Intimidade
 
eu passo em riste
o dedo que me aflige
minha melodia é quanto
o meu verbo
é embrulho de um cinema mudo.
 
-  teço intimidades
com a solidão -
 
 
Dira
Olhando para trás

Não localizei o autor dessa foto, quem souber, por favor, preciso dos créditos.

Madalena é resolvida. Na cabeça, atitudes, no que quer da vida. Resolve as situações como quem arruma o leque sobre os ombros e sorri para a câmara. Debulha as palavras com maestria e ri de si mesma quando se imagina uma atriz. A atriz que esconde em si a menina que nunca deixou de ser.

 

E estava ali... Diante dele. Resolvida? Nem tanto. As mãos, suando, o olhar desviando, as imagens de um tempo ontem bailando na sua cabeça. Queria aquela boca... E queria de novo a vida que ele injetava naquele encontro casual. Não programara nada e se tivesse feito, talvez não tivesse sido tão bom. Tantas coisas a contar... Tantas. O pensamento dela criava o palco, mesmo que fosse para um monólogo secular. Estava acostumada a desejos de mão única, mas quem poderia decifrar o poema que se erguia entre as suas lembranças? Madalena deslizava suores frios e tremia com o gelo da sala. Não gelava dentro dela... Sentia sim pontadas na carne de um sentimento que não conseguia decifrar. Seria justo sentir tudo aquilo, tantos anos depois? Não poderia responder e mesmo que tentasse, não aceitava o papel da menina boazinha e compreensiva que lhe nomearam a vida toda. Ali era apenas a Madalena afoita de sentimentos fortes e desejos nada comportados.

 

Uma atriz. Tinha que conter as vontades sufocando a pele e as mãos que desejavam aquele rosto. A imagem era a mesma de tanto tempo... O menino doce de mãos ágeis, e o ventre de Madalena ávida dos filhos que compuseram juntos. Sinfonia tardia. Gozo protelado a um tempo que não foi possível encenar juntos. Parecia um sonho. Teria direito àquela reprise?

 

Se fechasse os olhos, enquanto o moço se movimentava em outros mundos à sua frente, poderia (e tinha o poder de) tocar a alma dele. O moço ainda usava as calças apertadas que mostravam o peso das pernas e um caminhar que traduzia a saudade grande que ela encenava diante dos olhos. Lembrava o jeans surrado de outros tempos e o sonho de vencer o mundo, a partir do nada que tinha nas mãos. Não queria sair dali. Nunca mais. Teria que se acostumar àquele olhar pequeno do homem que subiu às nuvens, mas continuava o megalomaníaco adoravelmente insuportável. Ele podia tudo. E era dor saber que sim. Madalena sabia bem.

 

Inquieta, tentava a melhor posição sobre as nuvens. Não poderia ser diferente. Cada passo que ele dava sua cabeça de menina rodopiava. Não poderia levantar naquele momento com a sensação de que cairia a qualquer momento. Mesmo que tudo aquilo não passasse de uma ilusão da adolescente que acalentou por tantos anos.

 

Quando finalmente levantou para ir embora, todo o seu corpo disse não. Madalena lutava dentro de suas cavernas para continuar fiel a si mesma. Fiel a tudo o que se negara por tanto tempo. Precisava ir. Precisava olhar para frente numa releitura de possibilidades e realidades. Mas como poderia se e ele ainda a olhava com a mesma poesia? 

 

Quando ele sentou no sofá, insinuando mais tempo de conversa, Madalena fingiu pressa para resistir a proximidade e intimidade que se anunciava tardia naquelas mãos tão próximas de si. Capaz de trair-se se sentasse ali, pertinho da boca que lhe dizia saudades e dores. Apertou as mãos, soluçou o tempo gasto e finalmente acordou daquele momento quando a calçada era a fuga perfeita para a realidade. 

 

Corre, Madalena, corre. Faz um verso, pinta um poema, qualquer curva é melhor para todos os segredos. Corre, Madalena, corre e salva a tua própria pele, ao menos uma vez na vida.  

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