Imagem: Natureza na mão

Mão única

 

 

Me parto ao meio para entender o movimento do sol. Não tem jeito. Fazemos as ruas e nos perdemos em labirintos que traçamos em muitas esquinas. É doce a lembrança e a imagem em mar. Nem dizendo tudo o que sinto comporia meu azul.

 

Traço outros atalhos, desenho outras esperas e coloco flores na janela sem a menor intenção de que elas murchem. Quero mais que as flores virem gerânios e girassóis, quem sabe assim o maio se transforme em setembros sempre ensolarados, abrindo portas para o esquecimento.

 

O dia me pega de um jeito morno ainda na cama e me finjo de morta para não ter que viver o mesmo dia de ontem. Em mim tudo é vontade e esperança. Por isso alforrio os medos, desejo o mesmo para outros desejos e fico quietinha esperando a noite chegar. Estou cansada.

 

Parte de mim se entrega silenciosamente em alguma rede de frente ao mar e a outra grita silêncios intermináveis e sombrios.

 

A minha boca guarda um único beijo com endereço marcado e um sinal de fogo na entrada, mesmo assim contabilizo marcas em uma parede que desmorona e ri de mim o dia inteiro. Eu sou mais forte. Madalena ri de minhas fragilidades, mas em pouco difere de mim.

 

Mudo as páginas e o calendário cinza na parede que pintei azul. Sou uma concha e um fio quase partindo em dois. Estou sozinha em um campo longe e um verde esquisito. As vezes so(u)rrio, as vezes sou mar. Quando estou lua, cheiro. Quando estou farta, ilha. Em todas as fases, mantenho-me portas abertas e música produzindo em mim palavras estranhas aos ouvidos normais. Tenho a alma agradecida. Mas sou metade quando chove.

 

Não escondo palavras, armazeno poemas que nunca falam. E quando o dia se encerra leio relatos de dores de avatares perdidos em 3D e só então compreendo que há falta onde a culpa grita. Há pedaços onde o que foi inteiro se vestia mentiras repetidas sumariamente até que se cumprissem desejos verdadeiros.

 

É amor o discurso eufórico dos passarinhos no cair da tarde. Isso não se pode mudar, nem que seja preciso podar as árvores da palavra saudade.

 

De longe vem a cura. Demasiadamente lenta e dolorida, como quem trata homeopaticamente uma doença quase incurável. Sei dos caminhos de mar alto. Mas sei também dos rios, onde minhas asas de gaivota mergulham, e quase sempre, pescam preciosidades e carinhos.

 

Cubro a cama com vontades e adormeço sem ouvir o que eu mesmo grito dentro de mim. O meu corpo é de faquir. E que me corta é o que me sara em frente e verso de um unquento novo de uma poesia longe. Meu tempo é quando e aquela vontade era apenas marcas de um batom fácil de perder a cor. Outras marcas são invisíveis aos olhos mais exigentes.

 

Quem sabe de mim é a lágrima que me embala.

Dira Vieira

Clique na imagem  e veja de onde a retirei


Canção de saudade e de pele

 

 "Não consigo ouvir nenhum som em Nova York, apenas sinto o
 meu coração"  (Filme Mensagem pra você)

 

 

Tenho pacto com o inverno em minha pele. E quando o calor se transforma em frio, vejo os olhos dele me pedindo desesperadamente que não o deixe só. O amor sem interesses e com tempo marcado para a decepção abre espaço na sala e me acomoda em frente a saudades e uma TV em preto e branco.

 

Tenho o frio dele em minhas canções... e quando ele diz que se vai, vou com ele em minha solidão. Porque os dias se arrastam em um tom que desconheço e uma saudade me chama por outro nome. O nome descreve disfarces de ilusões, mas o amor, verdade que me dá asas, dilata os espaços e ganha amplitudes que eu desconheço, redesenhando o vestido que uso em um azul de esperança e paixão. Eu inventaria tempestades para te imaginar meu.

 

Todos os dias me lembro de palavras que abriam a tarde e desligavam sons que inventamos para recriar sonhos novos. Sonhos e filhos nossos. Eu tive os filhos que ele queria e os criei olhando estrelas, sem que o pai pudesse ensinar-lhe os primeiros passos.  

 

Eu tenho pacto com o frio da palavra dele cantada em versos de um colorido marron de ausências. Mesmo e ainda assim, traço caminhos que não voltam e ondas em um mar azul de intenções nada saudáveis. Ainda assim vou beber em sua fonte para colher de mim as mais profundas declarações de amor.

 

Na pele, nem que eu quisesse conseguiria retirar a promessa. Faz frio. E o vento que antes tinha nome e som, mudou a rota de encontros e escondeu o que era certo e verdadeiro. Eu amei. Ou amo ainda, não entendo ao certo as rotas desse coração que se esquiva de narrar os fatos. O que de fato existe é esse peito que arde e essa suada saudade de esperas. Ele tinha o contorno exato da minha boca quando o meu nome sussurrava em seu/meu pensamento. Gostava de me ver voando e ensaiando vôos com ele.

 

Talvez o meu amor tivesse lugares escondidos e se ressentisse de falar a verdade. Mas quando a sua canção me desenhava dias sem ele, eu já nem era e nem me permitia ser naquela falta e assim, me esparramava na sala que ele desenhava e via os filmes sob o olhar de braile de suas mãos me desenhava culpas e esperas.

 

Eu tenho pacto com a saudade e todas as vezes que penso nele um alfabeto de quereres me molda a pele e estampa a minha fala.

Outras mulheres, antigas sombras

 

Imagem: Di Cavalcanti

Há um gosto estranho em minha boca quando ele chama o meu nome mesmo que sem querer no meio dos tumultos. Nos rios secos, tento proteger cobrindo de folhas as nascentes para que possam ressuscitar de vez em quando.

 

Quantos mares me faço enchentes em suas cordilheiras se nem ao menos sei das florestas que cresceram onde você fazia morada em mim? O templo é tempo ocioso e já não tenho medo de nada.

 

Como ilha, segredo-me do mundo, separo-me das multidões porque me falta a gota d´água e os fios invisíveis. Retrato os desertos de como eu me acho esfingindo-me a cada ilusão ou martírio. Tenho os riscos de viver sobre a pele e não me queixo de quase nada. Senão de deixar-me tocar pelos silêncios e acender a pele dos meus desertos.

 

Quando fecho as portas abro em mim as outras mulheres que só eu domo, recrio e me visto de nus para outros descobrimentos. Nunca acreditei no reencantamento até pousar a minha boca sobre a tua, como se despertasse de um longo e dolorido inverno – era deserto quando te vi oásis, quase miragem. É um sonho e a Madalena que adormecia em mim se agarrava àquela boca com a fome que não mais sufocaria crias e necessidades tão íntimas.

 

Eu me neguei tantas vezes que nem Pedro conseguiria contar nos dedos todos os nãos ditos ao longo daquela existência. Disse não quando a boca pronunciava culpas e salivava esperas. Negava-me a contar estrelas, negava-me a chorar ruas passadas, mas todas as vezes que ele me tocava, nem que fosse de longe, passava a revisar minhas páginas viradas e aqueles sinais do diário conjunto exalava todos os desejos por ele. Amava acima de outras lutas e mesmo assim não conseguia escrever outras histórias, deixava sempre um final aberto, um sinal que não avermelhava nunca. Chorava o sim quando nos despedíamos na esquina de casa e Pedro voltava sozinho acompanhando outros abismos. Somos feitos de ilhas desencontradas e de abismos íngremes.

 

Eu sempre desejo assim, quando a música canta, o silêncio grita e o carro em disparada lambe uma estrada que provoca desertos e medo. Não conheço seus dedos, nem a velocidade do seu pensamento e ainda assim me pressinto tentativas de ser feliz além do que é possível desenhar na minha face apaixonada. Ele sabe e eu desconfio que me engano e todas as tentativas são inúteis para acender castelos na areia, como se fossem cigarros em minha mão que acena despedidas. Ele ama a si mesmo no espelho e competir com isso eu não posso. Esqueci de tecer sacrifícios de tolos quando ainda era bem menina.

 

Aquele olhar nem sempre me vê e quando se esconde, pisa outras areias, calça outros ritmos, sufoca dores e explode quase sempre onde o meu olhar não o alcançará. O tempo é de choro e de ressentir-se do vazio que me supera, mas o amanhã me traz sorriso e noites insones de puro amor e contentamento. Madalena nunca desiste, reage às tempestades como quem as aproveita para mergulhos mais profundos.

 

Não tenho respostas, nem formularia perguntas impossíveis com suas dúvidas óbvias. Resta esperar que esse dia chuvoso carregado de mistérios traga algum alívio. Enquanto isso, acato silêncios e soletro desejos.     

Madalena em mim descansa de mais uma batalha e quanto mais o campo machuca os meus pés, mas me desejo ali, amando-o e desejando-o como se mais nada me completasse quanto aquela imagem do menino que acredita que é alguma espécie de deus.

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