Memórias do esquecimento

 (Imagem: Achei-a na net, quem souber o autor, por favor, ajude-me a dar os créditos)

 

Sim, pensei nele nessa manhã de uma forma que talvez nem devesse, mas quem vai dizer que posso controlar o pensamento quando as rédeas me faltam nas mãos? Soltei os remos, essa é a verdade. Estive cansada por esses dias para imaginar o que pensar justamente em uma manhã de sol quente e uma promessa no ar. Então, deixei que ele me aparecesse por alguns minutos em minha cabeça.

 

Não deveria, bem sei. Mas foi aquela cena na teve de um comercial que me fez chorar (quando estou incolor, os comerciais me fazem desbotar).

 

Desbotei por todos os lados em uma euforia que já não me conhecia. De onde saltaram aqueles repentes e repentinas extravagâncias? Eu saberia dispor de todas as saídas se naquele momento, exatamente naquele momento alguma luz (quem sabe uma voz superior no meu ouvido) tivesse fechado o sinal para que não pensasse nele. Eu sempre me queixo de lembrar dos meus esquecimentos.

 

Mas pensei, é verdade. De uma forma bem protegida. Não ia me expor a um pensamento que talvez me doesse a espinha dorsal (entre outros prejuízos irreparáveis). Respirei fundo, bem fundo, para dar tempo até de pensar em outra coisa, uma outra imagem, uma poesia, quem sabe. Mas ali estava ele. Bem na frente das minhas idéias... sua boca (sempre essa boca e de ninguém mais) acenava para a minha fragilidade que só eu mesma pensava em esconder. Desligava a teve e corria para fazer alguma coisa mais útil?

 

É. Pensei sim. E agora, nem vou me arrepender. Ele nunca saberá. Nem valeria a pena. O tempo perdido foi apenas meu. E é claro que me protegi para nem sofrer. Minutos depois tinha outra cor e nada de dores. Nem quero voltar ou olhar para trás. Algumas promessas me transformaria em estátua de sal. Sal grosso nas minhas memórias de Alzheimer. Que cor inha mesmo o cabelo dele? Eu não conseguiria delinear sua boca no minuto seguinte. Santa memória de Alzheimer! Tenho a desculpa perfeita! O que seria de mim se sentisse naquele pensamento o cheiro dele, e lembrasse do percurso de suas mãos sobre o meu corpo? Nunca. Apaguei tudo. Amnésia. Disse isso imediatamente quando alguém me viu em outra dimensão. Quem era ele mesmo? Disfarcei para os meus botões. Nem lembro. Amei mesmo? Foi? Como pude? Ele nem era isso tudo. Segundo as minhas amigas, "o-que-mesmo-você-viu-nesse-cara-arrogante"? Eu vi isso também. Claro que a gente vê também os defeitos. Mas eles só servem para a partilha final. E pesam... ui, se pesam no inventário dos mortos.

 

Sei que pensei e agora foi. Desse evento catastrófico e delirante eu nem me recordo mais. Quem se lembraria que aquele beijo molhado ficou tatuado por semanas na minha boca? E que eu guardei a blusa que me fez suar? Tinha um cheiro bom, eu gostava de fechar os olhos e desejar que ele viesse em todos os momentos em que meus guardados eram vazios de memórias. Eu pensava que era dele. E ele fingia que era meu. Mas eu não lembro agora. De nada disso. Mas sei que lembrei de pensar nele naquele dia e ainda nem sinto remorso por isso.

Para você ouvir

http://www.youtube.com/watch?v=0ukYrdaNSt4

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