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Gesticulando sombras
Há um gosto estranho em minha boca quando ele chama o meu nome mesmo que sem querer no meio dos tumultos. Os rios secos, tento proteger as nascentes para que possam ressuscitar de vez em quando.
Quantos mares me faço enchente em suas cordilheiras se nem ao menos sei das florestas que cresceram onde você fazia morada em mim. O templo é tempo ocioso e já não tenho medo de nada.
Como ilha, segredo-me do mundo, separo-me das multidões porque me falta a gota d´água, e os fios invisíveis. Retrato os desertos de como eu me acho esfingindo-me a cada ilusão ou martírio. Tenho os riscos de viver sobre a pele e não me queixo de quase nada.
Quando fecho as portas abro em mim as outras mulheres que só eu domo, recrio e me visto de nus para outros descobrimentos. Nunca acreditei no reencantamento até pousar a minha boca sobre a tua, como se despertasse de um longo e dolorido inverno. É um sonho e a Madalena que adormecia em mim se agarrava àquela boca com a fome que não mais sufocaria crias e necessidades íntimas.
Eu me neguei tantas vezes que nem Pedro conseguiria contar nos dedos todos os nãos. Disse não quando a boca pronunciava culpas e salivava esperas. Negava-me a contar estrelas, negava-me a chorar as ruas passadas, mas todas as vezes que ele me tocava, nem que fora de longe, passava a revisar minhas páginas viradas e aqueles sinais do diário conjunto exalava todos os desejos por ele. Amava acima de outras lutas e mesmo assim não conseguia escrever outras histórias, deixava sempre um final aberto, um sinal que não avermelhava nunca. Chorava o sim quando nos despedíamos na esquina de casa e Pedro voltava sozinho acompanhando outros abismos.
Eu sempre desejo assim, quando a música canta, o silêncio grita e o carro em disparada lambe uma estrada que provoca desertos e medo. Não conheço seus dedos, nem a velocidade do seu pensamento e ainda assim me pressinto tentativas de ser feliz além do que é possível desenhar na minha face apaixonada. Ele sabe e eu desconfio que me engano e todas as tentativas são inúteis para acender castelos na areia. Ele ama a si mesmo no espelho e competir com isso eu não posso. Esqueci de tecer sacrifícios de tolos.
Aquele olhar nem sempre me vê e quando se esconde, pisa outras areias, calça outros ritmos, sufoca dores e explode quase sempre onde o meu olhar não o alcançará. O tempo é de choro e de ressentir-se do vazio que me supera, mas o amanhã me traz sorriso e noites insones de puro amor e contentamento. Madalena nunca desiste, reage às tempestades como quem as aproveita para mergulhos mais profundos.
Não tenho respostas, nem formularia perguntas impossíveis com suas dúvidas óbvias. Resta esperar que esse dia chuvoso carregado de mistérios traga algum alívio. Enquanto isso, acato silêncios e soletro desejos.
Madalena em mim descansa de mais uma batalha e quanto mais o campo machuca os meus pés, mas me desejo ali, amando-o e desejando-o como se mais nada me completasse quanto aquela imagem do menino que acredita que é alguma espécie de deus.
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Dira
as
5:00 PM
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