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                                                                                                      Autor da foto: Tiago Martins

 

 

 

Quando ele me dobrou, tinha em mim que as palavras eram as linhas tortas em que ele me gravara. Amanhecer em lírios e uma pitada do ontem ainda sobre nossas peles era brincadeira de boneca. Uma, duas, outras tantas marcas no meu ouvido e o desejo ficava removendo a poeira e sacudindo as estrelas todas as vezes que ele se ausentava de mim. Sempre dizia voltas, mas nunca acreditei dia amanhecendo depois das tempestades.

 

Nem contei quantos calendários eram folhinhas amassadas sobre a penteadeira. Roberto sabia que toda vez me encontraria ali, no exato marco histórico que nos encontramos pela enésima vez. E o mesmo batom, eu sempre cuidava de ser a mesma marca, ele me reconheceria de olhos fechados.

 

- Minha letra em contraste, meu desarranjo poético. Ele sussurrava quando nos víamos na boquinha da noite cheia de vontades.

 

Ontem eu contei quantas vezes me disse que me amava. Quer saber? Tudo mentira. O moço que contava linhas tinha outras estradas e pés descalços para as armadilhas. E num minuto em que me apercebi era tarde em suas mãos. Os dedos, que antes descobriam minha ilhas, tateava o braile da despedida e me despia de todos os planos.  

 

Quando ele me amassou e embaralhou minha páginas eu vi que era um verso quebrado e uma imagem sobre saudades. Nunca mais me vi poesia em outras linhas.

 

Ninguém saberia compor tantas tardes assim. E outros outonos seriam de páginas em branco, mulheres esperando na rodoviária, fim de tarde escurecendo as idéias e uma mulher sozinha a caminhar sobre os ombros nus numa serenata sem som. Nenhuma boca diria mais eu te amo naquele tom. E nem mais o meu batom brilharia naquela camisa branca de cores quando a vontade fosse um verso lírico de raiva e dor.

 

Roberto escreveu outros ritmos e Madalena sou eu, medida rota de saudades e uma página sem sinais de trânsito. Ele desenha mulheres de latas na cabeça e vestidos que disfarçam ausências. E eu, renovo suas palavras e repito suas vontades até que me faça livro e autor novo em outras edições.

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