Sexta-feira de todas as paixões

Imagem: Sérgio Pinto (Encontros e Desencontros)

 

 

 

Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Por dentro de mim, não sou sozinho, sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto minha história, me misturo, mulato não das raças, mas das existências.

[Mia Couto, "Afinal, Carlota Gentina não chegou a voar?", do livro Vozes anoitecidas, 1987]

 

 

Tenho medo de dormir algumas noites, como a de hoje. E quando o silêncio é a placa de vídeo prévio sobre o destino açoite, imagino o tempo que ficarei a sós comigo e com os meus monstros habitantes em mim. Melhor varar a noite e cair de cansaço para não ter que discutir a relação com os meus outros. A mulher mal amada que reclama de tudo e se sente só quando o dia é apenas um quadradinho riscado de tinta vermelha no calendário preso da porta da geladeira; a menina que saiu para comprar chocolate e insiste em que eu veja as variações de ovos que comprou para a minha páscoa; o homem que me chama de maluca, e vez por outra se espanta quando eu escolho o batom que ele usa; a mulher magra de boca carnuda que tem a pele em brasa e vive ao espelho retocando a palidez como se sentisse falta de outras culpas; a mulher gorda, sentada na sala comendo pipoca, insatisfeita, que morre de tristeza de não ser aquela gostosa que chama a atenção quando passa na rua, mas que ao mesmo tempo se sente feliz por ser a que melhor goza e que não se rejeita, quando ama.

 

Em mim, alguns personagens fazem plantão em noites de lua como hoje e esperam, horas a fio, que eu me disponha a ouvi-los, como agora em que eu me sinto rendida a fugir de todas as mãos de mim que puxam a barra do vestido que já foi azul só dele.

 

A loira que odeia ser chamada de burra; a morena voluptuosa e cheia de maldades; e a bruxa que errou a fórmula de todos os encantamentos e nunca conseguiu a poção correta e exata para acostumar-se quando o amor pede férias e sai a pescar. Todos esses eus me esperam à noite em minha cama, quando eu me encontro em dias como hoje, sem entender como alguns sentimentos se expõem e se retraem numa facilidade de perder de vista a noção do encantamento e do respeito ao outro.

 

- Era mesmo lilás aquela canção da madrugada em que me vestisses a alma e saímos para encantar? –

 

Tenho medo, nem vou negar, das noites que se vestem como a de hoje. Uma frieza de sentimentos que me enche os olhos de uma saudade infinita. É como não comer macarrão e não sentir a menor falta disso, já que ao meu lado tenho as marcas de todas as reivindicações de mim e de todos eus.  Não acreditar em luas cheias; não dar pérolas e nem beijos calientes em porcos que se reviram em suas poças de lama; não acreditar jamais no amor que pede um tempo ou tira férias e se vai; não mergulhar no amor que não se expõe, que não suja as mãos e que não derrama rios quando a saudade comprime o peito. Sei que de todos a Madalena é a que mais chora: puxa pelo meu braço, chora quando descubro os seus ritos e ainda se joga, peito aberto, vísceras à mostra, toda vez que ensaia amar e arriscar-se aos precipícios. Madalena sabe que nessas histórias de contos e fadas,  a bruxa é a atriz principal, e os sapinhos, apenas príncipes desengonçados e mal acostumados a fingir que beijam bem, quando na verdade, é Madalena e todas as mulheres em mim, que arriscam a pele quando o assunto é desvendar e virar a pele pelo averso em tatuagens que sangram poética e deliciosamente.

 

Os habitantes do meu corpo são prisioneiros de uma sexta da paixão em branco e preto no melhor estilo faroeste sem armas.

 

Visto o silêncio, como o dele, no mesmo tom, e antecipo a falta para uma madrugada íntima com a coragem que se veste em mim. Pelo tom da pausa, desconfio que o poema quebrou o verso e se afogou no nada. Não será possível destravar a língua nesse vazio de palavras vãs.

 

Dira Vieira

Mulher de tardes

Infelizmente não sei o autor dessa foto que capturei no Google. Se alguém souber, por favor, avise-me.

De faltas. a minha pele sente e me faz rosários de lamúrias quando o dia se veste de uma noite perdida. O clima que se abre pós sol, arrepia e me chama outros sons que eu desconfio fazer parte de minhas angústias. Relaxo as cores, abro um sorriso tímido e toco a pele para ver se transformo a noite em poesia e desperto anjos em mim.

 

De faltas, a minha angústia me enche de peles o peito e expõe os guardados nunca secretos que explodem sorrisos e gerânios de um tempo quase em meu coração.

 

- os pensamentos são como ninfas em uma floresta deserta, fujo deles para não acreditar -

 

Algumas tardes me cobrem com lençóis vermelhos, de cetim, e acendem outras intenções como se abrissem um livro e uma página manchada a dores com frases incompletas. Sou maré cheia ao fim da tarde, e um movimento de tocar e voltar em ondas me faz descobrir que estou mais viva do que morta em saudades.

 

Sou letras e rabiscos e um desenho ímpar sobre a pele das faltas escrevendo um nome que eu não consigo traduzir. Era ontem e o janeiro diria que eu sentiria essa falha em meu sistema de dados, mas era tarde para voltar atrás o que estava posto sobre a cama tão vazia dele.

 

De faltas, eu me traduzo outras línguas e em parábolas, me tatuo rede, rosto virado para o que não vejo e tento chamar a sua atenção: nem todas as línguas revelam o que só o coração dele d(e)ialeta para outras ilhas. Sou bug numa tarde de vermelhos e ardências e o mar fazendo voltas na pele em uma sinfonia minuciosa e íntima onde eu te traio em mim na presença da tua lembrança que se manifesta carinhos, redomas e hálito quente.

 

Sou tardes, hálitos, faltas, pele e um sonho reeditado ano após ano, contando-me desejos que neguei e que se acendem em detalhes todas as vezes que penso tecer.

 

De faltas eu me traduzo ilhas e uma saudade anelar me conta de promessas que prefiro esquecer. 

 

Dira Vieira

Atropelando as chuvas

 

Imagem capturada na página: http://i78.photobucket.com/albums/j104/poesia_portuguesa/Chuva.jpg

 

A tela que se mostra o lado fino do olhar é o outro e a sentença sobre a tez de Madalena é cruel. E ela é fria. Escolhe os passos que dará como quem escolhe uma peça de roupa para sair. E tem que ser assim, como o suave desejo que lhe percorre a espinha e é tão só dela o tamanho das asas que escolhe para voar nesse dia.

 

Quando o dia amanhece, Madalena é outra, em uma estação de trem distante de casa. Revolve os cabelos, olha a imensidão de uma estrada que deixou para trás. O que virá no depois?

Madalena é faminta. E quanto mais o dia vai chegando ao seu final, mais ela se agita como um leão em fúria dentro do quarto. Sua ansiedade geme, eu posso escutar de onde estou que todas as angústias dela dividem o seu corpo em partes de um quebra-cabeça complicado e difícil de atender. Madalena chove como um temporal que cai sobre a cidade deixando as ruas repletas de pedidos de socorro. E o que eu posso fazer da posição confortável de espectador?

Uma fúria feminina, inconstante e líquida me absorve e debilita. Exala um cheiro de fêmea. Doce cheiro. Desenha suas faltas em um espelho encardido na parede de um banheiro fétido na estrada. Entendo a sua angústia latente. Os lábios rosados perdendo o volume pelo peso da idade, e o corpo, tomando proporções que ela nega até a morte. Madalena é rio que corre sem represas... mas ela queria os braços dele a represar as suas ilhas: anda cansada de pastorear sozinha as suas falas.

Madalena é tola. Carrega a angústia de noites sem lua. E quando finalmente é lua cheia, treme dentro do quarto como se suas fomes fossem únicas no mundo. Sei de seus desertos e daquele moço que levou a sua alma azul de mil tons. Nunca mais a teve e sempre que se agita, sei que busca o azul dentro de si para sobreviver. Ultimamente, sua palidez desenha monstros em meu sorriso. Isso me assusta. Onde se perdeu, a minha menina?

Ontem foi assim. A noite descendo devagar como um manto enlouquecedor e Madalena esperando respostas na estação de trem. Queria a sua alma, como antigamente e a paz que a precedia nesses momentos únicos.

Na pele, as marcas em tatuagem falavam dele... Lembranças malditas de tardes sofridas, espaço em branco, lilás de palavras sufocadas e um desejo maior que tudo empurrando a sua vontade para pensar nele. Vai Madalena, só mais uma vez, pensa nele e morre. Morre de uma vez por todas, fecha esse capítulo, encerra essa cena e abre outra chance em seu leque de azuis perfeitos. Talvez fosse apenas louca, com uma insanidade pagã masoquista.

Das pinturas em quarto crescente, Madalena é o vidro que secou na minha melhor cor e tom e eu ainda nem explorei de todo a sua pele macia de suas valsas em tons semi-rosas. 

Quando o olhar é peixe fora do aquário...

 Imagem capturada nesta página

 

Madalena fixa os olhos no nada e passa a contar as palavras que saem do silêncio de Mário. Uma palavra, duas, interrogação, reticências. Não há em sua estrofe silenciosa nada que se possa formar uma oração. Há um desconexo de dúvidas a cada minuto.

 

Ela pára. Respira fundo e recomeça a contar. Para que criar uma novela nesse vácuo? Quando a noite de sábado se enrola em uma cortina de silêncio, Madalena realiza uma discussão acerca do vazio que se interpõe entre a sua ausência em si e a do outro.

 

Metade é ela em frente ao espelho, cabelo molhado, taça de vinho convidando a lua e a insegurança de não ser nada para ele a brincar com as gotas que correm pelo seu corpo ao sair do banho. A pele tem uma textura de mata virgem e de pêlos que esperam luas cheias. Madalena se toca e a noite parece ter outro clima que a joga para a varanda.

 

Há uma angústia que se instala em seu ventre afastando-a de outras alegrias. Embriagaria todos os sentidos. Deixaria a varanda aberta, dia de chuva fina sobre a sua pele sempre tão úmida de ausência e quereres.

 

Não ia forjar uma luta, nem ventanias, nu frontal sob o olhar minucioso do gato siamês que brinca com a almofada da sala. Ela poderia insistir por choques elétricos e fios desencapados. Mas seria inútil... se a outra parte não arrepia para que incendiar terra encharcada de águas salgadas?

 

A noite de sábado poderia ter areia nos pés, sorriso solto, uma ventania. Poderia ter barulho de bocas roçando e pés inquietos procurando outros debaixo da mesa. A noite e o sábado poderiam inventar serestas, ditados populares, poesia concreta, batom vermelho, camisa aberta, olhar de quem quer, e se finge de morto. Poderia quem sabe ser terreno baldio na sua sede de terra molhada. Mas o dia reservou silêncios e angústias e ainda se arrastou para um até breve seco, como se a linha tênue de todas as falas se calassem para sempre, e fosse o fim do mundo.

 

Madalena é porta fechada e desertos. Melhor assim que inventar rimas pobres e remendos em roupas novinhas em folhas. Se ele não decide, por que ela se traduzia em  braile a si mesma? Eu sempre soube que Madalena ama demais. E isso é tão inútil quanto tentar suar em dias de gelo e vácuos. Mário era um camaleão. Madalena era a interpretação de todas as falas e riscos. Água e óleo no dia azul. Nada se mistura mais que as incompletudes quase idênticas. Alguns diálogos não resistiriam às dúvidas. E Madalena sabia de sua boca a contar as meninas que saltavam de seus olhos.

 

A boca dele é doce. E aquelas mãos já não escreveriam tantos poemas bons porque perdeu a noção do corpo dela em  suas mãos. Amar era sacrifício de arte e induções.

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