personagem com dia certo para nascer e morrer, sem substitutos no set de filmagem. Nada é tão perfeito, quanto a imaginação dessa moça.

:: Postado por Dira as 10:20 AM

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Clarice

                                                                  Imagem capturada aqui 

 

Clarice apareceu na minha janela num sopro e logo saí para vê-la brincar com a chuva. Há meses que não me refiro a ela, não que ela não tenha tanta importância quanto Madalena em minha vida. Lógico que não. Mas Clarice é mais passiva, espera os dias, espera as noites e brinca de encantar castelos que ela constrói na areia da praia. Ela não é ousada, possui a displicência de dias silenciosos e dos apaixonados.

 

Lembro do dia que ele casou. Clarice chorava sozinha pelos cantos da casa. Relia as cartas que trocaram no tempo em que eram apenas riscos e planos de um futuro que nunca chegaria. Olhava a boca dele... a foto que tirara quando estiveram juntos pela primeira vez pela webcam.

 

Talvez eu evite falar nela porque não suporto sua dor de ter perdido aquele moço das letras. Moço lindo. Moço real e de uma cor ímpar onde ela se desenhava nua em azul todos os dias. Só pra ele. Até o dia que puderam ouvir a voz um do outro. Clarice estremeceu quando o tom da voz dele cantava em notas coloridas, rimas e ritos africanos e a melodia quase explosiva da paixão em embolada. O amor, o seu único amor que se proibia pela mentira e o medo de perde-lo se fazia maior que todas as promessas.

 

Talvez eu a ignore pelo que ela suscita em mim todos os dias. Saudades das suas narrativas em que os dias teciam palavras e promessas azuis. “Haja o que houver nunca vou deixar você”. E o moço a deixou. Abriu a janela e lançou-se asas e ira sobre a tempestade. Clarice sabia dos ferimentos que causara nele e em si mesma. Mas nunca, em toda a sua existência, teria amado tanto e entregado-se como a ele, nem nunca ao menos ter provado da sua boca.

 

A voz ainda era uma promessa em branco e preto ecoando pela tarde vazia que se seguiu quando ele resolveu ir buscar o que nunca teve. Não vá. Clarice pediu e angustiou-se quando o moço saiu, louco de tudo, apagando os rastros e o passado para cair nos braços de quem ele dizia nunca mais amar. Clarice tinha a impotência da distância e das mãos curtas na vontade de tocar o moço das letras e consola-lo pelas dores diárias. Ela queria ser apenas dele como um comercial de tv e teve as asas dilaceradas pela dor e pelo sumiço dele. Fique online, meu amor, fique. E o dia tinha o tom de desejo e desgraça no ar.

 

A saudade a despia de vestidos azuis, a cor dele e a deixava com o olhar perdido, perdido, como se nada mais importasse. Daí evitar Clarice nos meus dias de lua. Sei do sofrimento dela e de como pediu aos céus o fim de seus dias. Sei de como chorou e se perdeu em lágrimas que desenhou na mesa naquele dia que ele se fora. Chorava descontrolada e sozinha. Tinha uma angústia tão grave em suas amídalas que quando cantava, era como se gritasse chamasse o nome dele em prantos. Quis me poupar de sua angústia porque não suporto outros pesos senão o meu próprio de esperar arco-íris diários. Sou outros rios e Clarice pesa sobre os meus ombros quando fechou as janelas, travou as portas e cingiu-se de dores e prantos por ele. Com ela por perto, tenho dificuldade de voar.

 

Mas é claro que não digo isso pra ela, até que se cure, e isso levará anos. Espelha-se nas poças de chuva que vai pulando como uma criança. De certo, espera o moço voltar, ou ao menos conta os dias e as horas para esbarrar nele por alguma avenida dessas. Ela é frágil e mesmo fingindo-se de forte, sei que todas as noites, implode sozinha em seu quarto: cores, cheiros, voz grave do poeta, o abraço dele e a despedida trágica. Tudo isso é o alimento mórbido de seus dias. Até que se vá enfim para outro planeta azul. Clarice ainda é do poeta, em todos os dias em que se desenha sua para toda a eternidade de lágrimas. E isso pesa demais em mim. Não suporto as folhas em branco e os finais melosos das novelas dramáticas.

 

Reescreveria sua história, se possível fosse e evitaria as cenas finais para que a poesia nunca se partisse em dois e fosse um poema em carne viva: alimento de sensualidade e nunca de vermes. Eu dançaria outros ritos e destilaria outras cenas, para que Clarice nunca tivesse que implorar perdão. Ela bem que poderia ter sumido com ele no ontem e ter sido a meretriz, mas preferiu o papel da mocinha e percebeu que as mocinhas sempre morrem no final.

:: Postado por Dira as 10:32 PM

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Desencontro

Imagem do Site: Escola de Parapente

Foi do nada, assim, batom escrito boca no vidro mesa da sala, venenos suaves em conta-gotas e rapidinho Madalena era refém. O dia, cada vez mais longe, desenhava contatos, marcava encontros e marcava a calcinha com a vontade dele. Menino-ideal-como-companhia-para-matar-passarinhos. Espantava-se com o que queria e como tudo concorria para o contrário, pele indisposta, hálitos, pêlos demais nas axilas e as filas de banco. Precisava tempo para ser dele. Mas isso era quase impossível. Tudo girava em aberto e ao contrário e Madalena desistia dia a dia, silenciosamente, de andar em asa delta.

- tinha as asas encolhidas pelo frio do silêncio dele -

Desenhou encontros, fez caras e bocas, tocava o corpo, a alma, sonhava com ele, queria, queria, queria... e a lua era outra, medusa, de costas. E por mais que desejasse e moldasse a pele àquelas mãos, tudo concorria para as lágrimas, a decepção e a aquarela de uma cor só na contemplativa tarde na praça. Esperaria-o sair de casa para caminhar silêncio na praia. Não telefonaria. Não mandaria mais e-mails, nem cartas, nem flores, nem beijinhos pelo correio. Esperaria-o na calçada de sua casa e seria dele, sempre, quando na chuva tatuava aquela tarde.

Madalena tinha fome dele. De sonho, de imagens, de contos eróticos e de passeios ao pé do ouvido. Queria aquela voz, melosa sorrindo à meia boca, meia lua, meia cara, a sua metade dos desejos malditos. Nunca desejara tanto e sempre, ser daquele moço exatamente naquele dia, em que não combinariam mais nada, para que o vento não tomasse o rumo, a hora e o dia marcado e varresse seus sonhos. Madalena é alfenim e aquele moço, a decisão que ela queria tomar entre os braços. Chave jogava fora para nunca mais perder a porta aberta e o holocausto de medos.

À véspera era o desgosto e a espera pelo vidro da janela fechada. Tomaria as rédeas entre as mãos como os cabelos dele, puxados para trás, e o amaria assim, com a folhinha do calendário rasgada para evitar os gritos ao avesso e fora de onde plantaram tantas dúvidas.

:: Postado por Dira as 5:44 PM

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Tatoo

A intensidade do olhar e daquele toque no braço - sutil - parecia formar um conjunto de secreções e desejos que em nada lembravam os filmes de mocinhas e príncipes românticos. Naquele momento, Madalena era apenas a fome; e o moço de barba, a salivação de palavras que nem conseguiam formas de exorcização. Só desejo, como se animais não precisassem explicar odores e cores e nem justificativas para estarem ali. Os dois. Transparentes aos olhos do outro.

O sol de meio dia tinha uma dimensão multiplicadora daquele sentimento. Por que desejar aquele moço era tão complicado naqueles dias? Queria ir. Queria ficar. As horas, as marcas, os compromissos, nada parecia sintonizar numa faixa que pudesse explicar aquilo ali, entre os dois. Madalena se fazia de boba, fingia não entender, disfarçava o tom e a marca na pele e a tatuagem da mão dele, sobreposta sobre a pele nua dela: o seio colado àqueles dedos. Contorno sutil pelas bordas. Para o precipípio, era o pulo, o vento forte, o delírio. Não queria entregar-se alí no meio do trânsito onde tudo seria um escândalo encantador. Queria tempo para saborear o ar que aquele homem respirava lentamente, prendendo a respiração quando lhe tocava o braço. Precisava de tempo para ser a menina dele, e a mulher que explodia nas suas mãos e só conseguia descanso naquele olhar, sereno, recostado sobre a paisagem verde.

Saíram de braços dados. Mais ela, que ele. Ao menor toque da pele dele, Madalena estremecia de um impulso só. Sentimentos guiados por eletrodos plugados aos pêlos dele. Sempre e sempre um tom pastel desenhava a boca dele escondida em alguma travessura que se prometiam. Nenhuma aliança os feria, nenhuma promessa de ano novo e natais juntos em família, apenas a vontade de deitar sobre ele e pichar aquela pele branquinha, branquinha de saliva em tons vermelhos-fogo.

Não queria lembrar a hora, a fila no banco, o trânsito que enfrentaria para pegar as crianças no colégio. Ficaria alí presa àquele clima de vontades e cumplicidade, atrapalhando a passagem dos estranhos ao redor deles. Madalena achava que estava escrito na face dela, como se lia na dele, em tom imperativo para que a lua escurecesse aquele sol e eles pudessem tocar-se finalmente, como se nada mais existisse que pudesse ser mais importante que o tempo em miragens e volta. Nada mais faltava.

O moço de barba ruiva e olhar em jazz, dedilhava a pele dela, franzindo a roupa pesada e nada convidativa que vestia os dois (eles se vêem fera e se lambem como se desejassem sangue e dor). Nada favorecia, nem o tempo, nem o momento, nem a língua acesa, nem a paisagem verde ao redor e dentro. Suplício e querer aos pés do nada. Madalena suspirou, levantou-se para sair e deixou-se deslizar sobre o moço. Ele a puxou para si e mergulho lira sobre ela. Rimas, cartas, intenções e promessas do agora. Nada se transportaria futuro, o sonho tinha data marcada no calendário da geladeira. E segurava-se apenas com o imã da atração febril - imãs de geladeira com dia certo para perder a cor.

A saliva, com prazo de validade, secaria à boca, no depois e antes e ainda assim, seriam disperdício e saudade, onde o desejo curaria o anoitecer.

:: Postado por Dira as 6:47 PM

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O encontro

Imagem: Sérgio Pinto (Minhós) - Site: Mil Imagens

“A boca ainda guarda o medo, os lábios tremendo, as palavras entrecortadas procurando pouso e sentido. O novo, à véspera do sim, abriu as portas para a poesia sem rima e eu me derramei versos à espera das mãos dele. Que importa? Abri com ele as comportas e deixei entrar a chuva temporã, o riso e a fala mansa e aquele moço me olhando serenamente”. Ouvi essa descrição do primeiro encontro de Madalena com o moço da barba ruiva. Enquanto ela descrevia a cena, minuciosamente, o toque, as falas, as vírgulas partindo a dúvida e as interrogações atrapalhando o trânsito, eu arrepiava os cílios da alma. Onde estaria eu naquele exato momento em que me transportava à pele dela e sorvia aquele instante.

Rui caminhava ao seu lado, enquanto Madalena tentava uma distância de proteção a si mesma. Medo de entregar-se, medo de ser ela mesma quando desceu até o estacionamento conduzindo o visitante em sua cidade. Rui possuía o ar e a sílaba e poderia tê-la se quisesse, alí mesmo. Antes, quando o abraço tocou o brilho, Madalena experimentou entregar-se ao outro, ao que não estava alí, ao que ele guardava de si da lembrança do menino. Sempre o menino como pano de fundo e réstia e a vontade de mergulhar, libertando as falas e as atenções.

Era eu ali e ela e Rui. Sozinhos em um palco sem intrusos. Rui, de barba quase farta, roçava as nossas fronteiras, uma a uma, frente e verso e eu me sentia descoberta quando Madalena sorria jogando os cabelos secos de um banho apressado, sem tempo para aninhá-los em um creme qualquer. Queria as mãos dele em minha nuca e na dela. As mãos espalmadas deixando a boca, dela e a minha, à sua mercê. Mãos de homem, de dono e de servo. Mãos de quem escreve com o polegar a um código quase perfeito de amor sem culpas.

Enquanto Madalena olhava o teto e confessava o encontro com Rui, eu também sentia a pele dele, o cheio, o toque e me enroscava no beijo deles, porque ali eu era ela e ele o mais perto de mim e o dentro. Pensei no moço entre os livros da estante e a imagem pulsando na memória. Em quantas letras eu soletraria aquela dor e descreveria aquela saudade?

E por que ouvir Madalena falar de Rui me remetia tanto ao poeta que estava longe, ao alcance da imagem na tela de vídeo? A minha boca salivava a saudade do beijo prometido e amaldiçoado em passado de todas as fomes sepultadas. O sonho virou fumaça preta, disforme e vazia, em um cogumelo sombrio. O amor também veste miragens e se clamufa nas vontades.

E Madalena continuou, me fazendo chorar numa angústia inexplicável: “Quando parei de falar e falar e falar, Rui me olhava de uma forma a decifrar os meus gestos inseguros e infantis. Não era a mulher fatal e nem a deusa do amor que estava na frente dele. Era a menina insegura, querendo que ele me conduzisse pela mão e me abrisse os armários com as chaves que eu já entregara a ele. Uma a uma. Estava vestida de uma roupa que me cobrisse e não revelasse, mas estava nua, cobrindo as vergonhas que nunca tive dele e nunca, em tempo algum, esqueceria o moço que me ensinava a tocar Rui, como se a ele e ainda perguntava, foi bom tocar o longe

:: Postado por Dira as 5:53 PM

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Foto: Tânia Flores (1000Imagens)

“flores e imagens, flores e imagens: flores...” Louca. Madalena era a menina e a mulher quando decidia suas ruas e esquinas por onde passar. Por longos anos esqueceu desse poder. Escolher, sozinha a rua que desejava deslizar. As cores, as imagens, os sons dos gemidos quando tocada. Era a plantinha de folhagem miúda que se fechava ao toque humano.

Passou anos subjugada àquele ser. E eu sempre dizia: Madá, reage, garota. Esse cara não pode te maltratar assim. E Madalena virava os anos no mesmo ofício, cuidar da casa (filhos não tinha – o que na situação dela era ótimo), administrar a vida doméstica esquecendo que a pele sempre reclamava dos maus tratos. Madalena era uma menina ainda e não sabia ainda cuidar de si.

 

Não demorou e estava na praia. Sozinha, em um silêncio quebrado apenas pelos beijos dele. Beijos de espera. Suculentos. Famintos. O moço, bem mais alto que ela, passeava pela idéia dela de que aquele momento era o abrir e fechar de portas atrás de si, quando a casa grande era apenas cenário de alegria. Seria justo olhar as estrelas, embriagada pelo hálito daquele moço que tanto lhe tirava o sono? Vinho. Gosto do vinho na boca dele, onde bebia o cálice do atordoamento. Madalena o empurrou suavemente e o beliscou. Ai... maluca. Estou viva? Perguntou sorrindo ao moço que lhe tomava emprestado a noite para ensina-la a desenhar horizontes. Uma lua cheia, garrafa de vinho dentro de uma sacola que trouxeram, sandálias dele e dela, e o mar como companhia. Poderia fechar os olhos ali...e estaria satisfeita. O seu amor, o seu menino, estava ali, contornando os próprios bichos e temores e entregues numa paixão febril.

 

Nunca aprendi a escrever sobre o amor de Madalena. Achava lugar comum quando tocasse a pele dessa mulher que tanto me incomoda quando é pura e quando de puta, se entrega aos seus desejos, pouco se importando com o mundo que se dita os passos e as sandálias nada confortáveis. Mas ontem, vendo-a despir-se de um passado doído, vi Madalena menina, ser mais que estrada onde o amor transitava. Mas vi-a mulher tomando as rédeas dos seus desejos e fazendo o que sempre ignorou desejar: uma praia, silêncio, lua, estrelas e um vinho do Porto a ensinar Madalena a sonhar. Esse moço sabia de todos os mapas dela. Tocaria mais que o zíper descendo silenciosamente sob o impulso dos dedos firmes dele, sabia dos gemidos e da fome que ela tinha (dele), sempre e quando aqueles dedos gravavam nela e dentro, o mapa da sobrevivência e outros temores.

 

Nunca aprendi a decifrar essa moça que inventava sempre uma boa desculpa e um olhar que me contasse tudo, quando me via assim, paralisada ao vê-la. Segurava o seu silêncio, quando o que mais queria era outdoor estampado na quarta avenida. Guardava os seus secretos e derramava-se nua e sempre quando mergulhava no moço renegando de mim protestos e promessas de salvação. Madalena nunca mais ouviu ninguém, senão a voz dele, ao seu ouvido, em noites de tempo quente e lua no céu.

:: Postado por Dira as 9:23 PM

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SUAVEMENTE EM CONCHAS

Dira Vieira                                                    (ao professor)

Eu a vi sentada em um bar em Copacabana. Nunca esquecerei. Linda. Sempre de azul, vestido esvoaçante, como era de sua preferência. Tomava um Gin e lia Bukowisk – cenário perfeito. Os cabelos, moldados vez ou outra pelo vento, traziam as ondulações de dias em que se desenhava nua para si e para a rua.

As pernas cruzadas em um contorno suave guardavam os mistérios do não que ela teimava fingir. O celular, dentro da bolsa enorme que pousava sobre uma cadeira, tocava insistentemente no tom do Bolero de Ravel. Madalena demorou a encontrá-lo, e quando o tocou, o moço desistira de chamar. Fim de tarde em Copacabana e ao lado do velho Buk, Madalena brilhava os olhos, iluminados por algumas doses de Gin.

Guardava na boca o gosto de um ontem presente. E tremia quando pensava nele. Sentei com ela. Trocamos beijinhos. Descruzou as pernas, perguntou-me o que queria beber. Chamou o garçom, pediu algo para mim, superior, com a sua mania de tomar sempre, a iniciativa. O celular tornou a tocar. Madalena pediu licença, abriu o aparelhinho e viu o nome dele na tela. O professor. Estremeceu. Desconcertou-se visivelmente e mesmo que me pedisse licença, ficou sem jeito para atender. Sei que ela queria ficar a sós com aquela voz. O professor e a generosidade da vida que trazia até aquele momento aquela voz e aquele desejo. Não sabia o que dizer a ele. Nos minutos que passou a olhar o celular, o professor desistiu. Talvez nem ele tivesse certeza do que dizer. O que seria no minuto após o oi inicial?

Madalena sorriu sem graça. As mãos envolvendo o ar faziam gestos inseguros. Uma menina, agora, desconcertada e tímida que pilotava tempestades de uma só vez. Eu quis rir. Quis sair dali para deixá-la senhora.

Madalena fechou o livro, depositando-o sobre a cadeira. Ocupava todas as cadeiras da mesa, espalhava-se para tentar preencher as faltas. Se eu pudesse pintar o seu quadro naquele momento, desenharia chuvas caindo sobre os ombros daquela mulher tão ingênua e lírica. Os seus olhos eram mistério de águas coloridas e brilhantes, e diziam tanto, ninguém a conteria para si em laços eternamente. Difícil e árdua sua tarefa de guardar a si mesma de posseiros e aventureiros.

Inventei uma desculpa, levantei deixando mais uma cadeira para que ela se espalhasse. Madalena trazia pequenas histórias entre as mãos e nas unhas, esmeradamente pintadas, que cantavam seduções enfeitiçando suas noites em Copa.

De longe, vi que rabiscava um guardanapo e entregava ao garçom enquanto a chuva começava a cair. Jogava os cabelos para trás sedutoramente e sorria suave. Fim de tarde. Cruzou as pernas a espera do retorno do moço ao celular, pediu outro Gin entregando-se novamente ao velho Buk, até esse momento largado na cadeira.

Aproveitou a neblina leve, enquanto ele não ligava e levantou para ir embora. Guardou um punhado de chuva nas mãos em conchas e passeou silenciosamente pelo rosto. Estava linda. Deslizava chuva com a criança que guardara dentro de si. Em cada tropeço em uma poça de água mais funda, gargalhava exibindo os dentes pequeninos e infantis.

Agora sim, sozinha, adornava a alma para ouvir a voz grave do moço e a ele se entregaria em outra tempestade que certamente viria quando fechasse os olhos já bêbeda de tanto desejar.

:: Postado por Dira as 7:48 PM

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Dengosa

 

Dengosa, enquanto a paisagem mudava de um sonífero escuro para um amarelo que desenhava o céu de desejos, Madalena se mexia como uma gata preguiçosa ainda na cama. O dia acordava devagar e dentro dela ainda o sono escrevia palavras que ela não diria a qualquer um. Nem ao outro. Madalena era silêncio e juras, não repartiria esse dom com qualquer um. Nem sob tortura.

O sol pousou na janela como um passarinho que vem dar bom dia, deslizou por sua pele manhosa ao mesmo tempo em que escrevia silêncios consentidos e ainda assim, estava plena em um vestido azul que prometera a ele naquele verão de um verso passado.

(Algumas rimas não encontram pares, vivem quebradas pela eternidade).

Madalena é de uma brisa que rompe o quarto escuro e faz sombra de mãos na parede imitando bichos. É uma criança que espera o dia acordar para sentir-se inteira. Mesmo que naquele dia fosse a metade em metáfora, um grito preso na garganta e a melancolia que chorava em frios. Hálito de uma história que ainda não possuia meio e fim. Nem queria pensar no dia anterior e as suas mãos se arrastando numa superfície dolorida procurando a pele dele. Estavam cortando os laços e Madalena ainda sentia a pele dele macia, sem a barba, sem a aspereza dos últimos anos em que não se suportavam mais.

Não queria pensar. Não naquele momento. Ainda nem bem o dia acordava, Madalena já dispunha de um milhão de procedimentos práticos para resolver. Calma. A gata, arranhando o lençol de sua quase liberdade que acabara de receber linhos novos, não queria acordar à saudação da vida batendo na janela. (Na janela? A vida? Onde mesmo?)

Era um ritual. Como todos os outros. De passagem, sofrimento, troca de pele, ou seja lá que nome ela viesse a dar àquele momento. Nem ousaria ver-se no espelho: tinha um aspecto de alguma rima mal empregada ou um poema que nunca chegaria a ter desfecho final, pois as palavras enveredavam por sulcos em sua pele. Apenas palavras que erravam o caminho e mergulhavam na sua boca, caminhos que o prazer desviou a cor.

Mas ela é Madalena. E Madalena é outra coisa nada igual cujas dobras de pergaminho vão se desenhando na paisagem e renovando o ar sempre que fecha os olhos e mergulha. Nada que se compare. Livro semifechado de propostas indecorosas. Alia-se ao sol todas as manhãs para provar para si mesma que pode todas as coisas sempre que retoca o mundo com o seu batom. Poder maior nenhum. Senão quando se veste de seu próprio prazer, muda o tom da camisola e dança sozinha para ninguém ver.

Madalena é faminta de linhas, de cores, de fantasias. Não seria fiel a mais ninguém senão a si mesma e àquele desejo das mãos do outro subindo pela encosta de seus seios. Bastaria olhar a si mesma no espelho e aquela carinha manhosa de pensar o que se produzia a si mesma quando o outro era apenas mãos e língua sobre a sua pele farta de esperas.

Faria o caminho sozinha e os desvios que quisesse para respirar fundo. O hálito, era aquela esperança desenhada na janela que Madalena tocava. Nenhum profundo tem tanto sabor quanto o que ela toca lá no fundo de uma superfície crespa e cheia de curvas para se servir.

Madalena é mais que inspiração. E isso importa muito enquanto a chuva não entregar suas funduras onde apenas ela mergulha e sonha. Isso basta.

:: Postado por Dira as 4:11 PM

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Vestida de Lilás

Imagem capturada no http://gbizzotto.free.fr/fotos/neblina.jpg

a estrada que me toca desenha asas de borboleta em minhas mãos. sou teias que se desfazem de um tempo quando. espera o céu e rasga, para que tanta cerimônia? Meu gozo é rápido-indolor-comedido, arranha a minha pele num cenário de neblina. tenho medo da curva que se apresenta em branco. sigo. a volta é a véspera da dúvida, como a pátria e a alma que esparramo pela casa. tenho medo. e a mulher de batom que me olho no espelho soletra palavrões de gratidão.

o tempo é outro de um brilho reluzente. o amor é um lilás tão cinza que eu choro quando a última nuvem acena paisagem. Metalinguagem carmim. sigo pernas de violoncelo, enfeitiçando ruas desertas por onde me aninho, procurando palavras embrulhadas para um presente que não dei. se o dia acontece sem ruas, silencio os pés, faço arco-íris com o dedo e mostro a língua para a imensidão das horas: fingir-me de morta é pecado que não sei contar.

a minha alma é a navalha no verso e no reverso. sol de meio-dia, meia noite. salvem a rainha desse desgosto de morrer tão cedo. não tem jeito que o amor é assim, arruma desculpa onde é apenas floreio.

num minuto e eu era o centímetro da fome. a barriga plantada onde o ontem começa e parte. tenho toda a fome do mundo e ânsia de vômito no jardim da casa. o quarto é o ontem dos desgostos ao me encostar na parede. o mundo gira. e tem mesmo que girar, senão enjôo e dúvidas. Há vários e pequenos caprichos onde eu não alcanço e nem sinto chorar.

não tem jeito que o amor é assim, arruma desculpa onde é apenas floreio.

Dira Vieira

:: Postado por Dira as 10:10 PM

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Amigos queridos e apaixonantes, estou no Blog-se porque dessa vez o UOL não comportou o tamanho do texto. Espero vocês lá. Quem vai? besos.

www.diravieira.blog-se.com.br

:: Postado por Dira as 9:02 AM

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