Eu penso nele quando o batom acaba

 

 

Eu penso nele quando a fome me empresta uma mão e me faz procurá-lo por todos os poros. Ele navega em mim, e mesmo assim sinto a sua falta e a falta de todas as presenças que eram meio dia até o finzinho de todas as tardes. Ele me faz falta quando me revira as páginas e deixa a sua poesia como rodapé de minhas saudades e eu percebo que fui carbono em dias que não se deixava marcas de metades. A alma que gritava gêmea, definhou quando lhe negou um beijo. É de látex aquela fala e o sorriso, uma bijouteria de pouco valor ou nenhum valor.

 

Eu penso nele nos dias de feira e nos que ainda assim, me remetem a um cinzeiro de conversa jogada fora. Escrevíamos o amor em silhuetas e estrofes que ele detalhadamente sussurrava e me advinhava as curvas e cores. A poesia era a senha e o álibe o mapa de ansiedades e dúvidas. A cor do dia ele me escolhia quando me abria as asas. 

 

Eu penso nele nos dias que chovem e nos dias em que me parto ao sol, olho a minha pele que não tem mais o brilho da juventude que ele guardou com ele na carteira de cédulas. E quanto mais me prefiro esfinge, mais eu penso nele e a minha alma fica numa metade visível e outra incompreensível. Eu até economizo, mas o batom sempre acaba.

 

Eu penso nele quando o batom dos meus retratos reluzem no espelho e ao contrário me remete a um tempo em que eu delineava a praia de Tambaú e prometia surfe nas ondas de Intermares. (Ainda lembro de ter cruzado o oceano atlântico em sua fala sempre tão aflita de quereres e mágoas). Ele se vestia de minha pele e me contava os centímetros de suas metades dentro do apartamento em que me desenhava amor nas paredes.

 

Eu sempre penso nele quando o travesseiro me conta pesadelos e acordo na madrugada forçando o sol a lembrar-se de mim.

 

Ele se foi levando as minhas senhas, os códigos e o meu melhor vestido azul. E nunca mais desceram as chuvas fora de tempo e as margens fizeram silêncio em respeito às minhas ilhas.

 

Eu penso nele quando o batom acaba.

 

Beijo

 

 

Primeiro foi o cheiro e a metade de todas as coisas passadas que me fizeram leque diante de outros olhos. Os dele. Olhos de vidraça em manutenção. E no perto, onde aquela boca estava quando eu pensei miragens? Não é carência que molda o desejo. Se assim fosse, o vendedor de picolé que passa na praia me causaria arrepios. Nada contra o vendedor e nem o arrepio que ele possa causar. É que o animal em mim só acende perto dele, de ninguém mais. Mas isso não me tira a paz, ao contrário. Não é a falta que me cria o palco, é a cena que me faz desejar beija-lo quando ele é sorriso e lenda. Não me perguntem exatamente porque a lua acendeu agora minhas faltas e não no antes do que sempre foi depois. Não sei responder. Ele estava ali, pertinho, e a sua invisibilidade era meu porto bem seguro. Algumas culpas envelhecem conosco e só vamos perceber que elas existem quando os valores se confundem e se apresentam desejo.

 

Viro a página todos os dias para escrever novas manhãs. Mas nunca consigo alterar a cor branca e pálida de minhas lembranças, como marca dágua de novos registros. Elas doem, sangram e no fundo, algumas, são pequenas dores de estimação.

 

Ele me pediu um beijo de verdade e eu me apercebi que todos os outros tinham sido de mentirinha. Eu tinha perdido as chaves de abrir o beijo que eu queria ter. Pensei em todas as fomes e aquela espera disfarçada de jejum poético ardia em minha boca um hálito de esperas e sonhos. Era marrom o meu batom.

 

- Quer algo para beber?

- Não, nada.

- Cerveja, coca-cola?

Fiz sinal que não com a cabeça. Ele lia nos meus olhos de minhas outras sedes.

- Beijo na boca, aceita?

- Sim. Respondi brincando. (Tenho sede de tuas falas e a palavra que derramas é a que me preenche e enfarta).

 

O moço fez um silêncio de épocas e de dúvidas. Tantas. O ontem e o antes de depois me diziam, por que não o dei quando? E por fim, o beijo de crianças que arriscam experimentar o novo. Selinho. A boca encostada à minha, ria. E a minha que ria com ela, nem acreditava que seria sim.

 

Eu quis aquele beijo. E outro. E mais outro. Eu quis telefonar e dizer do quanto tremi quando a sua boca fez em mim rios e densa floresta em chamas. Mas não era o tempo, ou era. Nem sei. Sei que as nuvens expostas em um véu anunciavam chuvas fortes e lamaçal de encrencas e eu tive que embarcar naquele vendaval que estrategicamente me tirava dali. Ele sabe que me detém, mas eu não abro com todas as chaves. Aliás, tenho um dispositivo de perigo, e sempre que ele alarma, saio a tempo de não sofrer danos. Quando o dano é inevitável, abro uma clareira, acendo uma fogueira e tento aprender com os passarinhos a não temer as tempestades. 

 

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