Ritual

 

 

Meu corpo é feito de caixas, várias e pequeninas caixas de todas as cores. Mas não possuo armários, nem prateleiras, nem rótulos que possam dar nomes aos meus sentimentos. Tudo o que sinto e às vezes vêm de momento, existiu em algum outro lugar... E se eu acreditasse em vidas passadas, diria que as outras Madalenas, Clarices, Suzanas, Berenices, certamente teriam vivido esse coração que agora habita em mim. Mulheres são todas assim. Repletas de cores de todos os sons. E nunca executamos o amor não correspondido.

 

Minha cama é o último lugar onde o meu corpo se encontra. Não tenho endereço certo. O meu cansaço é o meu tempo quando. Perdi as contas de quantos rosários desfiei em memória. Sou meu próprio cárcere e o meu alvo de todas as guerras. Mas não me importo muito com isso. 

 

Meu nome é Madalena e às vezes me inquieto com essa fala que nem sei mesmo se reflete em mim. Todo o dia, como quem escolhe uma roupa para sair, procuro nessas caixas, detalhes que adornem o meu dia. Pequenos e invisíveis detalhes. Pequenos e imperceptíveis desejos. Eu não consigo definir os sentimentos e nem ao menos entender os alheios. Tenho as tintas e outras estimas, mais o desejo de pintar, mesmo em dias de um cinza quase preto ainda me salta o peito e geme. Inútil, ainda não ousei descolorir os meus risos mornos nem minhas utopias. Ainda não perdi a cor lilás que me escrevia nem o resumo dos vôos que me partia em mil partes e cores.  

 

Choro as meninas e as mulheres que matamos todos os dias. Choro as manhãs que não retocarão o batom de suas meninices. Choro as meninas clicadas nas digitais dos sonhos que serão apenas adornos de lápides abandonadas e empoeiradas.

 

Quando o dia é estrada eu aproveito para organizar as listas de todas as coisas dentro de minhas caixas. Não há roteiros, nem um manual de boas vindas. E tudo em mim se mistura e desencaixa. E quando a luz do ônibus apaga, a Madalena sorri para a paisagem escura lá de fora e finge dormir para a multidão. Nem olho para os lados, nem contemplo os vultos que ressonam ao largo, o que me interessa é que não refiro e o que me acorda é o que menos conta. Aproveito a estrada para as faxinas da alma e retiro o pó das minhas intensidades. 

 

Desconstruo a imagem do espelho, recomponho outros detalhes e registro o invisível. Na verdade, eu não sou. Soletro apenas o impossível. O ontem, estampado na imagem reluz a sutileza do que não sei. Sou outras imagens e o que se move ao longe não se escreve em linhas tortas. Não se pode querer saber o que o outro pensa. É megalomania se achar sabedor de todos os mundos. O que é verdade tem outras versões. E a que menos importa é o que está exposto no outdoor. Sou outras falhas e ritos. 

 

-    o amor não se faz fatura vencida e nem se submete a bancos em greves. tudo é delírio e coma.

 

Eu tenho detalhes que ninguém lê e todas as vezes que pinto em face, no batom vermelho incandescente e na máscara do dia, revelo a nudez que desconcerta e cria. Minha memória é falha na ordem do dia. E a minha falta nunca foi tão ausente.

O Dia das Crianças

 

Imagem: Crianças cubanas,  clique na foto para ir ao site que armazena essa imagem

 

Primeiro ato: Algumas coisas me incomodam nesse dia. E eu não consigo ficar sem dizer uma palavra. O dia das crianças, o dia dos professores, o dia disso, o dia daquilo. Compreendo todo o processo capitalista de instituir dias para esses lucros. Não me reporto a isso porque também não posso conter o capitalismo. Nem eu mesma consigo fugir dele, já que vivo quebrando cartões para não trocar a alegria de não dever pelo consumo enlouquecido.

 

Ainda estou ressacada pelas últimas eleições. Não me conformo do meu canditato não ter vencido. Mas sou movida 80% pela emoção e apenas 20% pela razão. E isso me entristece ver pessoas novas na política e já comprando votos. Isso me deixa estarrecida. O fenômeno da caradepau não só aconteceu na capital. O estado todo viu a campanha da compra do voto, com excessão de Pombal, onde a justiça realmente foi feita com a candidata e agora prefeita, Pollyana (que eu nem vou contar aqui porque é loooonga).

 

Segundo ato: Quando os meus filhos eram menores eu não podia comprar presentes no Natal, nem no dia das crianças. Hoje que eles não são mais crianças, eu compro para os afilhados, os vizinhos, e alguns parentes. Vejo a alegria dos olhos deles, mesmo quando o presente é singelo. Isso me deixa imensamente feliz.

 

Terceiro ato: Hoje ao deixar uns presentes na casa de uma amiga, não esperava que lá estivessem outras crianças. E nem podia levar para todas, mas me chamou a atenção a reação de uma menininha quando eu chegava com uma boneca para a outra, a dona da casa. Ela não entendeu nada. E caiu em um desespero que me cortou o coração. Criança não perdoa. E nem vai entender o que houve ali. Eu sei bem o que é trauma de infância por não ganhar presentes em datas assim.

 

Ao lado, uma mocinha, com um problema sério de pele e na face, explicava a sua peregrinação pelos postos de saúde e hospitais da cidade em busca de ajuda médica. Sem sucesso (Socorro, alguem arruma um Dermatologista por aí?) E ela tem apenas 15 anos, nenhum documento e órfã de mãe. Com ela, a tia, minha amiga, com três dias de resguardo do quarto filho. Depois de peregrinar por uma laqueadura, a bebê não aguentou e nasceu normal. Ruim para ela que penou nas mãos do médico que a atendeu em um hospital da capital e ainda obrigada a ter cesareana, quando foi proibida por outro médico a ter normal, desde o primeiro filho. E esse era o quarto, sem que ninguém aceite a realizar a laqueadura. Olhamos a criatura e vemos uma mulher humilde, magérrima, andando devagar com o semblante de preocupação e dor.

 

Quarto ato: Na cama, a menininha que eu queria que fosse minha, dormindo como um anjinho... sem saber da podridão que é o mundo ao redor.

 

Quinto ato: Em outro lado da cidade, uma outra menininha, com sérios problemas psicológicos agravados pelo abandono e a negligência de pais até certo ponto, "esclarecidos".  É triste demais. É absurdo demais. É desumano demais.

 

Sexto e último ato: E eu ainda vejo canditatos campeões em compra de voto na capital, agradecendo em cartazes a Deus a votação estrondosa na cidade. Deus tenha misericórdia dessas almas sebosas.

 

E amanhã é dia das crianças.

 

De que mesmo?


O doutorado vai de vento em polpa, quanto mais leio, mas me apaixono pela palavras e pelas coisas.

 

Escritura E A Diferenca, A
  Filosofia 
Derrida, Jacques

Quer questionem a escritura literária ou o motivo estruturalista, no campo da crítica, das ciências do homem ou da filosofia, quer apelem por uma leitura configurante a Nietzsche ou a Freud, a Husserl ou a Heidegger, a Artaud, Bataille, Foucault, Jabès ou a, Levinas, os ensaios aqui reunidos têm todos um só centro de insistência: o ponto de articulação

Lendo, lendo, lendo.

Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses

O não-corpo

 

Tenho códigos por todo o corpo. O mapa que me esconde possui territórios não cobertos. Não traço todos os caminhos para não me perder de todas as idas. Traços voltas e me perco delas. Algumas me partem em duas, outras são como mapas de tesouros. Uma espera e outra desenha pesadelos noturnos. Mas nem sou. Nem me traduzo.  Penso no corpo de mar e de brilhos não ditos, é essa linguagem que pinta em mim fios que nunca direi. Na mão uma aquarela que ainda moldarei em sua boca.  

 

(o que o moço levou de mim não me deixa em falta, antes alimenta meus rios sempre tão aflitos por sua fala).

 

Sou outros planos e uma câmera sempre atenta a olhares silenciosos e cinematográficos. O plano B me alimenta e sara.

 

Ontem, quando me dei conta, a voz do moço era som em alto relevo na paisagem da estrada. Um sonho em carne e osso e bilheteria. Voltei-me para decifrar e vi-o em holograma, exatamente como me desenhava azul. Barba beirando a boca que eu sonhei, cor de menino-homem ainda guri e uma garota em sacola nos seus braços. Observei a moça, branca, vestido amarelo estampado, sorriso largo, brincadeiras com outra amiga ao seu lado. O que ela preenchia me faltava ao lado dele e ainda assim, cometi o pecado de desejá-lo, como a mais ninguém. O olhar dele era paisagem e o que eu mais desejo não possuía fala e nem inscrições em braile. Ele olhava o nada e eu do nada traçava desejos e vontades. Eu queria imolar aquele momento e emoldurar o seu pensamento no meu corpo como sinais de trânsito. Sinal fechado para essa paixão.  

 

Voltei a dormir as linhas cansadas e percebi que a sua falta é o meu pesadelo de cores e dias. Vivo e morro no pensamento nele. Não era o inconsciente e nem o que não disse que desenhava corpo sem órgãos. Era o amor do moço que me despertava sonhos no meu cansaço diário de outras guerras. Não sou o que digo e nem o que penso, sou o que nego e que me escondo. Há em mim ruas perdidas e guetos malditos. E ainda assim, a imagem dele é campo minado das Bermudas.

 

Eu tenho rios que transbordam vazios e as linhas imaginárias não ditas serão a herança de gozos e saudades. Naquele moço teci outras marcas de angústias e de prazer. Outros mapas revelam minhas esquinas e em todas sou calçada deserta onde o azul espera a não-promessa. Eu não me escrevo e em todas as cartas sou todas as dúvidas. 

 

 

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