Imagem capturada na Internet, sem autoria.

ESCADAS

A despedida embrulhou o estômago e ficou com as palavras fazendo aquele barulho estranho no dentro. Poderia até imitar com a boca e morrer de rir pela ingênua e aparente insatisfação naquele momento. O que foi aquilo?

 Fechou a porta quando o elevador se foi e o levou também. Madalena olhava o vazio na frente da porta e não entendia o que tinha sido aquilo. Afinal, que olhar foi aquele? Por que Madalena não tomou a iniciativa, ou ele? O que foi aquilo, minha gente? Ficou com a imagem da boca dele, ao longe, pronunciando um “boa noite” quase sussurrante de quem não sabe para onde vai.

O apartamento, de três andares, continha escadas infinitas e sombrias que levavam a espaços mais abertos. Subiu lentamente degrau por degrau tentando entender aquela dor súbita que lhe comprimia o ventre. Tinha ainda a marca das mãos dele em suas costas. Mãos de profissional, apenas. Que pena.

Enquanto passava de cômodo a outro, ia apagando as luzes e deixando para trás mais distância e escuridão do que percebia. Era ela que ia ficando aos pedacinhos quanto mais se distanciava dele. Ele estava indo embora. Ela sentia.

A escada, em estilo colonial e antigo, produzia um rangido quando Madalena a tocava degrau por degrau. No ambiente, o silêncio da noite era quebrado apenas pelo canto dos seres noturnos, grilos, sapos, rãs e cães que ladravam por coisa alguma. Pensava em cada passo que dava. Subindo para o andar mais alto, queria ficar distante dele, como se isso fosse possível mesmo que absorvesse a sua indiferença. Ele era apenas o profissional que fora chamado para tocar a sua pele que ardia incansavelmente. Na verdade, a falta é uma ferida que sangra o tempo inteiro e uma dor quase insuportável de se conviver. Madalena tenta absorver isso enquanto sobe as escadas para ficar mais longe do chão.

(lembra quando ele disse que nada os afastaria um do outro, houvesse o que houvesse? Era pura fantasia, porque o amor não sobreviveria ao medo)

Ouviu quando o carro dele partiu. Observou da janela que ele ainda ficara por um tempo dentro do carro, no silêncio lá fora e podia jurar que ouvira os seus pensamentos. O que se passava na sua cabeça? Ela daria tudo para saber. Por alguns minutos e silenciosamente, Ricardo ligou o carro, fingiu que esquentava o motor e partiu deixando Madalena com a sua multidão de dúvidas.

Enquanto olhava-se no espelho, a algoz de si mesma parecia gritar de dentro dele. Madalena não consegue mergulhar naquela mulher que a reflete no espelho. O olhar dele a guiava para longe de si. A indiferença machucava naquele momento, como se alguém negasse regar uma planta presa em um jarro à mercê das águas que saem de sua boca. Madalena nunca mais seria a mesma, depois daquele toque. 

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