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A vida é circular
Tudo é um cÃrculo. Tudo há começo meio e fim. Penso nisso quando olho para esse blog e não aguento mais esse azul e essa minha carinha olhando para baixo. Queria outro e até tentei. Mas não era o uol blog onde sempre estive tão bem. Agora, tento arrumar as malas para outros voos. Quero levá-los comigo, para onde eu ainda não sei. Mas acho que o ciclo aqui nesse blog se fechou e eu não posso ficar sem escrever. Ando correndo, lutando, tentando a todo custo sobreviver. A minha vida não anda fácil e cortar os laços não está nada fácil. Estou sendo moÃda, triturada e amassada contra a parede. Mas estou viva. E eu quero continuar assim, até que o meu próprio ciclo também se complete.
Mil beijos a todos voces, garanto-lhes que acho a saÃda e o caminho de volta a mim mesma e a cada um de voces. Estou fervilhando de palavras e de vontades de querer viver. Então tenham paciencia, logo, logo, voltaremos a namorar de novo...
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Dira
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Retalhos de Estrada
Estava magoada que eu sei. E enquanto a estrada se conduzia para tocar o céu Madalena lembrava da cena. A mao doce dele abria o ziper de sua calça mediante a passividade consentida dela. Eu nao posso. Dizia. Mas o desejo podia tudo, inclusive moldar os labios dela em um pedido de socorro e de distancia. Os dedos dele eram as chaves, abrindo as portas da senzala, rumo aos campos floridos de cafe quentinho na garrafa.
- Diz para mim o que voce nao pode, Madalena? Roberto dizia isso com a voz embargada pela emoção. A pele dela, de um veludo intocavel, desenhava os contornos dos sinais invisiveis de todas as permissoes. Passaram pelo umbigo, sentiu aquela parte do seu corpo quente, uma pequena caverna onde costumava esconder a sua lingua. Ela podia sim. Se alcança a lua quando queria, o que dizer da mao dele que alcança o nunca, o lugar onde ela prendia todas as palavras e sussurrava rimas roucas e aflitas?
A magoa a acompanhava quando a estrada alcança o ceu e logo retornava em linha reta. As suas curvas eram de uma umidade assombrante. Nunca sentira isso por homem algum. Bastava pensar nele e o seu coração disparava sozinho abrindo todas comportas de rios e de lagos secos. O nome dele era "estou aqui", entre os seus dedos, na umidade que lhe devotava.
Podia parar de pensar nele. A mao no queixo, o semblante que se curvava para um olhar que ela nao entendia. Era de Marte, ou de Venus aquele desejo sufocante que a fazia tremer dos pes a cabeçao. No dia que ele pediu que ela voltasse do caminho, e devolvesse aquele beijo prometido, Madalena nao sabia que estaria entregando-se à devoção de dias e dias de esperas umidas e paciencia esgotando o desejo, transformando suas tardes em cais do porto, navio que nao aporta, noites solitarias na senzala.
Ainda nao entendia quando o seu coracao pendia a cabeça para a imagem dos navios negreiros, as senzalas, os canticos nas noites de lua, a mao dele descendo lentamente para o longe, onde ela nao tinha mais força para resistir. Sonhava com os Quilombos. A boca livre, as pernas abertas para tudo o que sonhou, umidos, rios, tempestades, lingua-patria e tudo o que o verbo mandasse, ela fazia. A imagem se formando em seus olhos, e a boca umedecendo de saudades.
No primeiro dia, quando ele entrou naquela sala cheia de pessoas que esperavam o sim, Madalena estremeceu pela primeira vez, de uma serie de estremecimentos fortuitos e delicados. Quando ele a cumprimentou, o mundo inteiro fez um silencio de cinema. Cameras paradas, cena impar. Vento debaixo do vestido de Marilyn, close-up, take unico, e os dentes marcados pelo seu batom vermelho delatava a sua alma purpura.
Na estrada, retalho era o nome do caminho que se fechava a frente. Mato nas margens, o celular sobre as pernas esperava o melhor verso tocar a sua musica. E se ele nao liga, jamais sabera se os dedos finalmente alcançariam o tudo e Madalena mergulharia no divino. Nas costas, ainda a marca dos dentes dele imprimia sua tatuagem como esperança.
Do lado de fora, a paisagem desenhava os rostos da terra, e o sexo, como a alma, era apenas o espelho, a mesma coisa, o contrario que ficou avesso, quando a imagem que virou a esquina explodiu no seu peito e foi embora. Madalena, olhando pela janela, via a estrada como um murmurio, uma fome a esperar em cada parada eventual, terras desconhecidas, e o seu amor se estendendo em saudades pela kilometragem.
Enquanto a estrada a recolhia ate o ceu, ainda sentia aquele cheiro doce de sexo que dizia sim, Madalena, sim, voce pode, mesmo quando dizia nao, segurando os sonhos e os dedos dele. O ziper abria, a mao deslizava e Madalena apenas se entregava a poesia que se escrevia nela. Dedos, versos, e a umidade da vida violando todos os naos que tentou dizer quando ele a puxou para si naquele elevador.
Os dedos dele, deslizando, era a mae do Quilombo rasgando os veus, enquanto desciam, pariam os filhos da liberdade. A cabeça tombava para tras e o carro seguia viagem. Dos ceus caiam chuvas, e dos dedos dele, a tempestade.
Dira Vieira
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