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Como chuva sobre a pele

 

Madalena é toda festa. A palavra se apossou de sua pele e forçou sucos de caminhos até onde nem sabia mais se poderia. Mas ele pode. Tocou-lhe na possibilidade e o coração surtou de uma maneira diferente de todas as vezes em que foi janela e varanda a contemplar salivas e solidão.

O moço veio de repente. A janela aberta, a noite caindo, suas asas batendo no fora quando já era no dentro onde ele morava. Madalena o sabia de endereço invisível, mas o cheiro, ardia em suas entranhas como se nunca tivesse nem saído do seu peito.

Cada palavra que ele falava pedia permissão em suas entranhas e a resposta era um tremor quase incontrolado. Madalena sorria. Madalena chorava. Tomava aquela companhia em doses embriagantes de uma idéia que já habitava em si. Todas as noites, inconscientemente, Madalena o visitava e ali, silenciosamente, sentia o cheiro dele, e a alegria e as suas angústias e sorvia o melhor dele... a invisibilidade de quem vê além do que está na frente.

Madalena viu suas asas. Boca carnuda, braços fortes e aquele nozinho na garganta que ela tanto admirava nos homens. Não quis sexo. Não o olhou com pecados. Viu-o na janela, roupa branca e delicada a tirar-lhe o fôlego.

Esperava-o por tantos anos que nem sentiu quando as suas portas estavam todas abertas e a sua intimidade de pele exposta languidamente. Mas não era tão simples assim. Nada que pudesse ser representado por beijos, toques, suores noturnos. Intimidade de corpo não abre a intimidade de pele. Mas ele estava ali. Dentro. Onde apenas quem ouve, pode sentir uma mulher.

Madalena não entendia. E mesmo tendo todas as respostas, não poderia traduzir aquela pergunta que se fazia alegria e prazer retirando a sua estrutura e paz dos dias de espera. Não poderia mais explicar todas as coisas, porque ali, diante dele, ela era encontro e partida ao mesmo tempo.

Madalena não fez nada que a impedisse de estar ali. Não impôs regras, não abriu as asas para não incomodar. Alargou sua esperança, ajeitou a flor no cabelo e saiu para pescar sonhos, mas ele já estava ali, na curva em que ela evitou, mas pronto, como se ele mesmo já soubesse porque veio buscar o que o tocou ali atrás. Ele sabia, e ela desconfiava de todas as culpas.

Sorriu. Secou as lágrimas que ele produzia e arrumou-se à parede para não cair, mas era completamente inútil. Estava entregue em vírgulas, parênteses e luas. Não podia mais esperar que outra lua cheia a deixasse de fora daquele mar. Ele a disse oceânica para dizê-la profunda. Ela o disse precipício para dizê-lo presente. Ela teve medo que ele se fosse. Ele perguntou porque ela o queria ir.

Sabia que não tinha portas. Nem travas. Nem ilusões. Sabia de curvas na pele de dias a mais que aquele encontro. Mas ele não se importava tanto assim com o que a feria. Ele, a ela, lambia-lhe as feridas e esquecia-se de suas próprias.

Era tão longe aquele cheiro, mas ela não o decifrara. Abriram-se as cordas, soltou-lhe o medo e disse sim, sabendo que sua alma de faquir entregava-se novamente para esse mergulho. Ela o olhou, mandou-o ir e vir. E ele veio e foi. Mas o corpo trêmulo continuava chorando aquele encontro que a ninguém explicaria.

O que viria na palavra seguinte, se todos os corpos em desejo seriam apenas um o que o traduzia?

O moço saiu. Mas isso não cessou o barulho que fizera ao entrar no quarto, onde Madalena já o esperava, por longos anos.

Não era sexo. Não podia ser, já que isso se tornava pequeno diante daquele momento. Madalena buscava de todas as formas explicar aquele encontro porque se dava às explicações dos fenômenos. Mas quando disse sim às lágrimas, dizia sim ao moço que a tocara de longe, quando o visitou pela primeira vez e como por milagre, esquecera de como lia as pessoas que a tocavam todos os dias. O barulho que veio com ele, adornava-a de uma paz sobrenatural. Podia pisar na grama, porque já se fazia flor na sua presença.

Madalena não tem sono e traduções. Nem pode dormir o seu corpo de esperas. 

 

 

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