Quando o azul é abismo

 

Enquanto me movo na frente do espelho à procura de sons que possam traduzir o meu desejo por ele, alguns pedaços de mim saem fora do quebra-cabeça e se confundem na imagem que me molda no espelho.

O corpo avolumado dos dias e dos desencontros emerge de uma depressão que se arrastou por meses e meses. Eu era sempre o desejo por ele... e fazia-me falta ser a Madalena dos próprios azuis, ondas e um mar em fúria. Ele me desenhava azul quando queria mergulhar e ao pensar que me usava para aplacar seus desgostos, era eu que me aproveitava de seus tons para ser mais feliz.

Íamos ao cinema sempre. Mãos que não se desgrudavam nem para pegar os bombons de doce de leite que ficavam na sacolinha presa à cadeira. Quem olhasse de longe ou no perto-quase-cheiro não poderia supor que dois abismos tão juntos beiravam o paraíso. O abismo dele era a minha identidade secreta. E o que me mostrava fundo o adornava em dias de chuva. Desse jeito a gente se completava e nem entendia direito o porquê já que o encontro era quase de uma impossibilidade crônica.

O meu coração que adornava os cachos nos cabelos era de uma bola azul reluzente... quase beijávamos, quase tocávamos o nosso dentro e quase sonhávamos o mesmo sonho. Éramos o retrato falado do que escrevemos na lousa branca da sala de aula. Opostos como sombra e paisagem.

Não me arrumava para sair com ele. Gostava de senti-lo soltar os cachos nos meus cabelos com os dedos... desembaraçando qualquer dúvida entre nós. Sentia a pulsação dele pertinho de mim e me sentia fora e longe de casa. Quando me contava de uma música nova, de suas saídas com os amigos, sem mim, ou do quanto que pensara em mim, sem ele, era como se assistisse a um filme de encantamentos. O doce lar era a angústia de tantas distâncias. Ele era o longe e eu o pé na estrada. O encontro era na quebra da onda e no beijo do mar.

Se chegasse ao encontro com os cabelos presos ele marcava a testa com sulcos de desaprovação, imediatamente. Em minha cabeça, tinha todos os poemas e as palavras de uma Madalena louca de amor. Eu usava a sua presença para as inspirações que me cabiam daqueles encontros e marcava a própria pele de suores e vinhos.

Eu lhe daria um nome para compor as faltas. E do quanto que a sua ausência denominava vácuos em mim, mas não era necessário. O homem que me cobria de cores tinha as mãos de profeta e batizara-me de vida quando a substância líquida e quase invisível se desenhava boca e batom em mim. Essa era a senha para a presença dele e a escada para sair dos mergulhos quando o azul se tornava dia a dia comigo.

Os sons que busco ao espelho surgem como sinfonias de enclausuramento. Não vou arrumar os cabelos para esperá-lo. Que venham as horas e as marcas na pele. Sou o que me resta do lirismo dos versos moldados no seu corpo. Eu desenho as curvas e me afogo em seus rios, quando as margens de uma estrada nua enlaça-me para outros atalhos. Eu me olho e não me vejo e ainda assim me espero.  

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