Espelho... espelho meu

Imagem: AmandaCom.foto Excelente trabalhos, visite, clique na imagem.

Espelho da sala

Tenho sempre a noção da volta. O corpo quente, as idéias fervendo, ventanias no sol da manhã. Temo sempre a noção do tempo. O dia passado, o beijo não dado e aquela promessa de encantamento fazendo dobra no cair da tarde. Tudo o que eu mais queria era o silêncio do perto e o olhar cansado de outras páginas.

 

Preciso rever a estrada. Desarrumar velhos mitos e entender que a palavra chave é sempre aquela que não posso reproduzir. O vento encalha a folha seca na porta. Não adianta abrir, encostar o timbre no dia e chamar o nome dele. Algumas palavras são indivisíveis em qualquer compasso. As esperas são espinhos escondidos na pele quase imperceptíveis.

 

- o que te falta que te agride a alma? em que parte da arrumação da casa perdeste o novelo da volta?

 

E ainda. Quando todos os contrários repetem a mesma cena. Uma. Duas. Trezentas mil vezes. O mesmo vestido azul, o ano que se repete ano após ano. Todos os fogos que se acedem quando o ano finda, eu acendo uma vela dentro de mim para os mortos que nunca morreram demasiadamente demais para enterrá-los.

 

Pego a palavra e soletro. Foto antiga, beijo colado na tela. Voz do outro lado que treme. O coração pipocando um compasso meio louco e tímido e a vontade de dizer, me chama, que eu vou.

 

O dia não pára e os arremedos histéricos da impaciência querem todas as respostas instantaneamente. O que eu guardo é o presente mais caro. Não há devoluções quando a carne arde e pede. E se tudo fosse apenas o holograma da fala? Decorei a geografia de tua pele para poder falar em francês. Aprendi a geometria do olhar para decifrar os teus nãos.

 

Quando disseres o nada saberei que o rito é o contrário. E quando a pele soltar brilho, saberei de ti quando o dia acabar à minha volta e o final feliz se desenhar no azul que nos guarda nessa fala que me cabe.

 

De tudo o que mais possuo é o não lugar e a casa que compomos juntos: tapetes e sonhos espalhados na sala, uma televisão para entender a rua e passos que reescrevem labirintos azuis.

 

Deixei dormir o filho que não tivemos. E quando ele tiver menino, contarei as suas estórias de Dom Quixote enquanto ele se veste de lilás e quereres. Ensaiarei seus primeiros passos nas marcas dos teus pés no meu próprio corpo e te esperaremos ao anoitecer, o teu amor e tua melodia.

 

Tenho em mim que todos nos silêncios são orquestras de esperas. E que os dias lá foram expõem dos dentes à mostra como leões que matamos todos os dias.

 

A saudade tua é esse bicho feroz que mato todos os dias. Resta a palavra-presente embrulhado sobre a penteadeira com o livro que não te dei. E ainda assim, o meu instante é o azul que espera estorinhas de fadas na hora de dormir.    

Miguel, mandou, eu obedeço

Há uma brincadeira rolando, Miguel mandou, então eu obedeço e respondo também.

 

Descreva-se

 

Sou uma mulher que ainda não cresceu, mesmo que o tempo e a vida tenham se encarregado de marcar o rosto e o corpo. Não tive infância, muito menos adolescência. Mas não me ressinto disso. Tive que ser adulta aos sete anos e quando alcancei a idade adulta, descobri que estava entrando na adolescência. Gosto de estudar, gosto de ensinar, gosto de ser eu mesma, mas isso quase sempre nem é possível por viver em um mundo cheio de regras e de valores que nos encaixam dentro de prateleiras com rótulos que muitas vezes nem cabem na gente. Eu não me adequo a rótulos nenhum, eu não tenho ódio, nem invejas, nem raiva, mesmo que me ire algumas vezes. Creio em Deus. Tenho uma sensibilidade cristã que me faz chorar e pular de alegria na presença de Deus. Eu sou Dele e Ele é meu. É o meu melhor amigo, é o meu marido, é meu irmão: Deus é tudo e todos as minhas perguntas e voltas. Todos os dias reconheço em mim uma outra pessoa e me reconstruo nela e me refaço todos os dias para não ser nunca igual a ontem. 

 

O que as pessoas acham de você?

 

Como vou saber? Pouco sei de mim. Sou metade do que pensam que sou. Mas não me importo muito com isso.

 

Descreva o atual relacionamento

 

Um bonito sonho, a esperança da confiança, da sintonia, da companhia à solidão, ainda que seja apenas um desejo.

 

Descreva a ultima relação

 

21 anos. Dois filhos perfeitos. Um grande aprendizado, afetividade, amizade.  Eu cresci apesar de ainda ser menina. Eu cresci e deixei de brincar de bonecas.

 

Onde queria estar agora?

 

Numa praia. Rede na varanda. Alguém interessante na cozinha preparando o almoço. (ora, quero ser rainha por um dia).

 

O que você pensa sobre o amor?

 

Ainda é o equilíbrio que sustenta o mundo em fios invisíveis. O amor pra mim é Deus.

 

Como é a sua vida?

 

De muita luta e muitos fios invisíveis conduzindo os meus passos. Eu amo. O tempo todo e tudo o que faço.

 

Se tivesse direito a apenas um desejo...

 

Não posso ser Deus. Não pediria o que já está determinado. Não posso acabar com a fome no mundo. Nem posso endireitar os caminhos tortos dos homens. Mas é só um desejo? E quem o me daria? Se fosse concedido por Deus, eu desejaria o fim do tráfico de drogas.

 

Uma frase sábia

 

“Suportai-vos em amor”.  Frase Bíblica.

 

Uma frase para os próximos

 

Conheça Deus além do que se diz por aí.

 

Indicações;

 

Cherry(Cerejinha), Loba (BH), César (Avesso)

Fotoimagem: Antonio Guimarães

Dos mil desejos, apenas um.

 

 

Se chamar o seu nome a minha pele responde entre as marcas das tantas algemas dispostas nas portas das minhas saídas e do tempo que faz questão de anotar dia a dia as dores que nos causa ao longo da vida. Não é possível desvencilhar das margens e eu me disfarço muito bem das minhas faltas. Sou intérprete de minha solidão e nunca desafino quando em frente ao que mais temo. Não abro todas as portas para não me soltar eu pássaros.  Em mim as falas resultam desejos. E os desejos são reservas das invernadas que atravesso sozinha. Desejo da casa, da caça e da pesca. Desejo de gozo e de descanso. Desejo de soltar a língua e o verbo e ser livre colada à boca dele sempre tão convidativa e insegura.

 

(tantos desejos traçam caminhos difícieis de cumprir-se: em mim todos os dias acordam manadas correndo em desespero, fugindo do tempo, pulando as cercas, correndo além de pastos. bichos de todos os tamanhos e cores combinam entre si dilatando minhas ilhas. eu tenho todas as faltas do mundo e todas elas descrevem apenas um nome).

 

Imaginei que recuperaria o fôlego longe do toque, mas as senhas e as palavras que abrem espaços eram todas nativas daquele olhar. Menino safado que me tecia silêncios e taras mas nunca promessas. Dificilmente sobreviveria àquele abraço bom de reencontro. Tantas vezes tentando fugir e milhões de vezes desejando aqueles braços. Eu me reconstruo todos os dias. E todas as noites, desfaço-me retornando sempre ao pó para acordar outras manadas no dia seguinte.

 

Todos os dias reescrevo o meu próprio nome em vários tons para nunca ser a mesma, conservando a essência de fênix. Sou eu mesma e todos. E quase sempre, sou eu mesma de um lado e outro do tabuleiro. Cheque-mate de mim e de meus conflitos.

 

Quando minha pele soletra o nome dele, nem importa se ele responderá ou não. Se me tocar, sou toda braile e se sorri, o óbvio é a minha falha, o ponto em falso. O suficiente é a música que toca meus dentes e mordem a falta. Eis-me farta da imagem dele. Minha pele sabe bem o caminho que trilha quando soletra as ausências e eu sei que antes só, num deleite de lua cheia e desejos, que a presença sempre tão inquieta e ausente dele.

 

Sei da promiscuidade dessas margens e dos atalhos que decifro sem querer. Fazer o que se tudo em mim é trilha em matas fechadas? O meu corpo acostumado à companhia da lua, entende bem que esperas se tecem com fantasias. É preciso tecer o sol todas as manhãs para inaugurar algumas melodias e noites de luas cheias.

 

Sem a minha própria pele, nem o nome dele eu decifraria.

 

O melhor dele é o meu pensamento nele. Mata virgem. Palavras guias. Mentiras que ele não disse e aquela boca sempre tão perto longe de mim. E sei dos atalhos e quase sempre recuso parábolas. Pressinto as claras e prefiro chamar o seu nome, como quem resiste ao encantamento das sereias. Finjo que estou dormindo para que o ontem não me assombre e eu ainda imagine que estou à sua mercê, tapete por onde ele pisa e massageia com botas de cano alto.

 

Quando me toca, ativa as defesas, acende os faróis, põe vigia em minhas torres. Eu sou a menina dele, esperando o colo e os perigos do sim. Nunca mais me dispus a enfrentar o os riscos. Os cabelos em concha me prendem a outros armários e eu o espero, silêncio  (mas nunca cativa), como ladrão no meio da noite a encantar com a palavra mãe que põe panos quentes em minha nuca e me despe de esperas de multidões. Sim, eu tenho todos os desejos repletos e nenhum à mão da sensatez.

 

Fazer o que? Madalena é assim. Não me estranhe. Sinto desejos quase insuportáveis de conter. Resisto à mão dele, apenas quando farta de muitas luas. Mas quando deserto, as suas mãos abrem em mim outros atalhos. Ele conhece todas as chaves e se atrapalha na hora de abrir.

 

(não levanto bandeiras, não grito palavras de ordem. Minha política é desejo e a minha fala, minha questão de pele).

 

Sou sempre porta, deixo ferrolhos invisíveis para casos de guerra, apesar da língua presa e da alma que responde pelo desejo. Apenas um desejo entre tantos mil que responde pelo seu nome.

 

Dira Vieira


P.S. Resultado da primeira aula de Seminários Avançados II (Doutorado em Sociologia - UFPB) do Professor e mágico das palavras: Adriano de Léon e Prof. Artur Perrusi. Impossível sair de uma de suas aulas sem ter a cabeça fervilhando de idéias e questionamentos. Adriano nos dá o roteiro mas sempre torce para que sigamos outros.

 

 

Tempo de frio

 

Fiquei lhe devendo uma carta, um choro, uma despedida, sei lá. Ontem pensei, ao ler um bilhete seu que não nos despedimos. A rota de sua boca quase encostou na minha e eu bem que silenciei o mundo ao redor para receber os seus lábios. Não houve volta e nem ida. O silêncio foi mais duro que cortar os pulsos ou jogar-se de uma ponte. Eu bem que me avisei, não entra nessa Madalena, não entra. Mas como sou teimosa, traço os meus motivos, especulo minhas trilhas como quem caminha lentamente e com muita fome para o matadouro. Eu bem que adoro arriscar a pele, quem sabe eu não me dou bem e acho o pote de ouro no fim do arco-íris?

 

Dizem que a poesia existe. Eu até tentei acreditar nisso naqueles dias. O homem me esperava aflito; a minha pele pedia a sua, o corpo, a alma, as palavras se demoravam no camarim preparando a melhor fala para dizer o que sabes decorado. Tinha o vocabulário da paixão como um rosário meticulosamente guardado dentro de mim. E eu beata de suas horas marcadas e aparições no meio do dia corrido. 

 

Quando o dia amanhecia eu já me imaginava sua, poema partido, trabalhado em uma página colorida por onde me tocavas. E como me tocava bem ... Sua língua tinha uma sinfonia especial, eu esperava acordá-lo em mim para que me tecesses o dia e o quanto me esperou a vida inteira.

 

Não tivemos tempo de tecer angústias. Ao seu lado, em distância segura, eu tecia outras paisagens rupestres, desenhos que fazíamos na voz e nas promessas de acasalamento. Eu fui sua, mesmo quando não era presente naquela folha de papel desenhada no meu corpo. Todos os dias me recompunha as folhas e me fazia florescer em seus dedos. Cada frase, cada promessa, cada verso era balada de mascar mentiras.

 

Eu sempre fui nossa. Mesmo quando nem nos despedimos e eu sabia que nunca mais ouviria a sua voz me chamar pelo nome. Decorei suas falas, suas rimas e o seu cheiro e nunca mais viram Madalena bailar a meia noite. Decorei seus pedidos de socorro, suas angústias, sua solidão sempre tão impossível de compor. Decorei o seu sorriso e seus pêlos. Desconstruo em mim, dia após dia, o desejo e a vontade do dia findo a repousar no seu colo o meu cansaço.

 

Sou sempre idas, peito aberto a outras quedas mas nunca me desfaço do mote de esperá-lo na rua. Novas cenas abrem outros abismos e ainda assim, ofereço os pulsos à palmatória, ainda que o nada aconteça e os espasmos seja mesmo da minguante fala que nunca quis mais que as margens aos sacrifícios de coragem.

 

Se é que me sabes, hoje é um tempo de frio, de recolher-se às cavernas e de curva-se longe das tempestades. Um tempo hábil de dar adeus e querer. Um tempo de pensar em você e ensaiar desculpas para essa despedida. Quem sabe assim arrisco outras curvas?

 

Madalena

Solidão de esfinge

 

tenho a sensação de um silêncio em preto e branco que sensibiliza os meus dedos. doi tudo em mim como se a falta dele de repente viesse à tona em alguns poucos minutos em que vi a sua silhueta passar por mim. era ele mesmo ou o meu desejo tomando contornos de alma e vindo assombrar quando a noite entra na segunda parte da madrugada? nem me dei conta que alguns anos passaram rápido demais. dos filhos que não tivemos um se chama azul e a outra, pequenina e com a cara dele, tem a poesia e a fala mansa dos vermelhos que acendemos. temos dois filhos que nunca existirão e ainda assim me sinto órfã da falta de esperança de sobreviver à solidão. faz frio nesse corredor de ônibus no meio dessa noite e campina grande abre as portas para o inverno de palavras.

era azul celeste mesmo aquele vestido que ele me deu?

sinto que perdi algumas cenas desse velório. não chorei todas as lágrimas, não enterrei todos os mortos, nem ousei missas de sétimos ou outros dias. eis-me ainda aqui, na rua, cabelos em lilás e a frase solta que nunca mais conseguiu outras rimas. o rosto dele e a barba por fazer fazem cosquinhas em minha memória e lá vamos nós sozinhos novamente para o século passado em eras medievais... sinto-me só como a esfinge plantada na sala de minhas angústias.

Madalena

Banho
(Rural)

Zila Mamede


 De cabaça na mão, céu nos cabelos
 à tarde era que a moça desertava
 dos arenzés de alcova. Caminhando
 um passo brando pelas roças ia
 nas vingas nem tocando; reesmagava
 na areia os próprios passos, tinha o rio

 com margens engolidas por tabocas,
 feito mais de abandono que de estrada
 e muito mais de estrada que de rio

 onde em cacimba e lodo se assentava
 água salobre rasa. Salitroso
 era o também caminho da cacimba

 e mais: o salitroso era deserto.
 A moça ali perdia-se, afundava-se
 enchendo o vasilhame, aventurava

 por longo capinzal, cantarolando;
 desfibrava os cabelos, a rodilha
 e seus vestidos, presos nos tapumes

 velando vales, curvas e ravinas
 (a rosa de seu ventre, sóis no busto)
 libertas nesse banho vesperal.

 Moldava-se em sabão, estremecida,
 cada vez que dos ombros escorrendo
 o frio d'água era carícia antiga.

 Secava-se no vento, recolhia
 só noite e essências, mansa carregando-as
 na morna geografia de seu corpo.

 Depois, voltava lentamente os rastos
 em deriva à cacimba, se encontrava
 nas águas: infinita, liqüefeita.

 Então era a moça regressava
 tendo nos olhos cânticos e aromas
 apreendidos no entardecer rural.

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