Meu Humor

Dira Vieira
E-mail: dira.Vieira@gmail.com
Joao Pessoa - Paraiba

Links

:: 1000 Imagens (Site Fabuloso)
:: Agrestino - Manoel Carlos
:: Antigas Ternuras - Marco Santos
:: Antonio Mariano
:: As cartas de Elise
:: Camila Vieira
:: Câncer de Mama - Visite e Ajude
:: Clube do Conto da Paraiba
:: Cores Humanas - Mauro Cassane
:: Alumiada - Valeria Freitas
:: Dora Limeira
:: Dora Vilela
:: Doroteia - Pensar é um ato
:: Fabrício Carpinejar
:: Kátia Maués
:: Las Ondas
:: Leônidas Arruda - Poesia
:: Linaldo Guedes
:: Márcia Maia
:: Maria José Limeira
:: MEU FOTOBLOG
:: Milton Ribeiro (Vale a pena ler)
:: Nada acontece por acaso - Maria Borges
:: O Cisco
:: Oceanos e Desertos
:: Oficina Literária - Maria José Limeira
:: Os poetas Elétricos (Carito)
:: Outra Madame, a Giovanna
:: Pedra Brasileira
:: Ponto G
:: Proseando com Mariza
:: Retalhos e Pensamentos
:: Tábua de Marés - Márcia Maia
:: Transmimentos - Claudinha
:: Zênite - Adriana Zapparoli
:: Contos Secretos
:: Idéias Despedaçadas - Sarah
:: A verdade está lá fora - Adriano de Léon
:: Brasileira de Meia Idade - Beth
:: Minha cereja
:: Minha Loba
:: César, o meu avesso
:: O canto da Boca (Vizinha)



..:: INDIQUE ESSE BLOG ::..

01/11/2009 a 30/11/2009

01/07/2009 a 31/07/2009

01/06/2009 a 30/06/2009

01/05/2009 a 31/05/2009

01/03/2009 a 31/03/2009

01/01/2009 a 31/01/2009

01/12/2008 a 31/12/2008

01/10/2008 a 31/10/2008

01/09/2008 a 30/09/2008

01/08/2008 a 31/08/2008

01/06/2008 a 30/06/2008

01/05/2008 a 31/05/2008

01/04/2008 a 30/04/2008

01/03/2008 a 31/03/2008

01/02/2008 a 29/02/2008

01/01/2008 a 31/01/2008

01/12/2007 a 31/12/2007

01/10/2007 a 31/10/2007

01/09/2007 a 30/09/2007

01/08/2007 a 31/08/2007

01/07/2007 a 31/07/2007

01/06/2007 a 30/06/2007

01/05/2007 a 31/05/2007

01/04/2007 a 30/04/2007

01/03/2007 a 31/03/2007

01/02/2007 a 28/02/2007

01/01/2007 a 31/01/2007

01/12/2006 a 31/12/2006

01/11/2006 a 30/11/2006

01/10/2006 a 31/10/2006

01/09/2006 a 30/09/2006

01/08/2006 a 31/08/2006

01/07/2006 a 31/07/2006

01/06/2006 a 30/06/2006

01/05/2006 a 31/05/2006

01/04/2006 a 30/04/2006

01/03/2006 a 31/03/2006

01/02/2006 a 28/02/2006

01/01/2006 a 31/01/2006

01/12/2005 a 31/12/2005

01/11/2005 a 30/11/2005

01/10/2005 a 31/10/2005

01/09/2005 a 30/09/2005

01/08/2005 a 31/08/2005

01/07/2005 a 31/07/2005

01/06/2005 a 30/06/2005

01/05/2005 a 31/05/2005

01/04/2005 a 30/04/2005

01/03/2005 a 31/03/2005

01/02/2005 a 28/02/2005

01/01/2005 a 31/01/2005

01/12/2004 a 31/12/2004

01/11/2004 a 30/11/2004

01/10/2004 a 31/10/2004

01/09/2004 a 30/09/2004

01/08/2004 a 31/08/2004

01/07/2004 a 31/07/2004

01/06/2004 a 30/06/2004

01/05/2004 a 31/05/2004

01/04/2004 a 30/04/2004

01/03/2004 a 31/03/2004

01/02/2004 a 29/02/2004

Visitas

IP

Deitada

milnoites.jpg

Fotografia de Graça Loureiro retirada daqui

O dia se levanta sobre sua pele como uma cobra que se revira enquanto digere o último alimento. O corpo não responde e o burburinho da manhã lá fora bate na janela como pedras jogadas contra a vidraça. O coração demora a acordar as páginas deletadas do tempo que urge na calçada do ontem. Mas nada disso importa a Miguel que se debruça na varanda para ver o dia acordar.

A palavra, língua solta e úmida, conta dos segredos da noite anterior. O vinho, a meia luz, a gargalhada solta da moça (o cenário perfeito para o encantamento), entoavam o som ambiente para o encontro perfeito. Sem rimas, o verso só quebrava quando a última barreira, onda quebrando na praia, esbarrava no céu daquela boca ainda úmida de tanto repetir o nome dele. Ah, Madalena, Madalena, que delírios esconde essa mulher na qual a ausência de todas as culpas a levam para o sim, sempre que o dia se levanta em seu querer.

Debruçado sobre a varanda a esperar a noite, deixa transparecer outro mundo além do balcão da recepção. Citou-a como namorada e depois ficou pensando realmente o que ela seria naquele momento em que todos os seus ossos, células, medula, fios de cabelo, eram de Madalena e apenas dela. Corpo moreno que compunha a cena daquele quarto, onde, na noite anterior, estreara o seu melhor disfarce sobre ela. Não conseguia ser o seu dono, nem ele mesmo pertencia a si ao lado dela. Madalena era livre. E ao seu lado era apenas a materialização dos desejos dela. Madalena era a senhora de todo aquele momento, ambiente, sonhos dele. Os sonhos de Miguel vestiam uma camisola vermelha curtíssima de renda e uma boca que sorria enquanto dormia.

Voltou para dentro do quarto. Viu-a dormindo mas não como um anjo. Além disso. Madalena era a extensão das suas mãos que tateavam nela a esperança dele mesmo existir. E se ela fosse um holograma, Miguel, o homem da varanda, seria também uma ilusão da palavra marfim?

Sentou-se ao lado da cama. Pegou o violão pois sabia que ela gostava de vê-lo tocar. Viu-a chorar na madrugada e ficou em silêncio para não entrar de sapatos em sua vida. Por muitas horas, evitando magoá-la, ou invadi-la, desejou sua boca em silêncio, desenhou seus lábios com os olhos e não ousou roubar-lhe beijos. Antes assim fosse. Um ladrão. Bandido impiedoso que invade o corpo alheio sem pedir licença e deixa a vítima violada e apaixonada. Mas ele não era assim. E talvez faltasse um pedaço por não ser comum a todas as eras. Miguel era único como Madalena alí, deitada naquela cama, como se a manhã não tivesse poder para acordá-la, nem senha para abrir o que ela tão bem escondia. Quem era essa moça que dormia como uma ninfa naquela cama? >  

Miguel tocou a canção dela. Não seguia nenhum código, nenhum ritual, nenhum manual. Ele seguia a si mesmo e àquele ímpeto de vê-la acordar suavemente sobre a cama macia. Tocava o violão com tanto respeito que as notas musicais eram como um coro de muitas águas. Seu corpo todo era cachoeira descendo despenhadeiro.

Sua namorada. Pensou e rejeitou a possessividade no mesmo tempo. Não. Madalena era dela. E ele nem a si pertencia. Ela era a namorada dos dias dele. Constrangimento na hora em que o recepcionista perguntou quem era a moça que entrava com ele. O rapaz apenas queria saber o seu nome para o registro obrigatório e Miguel entendeu outra coisa. Não sabia responder.  Quando ela entrou no saguão do hotel, todos pararam para vê-la passar. Não era bonita. Ou não tão bonita para isso. Mas Madalena chamava a atenção pela sua sensualidade e meiguice. Era ao mesmo tempo uma mulher e uma menina. As mãos pequeninas, o corpo quase perfeito. Era na sua imperfeição. Miguel se deslocava quilômetros para vê-la, anualmente. Qualquer sacrifício seria pequeno para ouví-la rir, contar o seu dia, dar gargalhadas já "altinha" por três taças de vinho. 

Miguel a queria mas não sabia exatamente como isso seria. Nem poderia, Madalena está acima de todas as leis. Aprendera a vida toda a exercer o poder sobre os outros (e a deixar-se dominar por pessoas, sentimentos e situações) ou sobre tudo o que tinha. Com ela aprendera outros tons, outros verbos e algumas palavras perderam o sentido quando finalmente tocou aqueles lábios arredondados que sempre desejou. O beijo daquela moça o suspendia do chão. O toque da língua, o cheiro, as mãos por dentro do cabelo e a entrega que a tornava promessas e desafios.

Madalena lhe ensinava todos os dias a reverter a ordem das coisas e a fazer poesia concreta quando as suas mãos contornava os sonhos dele acariciando o seu ego e injetando vida em suas veias. Naquele momento, deixava que ela se fizesse cenário para a melodia que sussurrava para despertá-la. Miguel era ridículo apaixonado e nem fazia questão de não demonstrar. O amor daquela moça lhe vestia de sonhos e adornava as manhãs em que fugia do mundo para vê-la naquele quarto de hotel.

De qualquer maneira queria ser ali, aquele momento, ao lado e dentro dela porque era apenas assim que se traduzia.


Para os homens sensíveis que quando amam, se desprendem das dores do mundo. Dentre os que conheço e amo: Miguel, Luis, Nélio, Paulo Sérgio, Zeca, Isaque, Marco, César (aldeias).

:: Postado por Dira as 3:28 PM

:: Enviar esta mensagem

Na arena

Imagem: O fantasma da Ópera


Alguns pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, o suco escorre como se o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o medo e desfaz-se em voltas que as rimas soletram em sua cabeça – há ventos no céu da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e nada posso fazer daqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até enclausura-se em multidões de si: cada passo é em falso e um abismo completa o outro em prosa. Conta estórias que não quer esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário, deslizantes desejos. Inspira-se na falta como se a palavra dele fosse cântaro onde ela bebe, diariamente e em silêncio mortal. Não quer que ele saiba que é sua sombra, gosta do silêncio e do moço quando a saudade é poesia concreta ardendo suavemente na boca.

Madalena cansa das escolhas que faz e mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse restos de idéias e relatos de suas paixões. Todas as palavras se ressentem da inspiração que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros). E se não fosse aquela música, poderia ser algodão doce na paisagem?

Ela finge que nem lembra, mas cada vez que olha, o atrás é reflexo e pesadelo. A boca dele em concha é o alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Não pode pagar sozinha por todas as culpas. Eu sei. Mas ele não sabe. Quando o amor resseca na boca, é necessário antibióticos miraculosos para sarar ausências. Não sei como sobreviveu sem estrelas até agora. Ela é forte.

Quando caminha, a volta é o frio e todas as portas traduzem gritos. Quem é ela para compor o intervalo e pedir que ele olhe o ontem? O que sente já nem faz eco, e o que soletra já não escreve o nome dele porque esqueceu suas vogais. Uma lacuna e um verso não escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta. Ele é prosa quando se mostra poesia nos olhos que brilham e sorri no momento exato do quando. Mas Madalena não separa a prosa da poesia porque nela, tudo é prazer sem forma.  

Há curvas no tempo e todas as vezes que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.

(Uma roda de amigos, conversas ao vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês, e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao impossível).

Madalena se ressente do que não viveu e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.

Toda vez que canta pensa no ontem. E cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não volta, fez sombra em uma eternidade. Nunca esquecerá que no abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido, porque já pertence ao cenário de um espetáculo sem estréia. Vive os fantasmas e o personagem principal que não rende bilheteria e nem fama.

Repete as cenas, reescreve diálogos, relê o passado: toda a falha é síntese que não consegue reemprimir daquelas páginas arrancadas bruscamente. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando nunca, repete-se no final. E o dia ditava a hora em que podia dizer eu te amo com a voz entrecortada pela dor do longe.

Madalena tem sonhos em vantagem e toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem fim – o bilhete é só de ida e o destino, incerto.

Em todos os dias em que não se desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode condenar o tempo por promessas não pagas.

E se ainda tiver fôlego poderá refazer-se palco e brilhar o neon de seu desejo. Haverá sempre outra platéia e um autor em busca de falas. 

:: Postado por Dira as 12:22 PM

:: Enviar esta mensagem