Deitada

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Fotografia de Graça Loureiro retirada daqui

O dia se levanta sobre sua pele como uma cobra que se revira enquanto digere o último alimento. O corpo não responde e o burburinho da manhã lá fora bate na janela como pedras jogadas contra a vidraça. O coração demora a acordar as páginas deletadas do tempo que urge na calçada do ontem. Mas nada disso importa a Miguel que se debruça na varanda para ver o dia acordar.

A palavra, língua solta e úmida, conta dos segredos da noite anterior. O vinho, a meia luz, a gargalhada solta da moça (o cenário perfeito para o encantamento), entoavam o som ambiente para o encontro perfeito. Sem rimas, o verso só quebrava quando a última barreira, onda quebrando na praia, esbarrava no céu daquela boca ainda úmida de tanto repetir o nome dele. Ah, Madalena, Madalena, que delírios esconde essa mulher na qual a ausência de todas as culpas a levam para o sim, sempre que o dia se levanta em seu querer.

Debruçado sobre a varanda a esperar a noite, deixa transparecer outro mundo além do balcão da recepção. Citou-a como namorada e depois ficou pensando realmente o que ela seria naquele momento em que todos os seus ossos, células, medula, fios de cabelo, eram de Madalena e apenas dela. Corpo moreno que compunha a cena daquele quarto, onde, na noite anterior, estreara o seu melhor disfarce sobre ela. Não conseguia ser o seu dono, nem ele mesmo pertencia a si ao lado dela. Madalena era livre. E ao seu lado era apenas a materialização dos desejos dela. Madalena era a senhora de todo aquele momento, ambiente, sonhos dele. Os sonhos de Miguel vestiam uma camisola vermelha curtíssima de renda e uma boca que sorria enquanto dormia.

Voltou para dentro do quarto. Viu-a dormindo mas não como um anjo. Além disso. Madalena era a extensão das suas mãos que tateavam nela a esperança dele mesmo existir. E se ela fosse um holograma, Miguel, o homem da varanda, seria também uma ilusão da palavra marfim?

Sentou-se ao lado da cama. Pegou o violão pois sabia que ela gostava de vê-lo tocar. Viu-a chorar na madrugada e ficou em silêncio para não entrar de sapatos em sua vida. Por muitas horas, evitando magoá-la, ou invadi-la, desejou sua boca em silêncio, desenhou seus lábios com os olhos e não ousou roubar-lhe beijos. Antes assim fosse. Um ladrão. Bandido impiedoso que invade o corpo alheio sem pedir licença e deixa a vítima violada e apaixonada. Mas ele não era assim. E talvez faltasse um pedaço por não ser comum a todas as eras. Miguel era único como Madalena alí, deitada naquela cama, como se a manhã não tivesse poder para acordá-la, nem senha para abrir o que ela tão bem escondia. Quem era essa moça que dormia como uma ninfa naquela cama? >  

Miguel tocou a canção dela. Não seguia nenhum código, nenhum ritual, nenhum manual. Ele seguia a si mesmo e àquele ímpeto de vê-la acordar suavemente sobre a cama macia. Tocava o violão com tanto respeito que as notas musicais eram como um coro de muitas águas. Seu corpo todo era cachoeira descendo despenhadeiro.

Sua namorada. Pensou e rejeitou a possessividade no mesmo tempo. Não. Madalena era dela. E ele nem a si pertencia. Ela era a namorada dos dias dele. Constrangimento na hora em que o recepcionista perguntou quem era a moça que entrava com ele. O rapaz apenas queria saber o seu nome para o registro obrigatório e Miguel entendeu outra coisa. Não sabia responder.  Quando ela entrou no saguão do hotel, todos pararam para vê-la passar. Não era bonita. Ou não tão bonita para isso. Mas Madalena chamava a atenção pela sua sensualidade e meiguice. Era ao mesmo tempo uma mulher e uma menina. As mãos pequeninas, o corpo quase perfeito. Era na sua imperfeição. Miguel se deslocava quilômetros para vê-la, anualmente. Qualquer sacrifício seria pequeno para ouví-la rir, contar o seu dia, dar gargalhadas já "altinha" por três taças de vinho. 

Miguel a queria mas não sabia exatamente como isso seria. Nem poderia, Madalena está acima de todas as leis. Aprendera a vida toda a exercer o poder sobre os outros (e a deixar-se dominar por pessoas, sentimentos e situações) ou sobre tudo o que tinha. Com ela aprendera outros tons, outros verbos e algumas palavras perderam o sentido quando finalmente tocou aqueles lábios arredondados que sempre desejou. O beijo daquela moça o suspendia do chão. O toque da língua, o cheiro, as mãos por dentro do cabelo e a entrega que a tornava promessas e desafios.

Madalena lhe ensinava todos os dias a reverter a ordem das coisas e a fazer poesia concreta quando as suas mãos contornava os sonhos dele acariciando o seu ego e injetando vida em suas veias. Naquele momento, deixava que ela se fizesse cenário para a melodia que sussurrava para despertá-la. Miguel era ridículo apaixonado e nem fazia questão de não demonstrar. O amor daquela moça lhe vestia de sonhos e adornava as manhãs em que fugia do mundo para vê-la naquele quarto de hotel.

De qualquer maneira queria ser ali, aquele momento, ao lado e dentro dela porque era apenas assim que se traduzia.


Para os homens sensíveis que quando amam, se desprendem das dores do mundo. Dentre os que conheço e amo: Miguel, Luis, Nélio, Paulo Sérgio, Zeca, Isaque, Marco, César (aldeias).

Na arena

Imagem: O fantasma da Ópera


Alguns pedaços em Madalena são como gomos de uma laranja, o suco escorre como se o mundo fosse um espremedor agressivo e impiedoso. E é. Ela deixa escorrer o medo e desfaz-se em voltas que as rimas soletram em sua cabeça – há ventos no céu da boca quase insuportáveis de administrar, ela comanda os próprios furacões e nada posso fazer daqui de fora, já que todas as suas falas pronunciam o nome dele. Anda sozinha, sorri sozinha e as vezes até enclausura-se em multidões de si: cada passo é em falso e um abismo completa o outro em prosa. Conta estórias que não quer esquecer. Não pode reativar os laços porque na verdade, tudo nela é o contrário, deslizantes desejos. Inspira-se na falta como se a palavra dele fosse cântaro onde ela bebe, diariamente e em silêncio mortal. Não quer que ele saiba que é sua sombra, gosta do silêncio e do moço quando a saudade é poesia concreta ardendo suavemente na boca.

Madalena cansa das escolhas que faz e mete o verbo no chão com medo do que é possível, como se isso fosse restos de idéias e relatos de suas paixões. Todas as palavras se ressentem da inspiração que só ele lhe sussurra. (E quando voava ao lado dele, nunca a inspiração foi tão farta e a alma tão leve nas promessas dos beijos futuros). E se não fosse aquela música, poderia ser algodão doce na paisagem?

Ela finge que nem lembra, mas cada vez que olha, o atrás é reflexo e pesadelo. A boca dele em concha é o alimento tátil e a sua prestação mais sofrida. Não pode pagar sozinha por todas as culpas. Eu sei. Mas ele não sabe. Quando o amor resseca na boca, é necessário antibióticos miraculosos para sarar ausências. Não sei como sobreviveu sem estrelas até agora. Ela é forte.

Quando caminha, a volta é o frio e todas as portas traduzem gritos. Quem é ela para compor o intervalo e pedir que ele olhe o ontem? O que sente já nem faz eco, e o que soletra já não escreve o nome dele porque esqueceu suas vogais. Uma lacuna e um verso não escrito, milhas e milhas de rimas que tentou compor e era cara aquela falta. Ele é prosa quando se mostra poesia nos olhos que brilham e sorri no momento exato do quando. Mas Madalena não separa a prosa da poesia porque nela, tudo é prazer sem forma.  

Há curvas no tempo e todas as vezes que tenta, o soneto é tempo no verbo passado, que bem podia ser perfeito.

(Uma roda de amigos, conversas ao vento, o pensamento nela, e o moço sentado na frente da televisão compunha uma novela que nunca teria final, muito menos feliz. Esqueceu que não sabia inglês, e o The End ficou sem eco, pixado no muro em frente ao impossível).

Madalena se ressente do que não viveu e a sua alma soletra a poesia rota que o tempo atropelou e marcou a carne viva.

Toda vez que canta pensa no ontem. E cada vez que grita, as paredes de sua pele reeditam o dia em que, o que não volta, fez sombra em uma eternidade. Nunca esquecerá que no abraço descobriu outros mundos e outras paisagens invisíveis. E isso será imputado em sua culpa para o sempre. E o presente dado, não pode ser devolvido, porque já pertence ao cenário de um espetáculo sem estréia. Vive os fantasmas e o personagem principal que não rende bilheteria e nem fama.

Repete as cenas, reescreve diálogos, relê o passado: toda a falha é síntese que não consegue reemprimir daquelas páginas arrancadas bruscamente. O livro é antigo, e a história sempre começa pelo fim sem direito a reprise de inconseqüências. Ainda bem que o beijo quando nunca, repete-se no final. E o dia ditava a hora em que podia dizer eu te amo com a voz entrecortada pela dor do longe.

Madalena tem sonhos em vantagem e toda intenção é o receituário de escolhas. Sabe o que faz todas as vezes que volta. E a essa despedida arranha na pele como viagem sem fim – o bilhete é só de ida e o destino, incerto.

Em todos os dias em que não se desenha na fita, Madalena é angústias de uma alegria passada. Não se pode condenar o tempo por promessas não pagas.

E se ainda tiver fôlego poderá refazer-se palco e brilhar o neon de seu desejo. Haverá sempre outra platéia e um autor em busca de falas. 

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