Mulher ao telefone

Foto de Philippe Ramakers

Depois que o telefone tocou

 

Ficar em casa sozinha era sinônimo de pensar nele. E pensava tão intensamente que se afogava em sua própria saliva. Não poderia se distrair com outra coisa. Nem se quisesse, conseguiria. O corpo dela gemia por ele. Algo indescritível que jamais poderia traduzir para alguém senão ele. Ele entendia. Mesmo quando disfarçava. Mesmo quando virava o rosto para o outro lado, mesmo quando fugia. Sérgio entendia o que Madalena descrevia porque era a própria caça. Com ele, ela era todos os papéis e principalmente, a mulher que talvez ele quisesse e que ela desejava ser.

(Ele escreveu na pele dela o homem que seria se tivesse alcançado a montanha. Mas isso era muito pouco para o que ela esperava e morria de ciúmes)

Quando fincava os seus dentes nele, e via a sua expressão de dor e desejo, Madalena se sentia sobrenatural, mas nunca dona, porque só reagia em pleno vôo e desconhecia todos os termos de propriedade. E como costumava repetir, nem era desse mundo para explicar aquele momento. Porque em alguns instantes mesmo ela, a super tudo, se sentia a mulher frágil e delicada que necessitava mesmo era ser arrebatada por aqueles braços másculos e por aquela boca ávida de todas as suas chuvas. E como chovia densamente, bem pequenina ao seu lado.

Só ele tinha aquele cheiro de homem que ela desejava quando lhe emprestou a jaqueta no frio. Só ele e mais ninguém.

Não queria os laços. Tinha medo daquela teia tão tênue que os adornava e individualizava. Teia de medos, teia de limites, teia de fartura de alma, teia de melancolia, ao mesmo tempo em que podia fechar os olhos e não temer os abismos e os vácuos. Por que se importaria com o fim, se o limite era a sua boca encostada tão sutilmente na sua? Por que morrer na véspera do estio, quando o seu corpo era floresta densa de segredos tão delicados?

Não pediu, mas poderia ter evitado. Bem que evitou, bem que clamou aos céus socorro que no tempo certo até veio, mas que a partiu bem no meio de dores antigas. Madalena se repetia em suas tempestades porque já era bem farta de muitas lágrimas. E nem dispôs os pés de todos os abismos porque já estava ali, despedindo-se novamente de sua vontade que gemia tão alto que o mundo inteiro poderia ouvir.

É dele que vem toda a inspiração. Madalena sabe. E ele desconfia porque tem medo quando o seu próprio corpo grita, acostumado a sufocar seus gemidos.

Sérgio ligou. Madalena não entendeu. E o fim de semana vestiu outro tom, o corpo voltou a tremer, como em outros terremotos.

O dia abriu clareiras no céu, e afastou as densas nuvens que se erguiam sobre a sua solidão, mas isso não quis dizer nada. Madalena já previa que deveria despojar-se daquele desejo o quanto antes. Antes que os danos viessem. E eles vieram, talvez apenas para um lado. Mas vieram. E ele ainda a culpou por existir, ali, bem no meio do desejo dele.

E agora, como faria para parar de pensar nele, depois daquela ligação tão desproposital?

- Você está bem? Perguntou o moço, como quem talvez nem queira mesmo saber.

E Madalena respondeu: - Estou. E eles não sabiam mais o que dizer. Mesmo que ela quisesse lhe dizer todas as faltas que ele lhe fazia. Mas isso era pouco demais para todas as angústias.

Não havia lhe fechado as portas, mas não o mandaria entrar. Preferia que a necessidade dele a tomasse de assalto sem nenhuma justificativa. Madalena abdicou de todas as respostas para ter a dúvida sobre ele como terapia. E isso lhe conferia outra oxigenação.

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