Caixinha de música

 

Desconheço o auto dessa imagem. Capturei no Google.

 

Eu construo vontades onde a fome é ventania. Basta abrir a porta da frente e perceber que ainda estou na mesma caixinha em que ele me colocou, ainda com invólucro de “cuidado, este lado para cima”. Construo então pequenas saídas, passagens secretas, pergaminhos densos por onde os meus pés vão traçando caminhos para longe dele. Longe, bem longe dele e do que essa falta simboliza nessa tempestade. Tentativas inúteis. Ele sempre me encontra quando de propósito cria esquinas em minhas fugas. O secreto é hábil em desvendar os meus tesouros.

 

Eu-digo-e-ela-não-acredita-ela-é-bonita-demais.

 

E o verbo se volta para o infinitivo. Omeleteria que descompassa as idéias e absorve pequenas passagens secretas.

 

- eu disse para ele que meu mapa continha pequenos vácuos e ilusões de ótica e ainda assim ele acreditou que o toque era a promessa mais ousada daquele domingo de agosto.

 

Às favas com a pronúncia sempre tão correta e justinha nos lábios do nome dele. Não me mereço. Nem os favores, nem o cumprimento, nem a saudação de bons ventos. Quero as tempestades no meu vestido e o roncar de um vento impetuoso a trazer-me boas notícias empacotadas com um laço lilás indescritível.

 

Tive-o em minhas mãos, no limite do meu nariz, onde todos os seus odores eram escapes para uma dor insuportável que eu mapeava de saudade. Essa saudade era nominal ao invisível, comparsa de todas as fugas. Eu o neguei tantas vezes em meus delírios febris. Por tantas vezes, antes que o galo anunciasse o dia, eu o neguei, cuspi sobre a face do tempo e disse, basta de lamúrias, o ontem é um copo sujo sobre a pia da cozinha em um dia de falta d´água e vontades.

 

Assim mesmo no desenho que me marco Madalena, imprimo guerras e desbravo conflitos, e ainda assim, o meu discurso é de mais quimeras. Onde me culpo se enfrento os moinhos e desbravo fantasmas? Dos abismos, aprendi a pentear cabelos e em redemoinhos faço franjas no que ele não diz. Estou eterna e limpa onde o que me finjo é a cor escarlate do meu batom e o rebu das unhas tecendo mistérios e entrelinhas.

 

Os cabelos (sempre eles) possuem uma tonalidade que ele desconfia, sempre tive. E quando  mudo o tom, ele me chama a atenção e remete-me ao um passado torto, aquele da caixinha de música e põe-me bailarina a rodopiar sozinha em uma música que ele sussurra para eu ouvir. Ele lembra a música e não lembra as dores que me causa quando me põe a roupa de época e me deixa sozinha a rodopiar na caixinha em sua mesa. A mesa é fria e o som que canto na caixinha é um aboio regado a uma saudade imensa dos dias não vividos.

 

Reclamo dele. Reviro a cara, finjo engano quando o telefone toca. Eu queria mesmo era o hálito quente em minhas veias e o brilho do verbo como verniz das minhas vontades. E nada disso me escolhe pois o que é beco não tem saída e nem tem parte com a essa história.

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