CARTA ABERTA AOS AMIGOS

Queridos amigos, estou escrevendo esta carta não para pedir votos para A ou B, mesmo porque, todos que me conhecem já sabem qual é a minha posição 
política. O que tem me incomodado e me causado indignação nesse segundo turno das eleições presidenciais é o tom preconceituoso de gênero adotado pelos 
articuladores da campanha do tucano José Serra. 

Como mulher, mãe, dona de casa, universitária e trabalhadora, me sinto profundamente ofendida quando ouço frases do tipo: ela não vai dar conta! Não 
vai dar conta? Traduzindo: nós mulheres somos incapazes, é dessa forma que meus botões estão interpretando essa infeliz tentativa de desacreditar a adversária em função do seu pertencimento sexual, ou será que estou delirando?

Como no primeiro turno o discurso da terrorista não surtiu o efeito desejado, apelaram no segundo para o fundamentalismo religioso com a questão do 
aborto, que caiu por terra graças ao telhado de vidro da candidata à primeira dama Mônica Serra, não deu certo nem mesmo com o candidato tucano dando um de papa hóstias em todas as missas que ia. 

Como disse Marcos Coimbra a Srª Mônica Serra "sem que ninguém imaginasse que existia, desabrochou uma devota, disposta a carregar a imagem da santa (Nossa Senhora da Aparecida) em peregrinação para confortar os mineiros do Chile (país onde nasceu). De missa em missa, não relutou em apagar o que havia sido e dito, cumprindo com seu dever de esposa" (Carta Capital, 27/10/10, p. 36).


Para quem não sabe, o nome da esposa do presidenciável tucano é Sylvia Mônica Allende Serra, naturalizada brasileira, tem um parentesco distante com Salvador Allende, que foi presidente do Chile, aliás, primeiro presidente socialista da América Latina, deposto pelo golpe militar de Augusto Pinochet em 1973. 
Com certeza Salvador Allende deve estar se revirando no túmulo ao ver o que sua parenta anda fazendo por essas plagas, como diriam os gaúchos.

Aturei até onde foi possível para um ser pensante. Mas agora cansei de ficar calada, esse discurso sexista mexeu com meus brios feministas. Eu, cá com os 
meus botões fico pensando: será que os encarregados de articular a campanha do candidato tucano são burros mesmo ou eles acham que os brasileiros (mais 
especificamente as brasileiras), são acéfalos (as)?Outra frase que me causou profunda indignação foi a de que "sem chefe ela não funciona", em outras palavras, eles estão dizendo que nós mulheres precisamos estar sempre à sombra dos homens porque somos incapazes e precisamos que eles nos digam o que fazer. A Srª Serra, esta sim, vive a sombra do seu marido, inicialmente como esposa do governador de São Paulo ocupando posições 
secundárias e assistencialistas que "cabem" as primeiras damas, e agora, encarregada de difamar a adversária do seu marido, espalhando boatos maldosos do 
tipo: você sabia que ela é a favor de matar criancinhas? Papel ridículo e triste este desempenhado por uma mulher que foi bailarina integrante do Ballet Nacional 
Chileno, professora aposentada da UNICAMP, assessora pedagógica do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, que possui mestrados nas universidades norte-americanas de Cornell e Drexel e doutorado pela USP.


Considero a mais grotesca das formas de desacreditar as mulheres a que li na carta capital hoje: "no rádio, um dos enquetes veiculados no Nordeste mostra 
dois homens conversando, um deles dizendo ter sido 'arrasado' por uma mulher chamada Wilma. O outro responde: mulher é assim mesmo. Não fica assim, essa mulher tem várias caras" (Carta Capital, 27/10/10, p. 35). Ah tá! Além de incompetentes também somos falsas e mau caráter. Atitude típica de desespero ou 
pura maldade?

Para aumentar a minha indignação estão tentando agora desqualificar a adversária do tucano com insinuações de que ela é lésbica, como se o fato de ser 
homossexual fosse um crime previsto no código penal ou que isso interferisse na capacidade de gerir o país. Mas ainda pode ficar pior, como a presidenciável não é casada, só falta agora sugerir que o problema dela é falta de homem, como costumam dizer os machistas de plantão quando não tem mais argumentos para desacreditar uma mulher.


Agora a pergunta que não quer calar: que tipo de políticas públicas voltadas a nós mulheres, caso fosse eleito, podemos esperar de um presidente que acata um discurso autoritário, tacanho e machista contra a sua adversária? E se fosse um adversário eles agiriam assim?
Espero sinceramente que as mulheres que representam a maioria do eleitorado brasileiro dêem ao candidato tucano a resposta que ele merece nas 
urnas.

"os progressos da razão são lentos, as raízes dos preconceitos são profundas".  Voltaire

Um grande abraço a todos. 

ELIS DENISE GONDRO

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