CANÇÃO DE DESPEDIDA

Eu tento ser leve. Volta e meia vou até a varanda, solto os cabelos, sinto a brisa do mar invadindo a alma, dou um trato na taça de vinho e me abasteço de alguns goles de saudades. Elas sempre estão comigo. Saudades múltiplas. Saudades inclassificáveis e até inexplicáveis. Aquelas que vez ou outra me assombram de levinho, quando suavemente chegam ao fim do dia, na ponta dos pés e me tocam a nuca, com lábios gelados e hálito refrescante.


Eu tento ser breve. Sei que ele tem medo de mim, ou dele mesmo - não sei - e ainda assim quando o vejo desviar de olhar diretamente, sei que ele guarda a si mesmo em uma caixa tecida com os sonhos dos outros. Ele era um menininho quando a mulher da floresta colocou-o numa casa na árvore e todos os dias pedia para que ele colocasse o dedinho para ver se tinha ganhado peso. Ele ganhou medo, várias caixinhas de medo em que empilhava suas faltas na sala da casa da árvore. Talvez ele quisesse engordar. Mas preferia fingir-se magrinho a fim de demorar os dias ali.

As bruxas sabem. As fadas imaginam.

Madalena que sou, não me encaixo em molduras. E talvez o bordão que carrego seja a minha identidade: esse mundo não é meu, sou de um outro planeta onde as pessoas não se negam a sentir.

 

Deixo a porta aberta na esperança que eu nunca mais entre eu também. Porque recuo os dedos de caminharem em sentido oposto. Mas sempre dou voltas em mim mesma e quando me percebo, estou eu a ensaiar partidas, sempre sou eu que parto primeiro.


Eu agora vou e não é culpa dele. Nem minha. E não precisarei dar explicações. Nem justificativas e nem defender tese alguma. Ele sabe e fica quieto. Eu sei e grito o tempo inteiro, rasgando-me em silêncios que me implodem o dia inteiro. Pesa sobre mim a incapacidade de invadir seja lá o que for que esteja aberto, ou fechado. Vivemos de correntes e segredos. 

 

- o homem conversava em voz alta dentro do ônibus e eu sonhava com o sussurro dele no meu coração –

 

O vestido encalhado na porta do quarto ainda diz de mim, mas já não pode escrever versos. Sim, Madalena é louca. Visto lilás de um domingo que espero e depois, roo as unhas de impaciência quando o que quero tem outra sigla e sina. “Nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo...”(Djavan)

 

Alio-me a brisa em desertos tumultuados. Em todo o tempo, a casa é o jardim e a vala. O meu critério é a partida. Acostumei-me a recuar. Sempre. O recuo é a minha defesa e a proteção do campo do outro. Quer ir? Vá. Não irei atrás mesmo que o tempo seja estar em sua companhia. Faço silêncio e me parto em duas: Clarice que suporta, Madalena que esbraveja.

 

Nunca fui atrás. Nunca tomei o telefone de assalto e liguei chorando. Nunca tomei um pileque e liguei para o outro de madrugada pedindo pra voltar. Nunca me expliquei, nunca me justifiquei. Aprendi a deixar ir o que se incomoda em ficar. Não sei se assim estou certa. O meu maior escândalo foi me permitir desejar. 

 

Mas não é uma posição confortável. E também não é covardia. É respeito. Mas quase ninguém entende isso. Eu apenas recuo do recuo do outro. E o corpo que fica se parte e se reparte em milhões de pedacinhos até que não reste nada. Senão outra esperança de mais pedaços.

_ quando o seu corpo esbarra no meu os animais silvestres se recolhem em silêncio em suas casas. eu desejaria a festa, mas o recuo é o mote e a tábua de salvação -

 

Ele sabe. Eu sei que ele sabe e ainda assim eu recuo. Fecho os olhos fingindo sono e peço ao dia para acabar mais cedo. É como desligar o celular e saber que ele não vai chamar estando assim.

Eu até tento deixar de amar. Mas o tempo é outro. E por mais que o silêncio da varanda me conforte em eclipses, sei que o coração dorme lá, com ele, embrulhado em alguma dúvida. Enquanto isso, arrumo a minha própria casa da árvore sabendo que nada disso me consola, sem o físico, nem o metafísico e nem as lembranças de fuga. Quando ele me manda embora, eu me sinto como quem não tem para onde ir.

 

A pergunta ainda ficou no ar. Mas para que responder se ela não era fato, era apenas uma suposição? 

 

Eu até tento supor. Mas não sou de prever a chuva e as temperaturas altas me causam tremores. Quando ele se vai é que me corpo descansa de tanto esperar.

 

Eu vou sentir a falta de chuva. E vou lembrar quando o cheiro do mar invadir a minha falta. Os meus pés procurarão o céu e vou tentar segurar com toda força o chão.

 

Eu até tento me fazer de forte. Mas quando estou só, pergunto a Deus porque não consigo ser igual a todas as pontes. Em mim, o que está suspenso é que se torna sólido e o que evapora é o que me codifica.

 

Eu penso nele. Mas isso é um tempo perdido porque ele jaz em mim em esfinge.

 

 

 

CONCHINHA

 

Esperou que ele dormisse para absorvê-lo completamente em seus olhos. Ele dormia na posição fetal. Como um passarinho, guardava a memória dela debaixo das asas. Memória de luas. Madalena sorria ao olhá-lo por longas horas enquanto ouvia Roger Waters cortar a noite naquele silêncio de paixão. Nada mais importava ali senão esquecer de entender o nome que daria àquele sentimento. Era impossível encaixar aquele sentimento em alguma prateleira. Ele subvertia todas as ordens. Era tão bom estar ali... sem prazo de validade, sem hora para acabar.

 

Levantou-se com cuidado para não acordar o moço e dirigiu-se até a varanda. Os cabelos soltos sobre os ombros e o vestido longo amassado deixava-a com uma aparência de deusa que acabara de acordar de um longo sonho... mas era apenas Madalena. Sorriu de si mesma enquanto pensava nessa cena e suspirou de prazer por estar ali naquele momento tão perto do passarinho sem que ele temesse assustar-se e voar pela janela.

 

Não é a gaiola que nos prende é a porta aberta.

 

Madalena sabia disso porque tinha por hábito nunca fechar as próprias gaiolas. Deixava se levar pelas primaveras e o cheiro suave das manhãs após noites deliciosas ao lado dele ou de si mesma. O melhor de outro é quando o estar sozinha, o silêncio de si é o outro fazendo festa dentro. Madalena compartilha o ar que respira porque de outra maneira seria egoísmo demais querer apenas para si.

 

Ela não o prendia. Ele não se prendia. E Madalena sonhava em encurvar-se até tocar o seu coração em conchinha e adormecer ao seu lado, com uma imensa vontade de mares. O formato do seu corpo em conchinha acariciava a sua imaginação. E Madalena preservava aquele momento, eternizava aquele sono, e se fazia conchinha nele, esperando que o dia amanhecesse e os surpreendesse assim. Uma só pele e mil pessoas ao redor os guardando em multidões.

 

Ricardo com as mãos entre as pernas e a cabeça curvada sobre o colo deixava-o protegido do mundo. E enquanto Madalena sorria mexendo nos cachos, deixou-se prender em seus braços, as costas que a ligava a ele naquele abraço. Era apenas um pássaro e Madalena nem ousava contê-lo.

 

Ao longe uma porta batia. Alguém fechava um portão, um cachorro latia e a lua se escondia em sinal de respeito ao que não se podia podar, grama crescendo ao redor dos riachos e as asas traduzindo o perfeito.

 

Madalena vive em rios e até que a noite se afaste e o sol os resseque, ela cultiva o cheiro e se alimenta da alma do outro, sempre em silenciosa procissão. Porque estar dentro é melhor que o frio da rua. 

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