Da série: cartas que nunca mandamos

Tenho medo quando o meu pensamento tem a voz rouca e fala alto, provocando escândalos. Algumas palavras e pensamentos nunca deveriam materializar-se em ações ou desejos. Eu tenho medo do desejo de tua boca na minha. E ainda, quando nada mais preenche os meus contornos.  

 

O mundo se revira no meu estômago e eu embrulho mal estar sem a tua voz trêmula ao telefone. Conto nos dedos se houve amor maior que o que sentimos. Se é que isso mesmo existiu ou foi um romance que começamos juntos a escrever e desistimos nos últimos capítulos.

 

Se eu dissesse que te amo, estaria mentindo. Nem é mais amor o que eu sinto. É prisão. Um enclausuramento de freira que desiste de viver e isola-se em uma torre com a certeza absoluta que nenhum cavaleiro em um cavalo branco ousará aproximar-se da torre. Não tenho tranças e nem me chamo Rapunzel. Madalena é a minha sina e sinal de entorpecimento.

 

Tenho medo do dia que olharei tua imagem e perguntarei se já o amei um dia. Conto os teus passos e morro de medo de esbarrar em tua sombra por ruas dessa cidade hostil e vazia.

 

Na tua boca escrevi meus desejos e em teu corpo desenvolvi várias teses de encantamento. A televisão nova desligada na sala, as almofadas desarrumadas de nossas brincadeiras e a pia da cozinha com as marcas de nossa fome. Aquele copo em que não bebestes a minha lágrima ainda repousa sobre o medo de tua existência. Eu não me canso de pertencer a ti e às tuas lembranças.

 

O quarto, ainda por decorar com os teus gemidos, possui uma cor esquisita, nem de longe revela o azul de tua voz e o lilás que te vestia. Guardei as cores para levar comigo até o dia de nossa morte. Morte de esquecimento e platéia vazia. As cenas finais deixaram os personagens aturdidos e todas as falas repousam agora sobre o meu ventre querendo o sopro de vida de tuas páginas.

 

O meu corpo não conhece outro autor e as minhas linhas permanecem tortas sem a tua poesia.

 

Ouvi-te calada quando desfizestes as promessas. E a palavra cantada virou aboio entre as minhas pernas. O rio que tecemos juntos ainda permanece abismo e todas as noites jogo garrafas cheias de recados para os teus olhos de sereia.

 

Ontem, quando arrumava a cama para deitar, deixei sobrando o lado que ainda não escolhestes e deitei sobre ele o corpo que ainda te abriga entre os dentes. Eu não espero a tua volta, tatuei outros caminhos no meu corpo pergaminho e enterrei abusos em terrenos baldios. Há muito tempo desisti de acreditar em potes de ouro no fim de arco-íris.    

 

 

EXPIAÇÃO

 

Descobri que tenho vácuos. Eu, a Madalena de todas as faces, possuo vácuos intermináveis. Percebi isso ontem à noite quando ele me deixou na porta de casa. Foi só atravessar o portão e lá estava eu mergulhada no vácuo até o pescoço. Da janela, olhando para a rua através do portão de madeira, tentei alcançar as margens e contornar espaços.. Não existia lados e nem começo onde o fim se fazia uma enorme parede de vento. Um vento frio. Mordaz. O nada dividindo o espaço com as minhas dúvidas.

 

Nesses vácuos, tenho o costume de tecer fios invisíveis de solidão. Fios coloridos que apenas eu posso ver. Das cores, costumo tirar lãs e cobrir minhas vestes de forma que eu possa me sentir azul para mim e para ele. O amor é o adorno do vestido longo que teci para ele, de presente. Vestido fruto dos vácuos. Eu prometi vestir na lua cheia. E o farei , um dia. Por hora, espero os vácuos encherem os cântaros para banhar-me à noitinha, quando estiver bem pertinho de vê-lo. Banhos de azul bem piscina. Daqueles azuis que quando batem os raios do sol a água vira espelho. Eu sou no espelho entre o meio e contentamento. Vou tecer fios de azuis em todos os vácuos para compor outras histórias ao entardecer. Ando cansada do silêncio de mãos pelo meu corpo.

 

Tive que tecer memórias e descarregar de mim o que me pesava e nada dava conta de tantos espaços vazados e lembranças de margens e abismos. Quando me olho do meu próprio alto, sou o que não entendo e ainda assim, me permito.  

 

Hoje descobri-me metades. Uma metade vazada e incompleta cheia de plenitudes e desejos. Os cabelos, ah, sempre os cabelos fazendo volume onde o nada é apenas presença inócua nessa paisagem. De onde venho, nem sempre me acho e quando estou farta, sou como porta que bate no silêncio da noite. Já disse tantas vezes que estou pela fresta da porta...

 

Em mim, vários fantasmas passeiam dentro de casa, insones. Eu, janelas e pastos de vácuos à espera de sonhos, disputo com eles, a tapas, o meu direito de defesa. Eu teço noites a fio e nunca preencho outros pedaços. O que escrevo, descreve os meus pêlos e o que escondo lateja entre os ombros como uma frase incompleta e impossível. Eu tenho esperas silenciosas que se prostram na minha janela. Abro os olhos, arregalo as vontades e quase sempre, vou dormir com a minha solidão com a pele lacrimejando em dores por tantas ausências.  

 

Ontem não quis decifrar espaços. O vazio instalado no peito tomou conta de toda a casa, instalou-se paisagem e abriu outras fendas em meu peito. Eu tive que tomar um banho, abrir outras comportas e pensar nele para dissipar outros tumultos de ausências.

 

Nem sempre é assim tão fácil, mas quando sou forte, minha memória me traça de pecados e culpas. Hoje tem uma lua no céu e eu nem aí para conquistá-la.

Diários de Pele

O Diário de Su

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O meu corpo conhece a tua falta e pressente da ausência da forma mais cruel: me sinto rabiscos de uma história incompleta. Quando as horas tocam o alvo e o dia se espalha no céu da boca, sou toda cabelos ao vento e marcas de pele. Uma ansiedade me corta ao meio e me diz de rimas que tu me fizestes.

 

-         nos dedos que trazes, o caminho que traçou em minha pele. rituais de outros sons que ensaiamos juntos.

 

Nem era tão tarde assim, ouvi-te chamar ao telefone em uma mensagem: Madalena, minha Madalena, acorde. E a noite, era a madrugada dos meus dias. Uma penumbra de hábitos e a vontade de chover em tua boca, como me ensinastes. Todos os rios correm para as suas mãos e quando me tocas, sou mar de todas as vontades. Quando penso saudade minha pele se descreve com o teu nome.

 

Sei de todas as culpas e o silêncio subscreve capítulos nocivos a todas as faltas. A paixão me tomou pela mão e nunca mais largou, mesmo quando caminhava sem o oleiro e o meu corpo relata o barro ainda intacto e imperfeito. Eras meu dono e ao mesmo tempo, metade do barro que me esvazia.

 

Não há esperas quando os pés beiram o novo. Quando nem querias brisa, tomei-te tempestades em minhas mãos. Tomo do teu cálice e de tua boca e mergulho no encantamento, fechando os olhos para te ensinar todas as portas e as brechas entre as idas e voltas. Espio entre as palavras e te traduzo para nunca mais sair de perto de ti.

 

Dei-te os melhores desejos e colhi de tua boca as mais perfeitas foices. Quando tua voz era surdina, o meu corpo era dor e cortes profundos. E quando a tua espera era o beijo eu disse sim na tarde que nunca volta. Nossas bocas provaram de todos os azuis.

 

Eu te beijei quando já nem eras e o dia que fomos ficou emoldurado dentro de mim: diplomas de incapacidades latentes.  

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