Faminta

Imagem: Victor Melo

 

Madalena tem fomes quase maiores que ela. Quando caminha, metade dessas fomes caminha a passos largos atravessando as suas pernas e falando alto como se quisesse duvidar dela. Não sei se tenho pena, ou se eu também queria a sua fome diária de querer o amor a roçar os meus cabelos e tocar a minha boca enquanto me arruma numa poltrona de viagem ao lado dela.

 

Ontem me falou dessa fome que não consegue controlar e nem denominar, como se pudesse enfileirar, emprateleirar, ou coisa semelhante, as suas vontades. As suas necessidades de amor, chegam a doer no estômago e ela se parte em duas quando está em crise. Falou-me do moço ao lado dela na cama. O sono, fechando os olhos após o amor e Madalena querendo mais, sobrando na cena e na paisagem. Queria mais suor, queria palavras ofensivas, ou carinhosas, queria barulho no quarto de quem ama como animal. Na verdade, Madalena sempre quer o que está além da escrita e da descrição do autor. Queria muita festa, e talvez o que ouvisse o tempo todo fosse o silêncio de quem pouquíssima coisa tem a dizer. Isso dói em seu estômago, porque ama com as vísceras e quando se entrega, chega a sangrar a sua carência. Madalena é faminta e eu nem sei se a culpa é dela mesma ou dos outros que não se entregam na mesma proporção.

 

Enquanto viajávamos ontem me contou do moço, e do outro e do outro. Dos sonhos e das apostas que fazia quase sempre para perder. Ela não se importa com isso. Paga o preço, como eu disse, paga com a dor de talvez não acertar o alvo e cair de cansaço.

 

Dessas fomes, que por vezes a derruba na cama e a faz comer chocolate por horas a fio, sei que caminha para o pior. O pior de quem tece castelos de areia e de vento. Menina sozinha. Enquanto ele dormia, Madalena o olhava faminta, com os olhos cheios de lágrimas, imaginando que talvez aquele momento fosse o último. Nem se desse a sua alma, alcançaria o outro que de tão alheio, nem perceberia que ela chorava quando vestiu a roupa e insinuou ir embora. Não queria ir, claro que não. Talvez o mínimo que esperasse era que ele disse não, não vá e ela fingiria resistência mas por fim, deitasse ao lado daquele corpo, que era apenas o corpo mais especial que já tocara. Mas era só isso. E Madalena tem fomes demais para contentar-se com o corpo, o suor e a alegria do prazer no durante.

 

Queria o que estava por trás, atrás da porta, debaixo do travesseiro, por baixo das cobertas, do edredom. Queria a palavra não dita e talvez a dor de partir sem ouvir o que dizia por tantas vezes e o tempo todo. Eu te amo. Madalena gostava de repetir na intenção de que o outro aprendesse e sussurrasse para ela. Sim, ela amava, mas a fome que tinha, pouquíssimas pessoas a saciaria.

 

Enquanto me contava, percebi que chorava e massageava a barriga mostrando onde a fome se instalara. Fome de tudo, de olhos, de bocas, de palavras, principalmente palavras que dissessem a ela mais do que ela pretendia ouvir. O mundo inteiro é pouco para a fome de Madalena que se instala além do ventre e vai muito mais fundo do que qualquer raio x possa expor. Quando ama, costuma abrir as comportas e como as chuvas são temporãs, não há represa que a comporte e nem tão pouco, mãos que se adaptem à sua boca, saciando a sede e a fome de todas as ausências. E mesmo assim, me admiro de encontra-la sempre terra fértil e preparada para gerar todos os frutos de que necessita.

 

Quando o moço dorme e sonha, Madalena derrama rios e deseja margens, corpo aberto na expressão de quem espera. Mas que o desejo, mas que energia, o que está invisível talvez à cena anterior ao toque de midas. Madalena é mata fechada, vontade selvagem de quem viverá seus silêncios e noites sem lua. Nas clareiras que abre em si mesma, Madalena é foco, fogo predador e fêmea e não há quem possa com isso.

 

Dira Vieira

Hora marcada

Reinventei os dias quando o tive entre as mãos: poesia a cumprir-se como profecia. Hei de te amar enquanto o sopro me doer nas narinas e quando o tarde se fizer hoje nas noites em que fechamos os olhos para suspirar. Sim, eu reinventei a poesia no cheiro, no hálito e na sintonia de ouvir a tua voz, melodiosa canção de ninar enquanto eu sussurrava milhões de vezes o teu nome para acreditar.

 

Hei de te amar, quando o sono não vem e o relógio avisa do dia amanhecendo como um enfado e nenhuma vontade de levantar. Se o tempo se fecha, se o riso é um choro abafado e se os teus olhinhos me pedem alegria quando eu sei que aquele tempo é o que me desenhas instantes sem promessa, sem registros fotográficos, sem nenhuma marca de descontentamento.

 

Hei de descobrir a porta para o ontem e o verso contorcionista que segura os dias e revela-se no momento do deixar partir. Deixa eu ir, deixa. Ensina para os filhos, que nunca terei contigo, o quanto de nós que era vidro e nunca quebrou nas tempestades de silêncio. Conta para eles, que nunca virão, que o teu pelo era a minha pele e a tua boca, o mapa dos meus encontros e bússola de perdição. Conta-lhes do teu desejo de como soletramos pesadelos, bocas, dedos, camisola de dormir e o teu pijama de bolinhas que eu vesti sem sentir. Conta tudo. Conta. E não me deixas mentir. Conta de quantas vezes, para fugir, vestimos os avessos e em contrário e nos confundimos entre as nossas pernas quando éramos apenas vontade e fome de nunca existir.

 

Enquanto isso derrama em mim essa saudade, o suor descendo pelo teu rosto, cascata de desejos alimentando minha boca. Do que nunca perdi por não guardar como marca em um anel que brilha no escuro trago os traços do teu corpo, caminho de ilhas e parágrafos, tempo final de todas as lutas.

 

Já é tarde. E enquanto arrumo as malas, desembaraço o cabelo acostumado aos teus dedos, me alimento da devoção com que me olhas, saudade e pedido de não vá e eu fecho os olhos para acordar mais viva dessa angústia que é dizer adeus quando a tua boca me morde o céu da boca e eu agradeço a Deus o sopro da vida.

 

És a tatuagem mais perfeita e que me descola assim, de mim, quando em todas as fases me fazes lua ao teu bel prazer e majestade. E eu, a rainha confusa, letras formando nuvens no azul céu enquanto esquadrinhas e prendes a minha alma na tua canção.

Silêncio nas curvas

Imagem: Cássio Murilo (Santa Luzia, Paraíba)

Madalena estava sem ar como de costume. Quando o emocional se abalava, sentia o ar faltar-lhe nas narinas como a palavra que lhe salivava vida. A boca seca e a língua se enrola em um ritual assombroso de quem procura o chão e encontra vazios.

 

Sentou-se na praça. A noite silenciada por uma chuva fina, transparente, caia ao seu lado, sem que tocasse os seus cabelos em chapinha – vez por outra, Madalena discute a relação com os seus guardados tamanha a dor que sente sozinha, sem compartilhar com quase ninguém, senão os amigos invisíveis que coleciona para momentos como esses.

 

Abriu-se como bolsa a procurar alguma coisa ansiosamente. Procurava frases, bilhetinhos deixados sobre a sua mesa do trabalho, promessas, sonhos de menina, uma criança que não conheceu exatamente o frescor das manhãs em um parquinho infantil. Quis encontrar o beijo prometido, a chuva fresca, o brilho no olhar, a ousadia invadindo a blusa e o escuro da noite. Quanto mais procurava, mais se agitava ansiosamente. O ônibus que se perdia na escuridão da madrugada não estava ali, dentro dela, em um folhetim em reprise. Queria tocá-lo imensa e silenciosamente, mais que tudo na vida.

 

A chuva, usando de todo o senso comum, curva-se diante da moça de cabelos nada ondulados, que sentava sozinha com a alma aberta em busca de traços do homem que conhecera há dias atrás. Teria sido mesmo o aquele homem ou outro avatar que saltara de dentro do espelho de Alice e lhe tocara como se nunca fora tocada? Madalena era uma página em branco, amassada e jogada no passeio público. O poema, que certamente teria escrito naquela noite ao tocar os lábios carnudos do moço, era agora, apenas um esboço suave na salivação incontinenti daquela hora.

 

A hora em que a despedida é apenas um aceno e um até logo, como se aquele encontro tivesse sido apenas e unicamente um meteorito no lugar errado e na hora errada, Madalena se ressente de querer sempre o impossível. Porque a pele e a densa nuvem que desce sobre os seus pensamentos descrevem uma cena sem atores e um palco onde apenas o desejo fez dueto de si mesmo.

 

Ontem ele era apenas um menino e Madalena especialista em descascar nuvens de fumaça.

 

Recolheu-se no banco, quis olhar para trás e lembrou-se do sal. Volte. Lembrou o pedido do homem de longe quando ela era apenas uma paisagem de sorriso largo e confissões infantis. A amizade desejava líquidos e sonhos da boca do outro, e o proibido se permitiu poesia solene de amores e os pés nos chão alcançando a liberdade.

Dira Vieira

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]