Imagem capturada no endereço: http://migre.me/15jt9

Todo o bem que houver

 

A Si e a Luis Fragoso, e a quem mais possa interessar, com imenso amor

 

Por um instante Madalena riu. Lembrou-se que se olhasse bem de pertinho, ele veria mais do que ela poderia mostrar. Não era assim? Ela se traia, o tempo todo, porque seu olhar é uma grande vitrine de seus guardados. Não se pode encostar sem esbarrar no dentro. Não há voltas quando se entrega o tudo. Ela sabe, ele lê o que ela não diz. Ele não era bobo. Nem ela a tão sabida moça de guardar o que não podia mostrar. Os segredos estão estampados na sua pele. Era só fechar os olhos que ouviria a música ao fundo. Se o tocasse saberia que não podia, feito criança que logo começa a entender a palavra não. Madalena rir de evitar o fogo, mas sai chamuscada ao proteger o rosto. Sentia-se nua diante do sim. E essa sensação era até confortável em alguns momentos. Em outros não. Nos primeiros momentos, Madalena relaxava e entregava-se àqueles cuidados. Era das metades completas. O longe que acenava esperas.

 

Entre eles uma troca silenciosa de afetos. Era bom sentir sua respiração bem pertinho. E saber que um cuida do outro... Aproximação sem dores. Madalena tem solidões em seus guardados não ousando contar para ninguém e quando está só veste a vontade de amar e sorri enquanto dorme como um anjo que desperta para traquinagens.

 

Não! O pai acenava ao longe e a moleca se divertia ao chamar a atenção dos seus medos. Madalena não recua quando sente fome. Ao contrário, come os pesadelos e distrai-se no caos em que alimenta suas faltas. Ela é imensidão.

 

E nessa troca, Madalena desviou o olhar. Ele leu a sua esquiva. O que eu falei? Perguntou o moço. Madalena abriu a janela que a guarda em outro instante e pensou no longe. No centro de si, centro da terra enquanto caminha sobre as águas. Sempre só. Ninguém sai sem arranhões quando beira os precipícios. Preferiu livrar o momento. Para que perder aquele lugar seguro? Há tempos que não pisava em terreno seguro (?). Não temia queimar-se na fogueira, criança brincando com fogo antes de dormir. É seguro estar perto. É seguro ser dentro. Ele tem a segurança na fala de outros trovões. Mas não a assusta, ao contrário, acalma, ateando fogo em seus imensos vácuos. Madalena sabe quando vai chover, é normal tremer de longe ao ouvir a pele em voz alta. Sabe que deve pisar com cuidado para evitar as minas.

 

(pensava em provar aqueles lábios devagarzinho, centímetro a centímetro enquanto lhe faria uma canção... todas as palavras eram insuficientes nesse momento para explicar isso. ele a letra, ela a falta de parágrafos)

 

Ele sabia. Madalena sabia. Mas para que falar? Os segredos se mantinham bem guardados. Para que abrir se isso a vestia? Madalena é o segredo e a porta fechada, dentes trincados no frio e no silêncio. E quando ele a toca, um dedo beira a fechadura. Por isso que ela treme. E ele sente. E o escuro os protege.

 

Os dias se desenham despedida. Quanto mais longe, a intimidade das dores à mostra. Madalena ri solta. O moço não entende. Madalena brinca, mas reserva-se guardada em suas caixinhas onde empilha as cartas. As que trocavam e as que traduziam. Tinha todas as ruas na ponta da língua e não calçava sapatos... disso bem sabia e as vezes ria comedida. Quem sabe assim, Deus permitisse ao menos que ela sentisse aquele cheiro bom de homem. Cheiro de homem da cidade. O suor, o hálito, o faro para coisas que flutuam. O dia recolhe seus braços e Madalena dorme ao ser vencida pelo cansaço.

 

Ele a chamou de boba. E era bom sentir o corpo arrepiar sem culpa. Sentimento de espera. Ansiedade acomodada na pele. Diga quando quiser, não tenha pressa e nem espere o que volta.


Apague a luz, pediu silenciosamente à lua e ela obedeceu. 

 

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